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19 de junho a 3 de julho de 2006

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QUARENTA ANOS ESSA NOITE
Em Minhas histórias dos outros Zuenir Ventura revela casos pitorescos vividos ao longo de 40 anos de jornalismo
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

ubem Fonseca não dá entrevista. Avesso à imprensa, o autor de O Caso Morel nunca falou e, dizem os amigos mais próximos, nunca falará oficialmente com jornalistas. Mas em meados dos anos 90 o recluso escritor quebrou o silêncio. E fez mais, além de ter participado como integrante do júri do Prêmio Casa das Américas, em Cuba, e ter se submetido a diversas perguntas dos participantes, Fonseca foi além. Saiu da condição de celebridade das letras eternamente perseguido por repórteres para a de entrevistador. Sim, entrevistador. E o mais inacreditável, fazendo as vezes de jornalista para ninguém menos que Fidel Castro, o comandante do último reduto socialista. Parece mentira, mas a história é verdadeira e está descrita no último livro de Zuenir Ventura, Minhas Histórias dos Outros.

Espécie de biografia profissional de Zuenir, o livro traz relatos inesquecíveis de fatos em que o jornalista, nos mais de 40 anos de trabalho, foi, para citar uma expressão bem antiga do jornalismo, testemunha ocular. Em um texto saboroso e fluente, o escritor leva o leitor a momentos históricos do Brasil e do mundo. Jornalista de mancheia, Zuenir, além da habilidade com as palavras, mostra que sempre esteve em sintonia com uma das maiores virtudes que um repórter pode ter: o faro jornalístico.

Uma mostra dessa característica tão preciosa é a foto que Zuenir tirou da calcinha de Jacqueline Kennedy quando a primeira dama dos Estados Unidos descia de um carro em Viena. O retrato inexplicadamente sumiu, ficando apenas a lembrança de um célebre furo jornalístico que não aconteceu.

Separado por capítulos curtos, Minhas Histórias dos Outros começa pela formação do autor, que antes mesmo da estréia nas redações já andava bem acompanhado. Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Zuenir foi aluno de intelectuais como o poeta Manuel Bandeira e o crítico literário Alceu Amoroso Lima, só para ficar nos mais conhecidos. Mais ou menos nessa época entra, por acaso, para o jornalismo, uma profissão que até então nunca imaginara exercer. Talvez o acaso não tenha sido o principal culpado, não tanto quanto Albert Camus. Apaixonado pelo escritor francês nascido na Argélia, Zuenir foi o primeiro a levantar a mão quando Carlos Lacerda, dono jornal Tribuna da Imprensa , perguntou quem poderia escrever uma matéria sobre a morte do autor de A Peste . Ali seria o debute de Zuenir, que até então era apenas o arquivista do periódico do inimigo número um de Getúlio Vargas.

A partir daí os vôos jornalísticos do autor seriam cada vez mais altos. Com larga experiência no jornalismo cultural, onde editou suplementos como o Caderno B e o B-Especial , ambos do Jornal do Brasil, Zuenir conheceu algumas das cabeças mais iluminadas da cultura brasileira. Mais do que isso, foi parceiro e amigo de grandes realizadores, hoje considerados fundamentais e “clássicos”.

Glauber Rocha é, com toda certeza, um dos mais destacados na lista dos iluminados com quem Zuenir conviveu. Tanto é que o autor dedica três capítulos para contar alguns dos “causos” que viveu ao lado do principal nome do Cinema-Novo brasileiro.

No primeiro relato, denominado “O gênio da raça”, o jornalista descreve como foi editar um texto cheio de metáforas – bem ao estilo do cineasta – em que Glauber elogia o então presidente Ernesto Geisel e chama de “gênio” o ministro Golbery do Couto e Silva. O texto teve tanta repercussão que as palavras de Glauber o transformaram em um dos inimigos da esquerda. Já “O guru do guru” traz um engraçado episódio em que Glauber, em um dos seus surtos repentinos, leva Zuenir para um “descarrego” nas redondezas de Lisboa.

Porém é em “Agonia e morte” que se pode ter uma idéia mais nítida da personalidade fascinante de Glauber. Tentado a escrever uma biografia sobre o cineasta, Zuenir acompanha a trajetória do amigo até os últimos instantes de vida, presenciando o sofrimento de Glauber causado pela ainda inexplicável doença que o levou. Durante mais de dez anos o jornalista tentou, sem sucesso, redigir a história da vida e obra de nosso maior autor de cinema. Misteriosos acontecimentos, como o extravio de partes do projeto, que o escritor chama de “sinais” emitidos pelo biografado, sepultaram, literalmente, Glauber Rocha e a idéia da biografia.

Apesar de os relatos do livro serem extremamente apaixonados, já que a maioria dos fatos está ligada intimamente com a vida pessoal do autor, Zuenir não perde o senso crítico, revelando inclusive seus próprios deslizes e fragilidades. Em uma espécie de mea - culpa, descreve seu constrangimento por conta da não publicação de informações que elucidavam o mistério que cercava o suicídio do escritor Pedro Nava. Em 1984, o memoralista mineiro é encontrado morto em uma rua próxima de onde morava com um tiro na cabeça. A versão que circulava nas redações era que o escritor estava sendo chantageado por um homem com quem mantinha relações sexuais. Em uma espécie de pacto velado, que pouparia a memória de Nava, os meios de comunicação da época decidiram não revelar o lado B da história aos seus leitores. Zuenir, então trabalhando na sucursal do Rio de Janeiro da revista Isto É , compactua com a decisão que dividiu colegas e colocou a questão da ética jornalística em pauta.

Mas o passeio pela memória traz outras surpresas, como a confissão feita pelo próprio Zuenir de que não gosta muito de escrever – motivo pelo qual recusou, nos anos 90, a oferta de uma coluna no Caderno B de O Globo . Ou a revelação de que só escreveu 1968 – o ano que não terminou , livro que se tornaria um grande sucesso, por causa de um “complô” arquitetado por sua mulher e Sérgio Lacerda, dono da Editora Nova Fronteira.

O lado espinhoso do livro fica por conta das experiências que o jornalista vivenciou ao lado do traficante Marcinho VP, maior criminoso do Rio de Janeiro na metade da década passada. Zuenir dá a sua versão para os fatos que envolveram a relação entre o cineasta João Moreira Salles e VP – na época o documentarista foi acusado de estar financiando o bandido carioca. É incrível notar a atualidade e frescor dos fatos narrados pelo autor nos capítulos que compõem a série “Notícias de uma guerra civil”. Além do já referido caso João Moreira / Marcinho VP, o autor relata situações de violência e terror que em nada diferenciam do momento atual.

Minhas Histórias dos Outros percorre quase 40 anos do último século – começa em 1961 e termina em 1997 – mas deixa a impressão de que foram apenas 40 minutos. Exatamente como bom thriller de cinema, o livro deixa no ar um gostinho de quero mais. Aos 74 anos, Zuenir tem a leveza de quem acabou de estrear. Mais do que um registro profissional, Minhas histórias.... certamente será considerado, em um futuro próximo, um registro histórico. Um documento em que, diferentemente da História oficial dos livros didáticos, há espaço para vencedores e vencidos, mortos e feridos.