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19 de junho a 3 de julho de 2006

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NOVA LINGUAGEM
Interatividade do Museu da Língua Portuguesa atrai públicos diversos
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

anhã de sábado ensolarada em São Paulo, apesar do outono que não engana mais ninguém na antiga “cidade da garoa”. Bairro da Luz, região central: uma fila de cerca de 500 metros percorre a parte lateral da estação de trem da Luz, construída no início do século passado pelos ingleses, em uma rota que levava café para o Porto de Santos e de lá para a Europa. E nela havia famílias, crianças, casais, jovens, todos na espera de entrar no evento cultural da moda da capital paulistana: o Museu da Língua Portuguesa, que aparece quase toda a semana em algum noticiário da TV Globo, desde sua recente inauguração.

Em apenas cinco minutos de fila, 25 pessoas entraram nela atrás de mim. Muitos passavam incrédulos aos saber que se tratava de uma fila para um museu. “É fila do quê isso, hein?”, indagou uma mãe que andava apressada, enquanto puxava sua pequena filha pelo braço. “Essa é fila pra comprar bilhete”, questiona um rapaz, que, quando eu respondo “é fila para o museu”, ele se afasta e, com olhar perdido, procura alguma sinalização que indique a bilheteria da estação de trem. Enquanto isso, vendedores ambulantes fazem a festa com seus isopores repletos de água, refrigerante, sorvete, além dos salgadinhos pendurados em volta do carrinho que carrega tudo.

Claro que o tamanho da fila pode se explicar pelo fato de que aos sábados a entrada no local é gratuita. Mas essa surpresa de alguns quanto a uma fila enorme só para entrar em um museu reflete um pouco a falta de incentivo à prática da cultura no Brasil. Tanto que a palavra museu acaba por remeter ao público médio um depósito de coisas antigas, de tempos que não nos parecem próximos. Ocorre que essa visão errada contra os museus, que são muito importantes por manterem a nossa História, também se reflete de forma equivocada no Museu da Língua, pois este se mostra como um local vivo, pois proporciona o entendimento das pessoas em relação à língua que utilizam no Brasil, de uma forma totalmente diferente dos museus comuns, surpreendendo a cada passo dado dentro do recinto.

O prédio abriga três andares com aspectos diversos da língua: no primeiro andar fica uma exposição temporária sobre obras literárias de destaque, feitas por autores daqui. No segundo, vídeos, imagens, interatividade através de computadores que explicam o surgimento de várias línguas que influenciaram e fazem parte de nossa história (incluindo as indígenas e africanas, que têm muita ascendência sobre a nossa), bem como um painel gigante que percorre boa parte do corredor, contado todas as origens das principais línguas que sobreviveram até os dias de hoje. No terceiro andar se situa um auditório que exibe vídeos de meia hora em um intervalo de 45 minutos, sobre aspectos interessantes da nossa língua.

O mais interessante e que traz qualquer tipo de público (objetivo explícito no site do museu, que não pretende elitizar a cultura exposta em suas instalações) são as inovações na forma de mostrar a Língua Portuguesa, muitas vezes inusitadas, como é o caso da exposição temporária do primeiro andar, com Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas . Lá, manuscritos do próprio autor que ficam pendurados no teto da sala e podem ser vistos puxando uma cordinha. Trechos da obra escritos em giz branco em tijolos vermelhos dispostos no chão. Latões de água com versos ao contrário de páginas do livro, que podem ser lidos com a ajuda de um espelho. É possível ler frases olhando através de um buraco, conhecer a metódica de Guimarães Rosa, ao enumerar quais culturas podem ser plantadas na área em que se vai desenvolver a narrativa, os tempos de colheita, de semear, etc., tudo para trazer mais realidade à seu trabalho.

O mais provocante refere-se às as escadas de madeira com cadeira e um ferro redondo (na forma de uma lupa) no alto, a pessoa sobe e lá de cima observa o que está escrito em um ponto do chão da sala. Só que as palavras estão em materiais de construção, tais como pedaços de bloco e telha, pás, carrinhos de mão. Uma dessas escadas tem mais de 2 metros de altura e traz um certo medo ao subir ali, mas os versos de Guimarães Rosa valem o “perigo”. O que fica claro logo na primeira parte da exposição é que nada é inserido de forma gratuita. Tudo tem um significado e uma forma peculiar de ver e interpretar.

Outro destaque vai para uma sala escura do segundo andar, chamada “Beco das Palavras”, uma das alas mais disputadas pelos visitantes. Trata-se de um jogo interativo, em que letras são projetadas em telas em forma de mesas, e a cada formação de uma palavra conhecida, aparece a explicação da origem da mesma e o que ela significa. É diversão garantida para os jovens que passam um tempão com as mãos em cima da “mesa” unindo as palavras e conhecendo aspectos da origem delas que não imaginavam.

Muitas curiosidades se situam no segundo andar, como as palavras de outros países que a Língua Portuguesa agregou para si, além do contrário, palavras nossas que foram aderidas por outros povos. No primeiro caso temos “álcool”, que veio dos árabes, “íngreme”, que veio da língua germânica. Já termos nossos que foram recebidos por países como Gabão, Angola e congo são “vela” e “marmelo”. Tudo isso apenas como exemplo, pois são várias as palavras que migraram de uma língua para a outra e que estão colocadas no museu.

Serviço
Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Praça da Luz, s/nº - próximo as estações da Luz de trem e metrô
Ingresso: R$ 4,00 Inteira – R$ 2,00 Meia (estudantes da rede pública) – Grátis para crianças até 10 anos e pessoas acima de 60. Sábado a entrada é franca.
Horário: Terça a Domingo das 10h às 18h (A entrada de visitantes será permitida até às 17h).