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4 a 18 de julho de 2006

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3 de julho de 2006

JOÃO SEM MEDO
A história e as histórias de um certo “comunista infiltrado no Maracanã”
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

Se a derrota da Seleção Brasileira foi amarga para a torcida, para o regime militar vigente no Brasil a partir de 1964, ela foi mais amarga ainda. O Governo chegou a ensaiar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (a boa e velha CPI) para investigar o fracasso do nosso escrete em gramados ingleses: a idéia só não ganhou vulto porque, como solução ‘salomônica', criou-se a famigerada Comissão Selecionadora Nacional (Cosena), uma entidade que, de certa forma, mimetizava a estrutura militar que era o paradigma ideológico instituído no poder no âmbito desportivo. Ou seja, dessa forma, a ditadura visava paulatinamente investir a CBD (hoje CBF) como o carro-chefe ideológico em sua estratégia de propaganda de governo, recrudescendo uma relação futebol-poder.

Contudo, a pressão oriunda de clubes e de federações, somado a uma série de péssimos resultados em amistosos a partir de então, cujo paroxismo foi a famosa derrota contra o México, em pleno estádio do Maracanã. Ali terminava, por hora, a rápida aventura da Cosena. Com o problema nas mãos, o intrépido João Havelange não poupou esforços em fazer a seleção mudar a foto.

Para tanto, escolheu o jornalista João Saldanha (1917-1990) para capitanear a ‘pátria de chuteiras'. Saldanha, que era conhecido tanto por seu talento quanto por sua verve e seu temperamento peculiar, era o que o cronista Nelson Rodrigues chamava de sujeito de ‘defeitos luminosíssimos'. Explica-se: João ‘Sem Medo', como seria conhecido, era o condottiere a quebrar lanças contra um mar de gângsters, a “doutrinar o escrete para não levar desaforo para casa”. Ou seja, antes de técnico, ele personificava a atitude que faltava. ‘Meu jogador não dará nenhum tiro', dizia Saldanha. ‘Mas, se começaram, nós vamos acabar com a guerra'.

Contradições

E a guerra começou com tiros vindos da imprensa paulista, que acusava a CBD de se render a um carioca. Pior: a ala mais conservadora do Exército o tinha como um comunista da cabeça aos sapatos. Assim, começava a campanha contra João “Sem Medo”. A despeito da gana de tantos contra um só, a torcida endossava a figura ilustre e popular de Saldanha no comando da Seleção. Mesmo com o aval popular, a pressão pelo tri era maior, e os interesses do Governo e o modelo de futebol proposto pelo treinador amiúde se entrechocavam Por mais contraditório que pudesse parecer, essa tensão aumentou a partir do momento em que o Brasil finalmente se classificara para a Copa de 1970.

O recém empossado presidente Emílio Médici, a despeito do seu sobrenome de duque florentino, era um torcedor entusiasta, e fez de tudo para associar a sua imagem à liturgia do esporte bretão. Demonstrava ser um iniciado, ao mesmo tempo em que passou a freqüentar estádios de futebol. Por trás dessa imagem, estava a Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência (Aerp), que visava transformar o primeiro mandatário brasileiro no ‘torcedor número 1' da nação. Ao mesmo tempo, a CBD parecia envolta em uma maré de problemas, desde derrotas em amistosos até polêmicas com outros treinadores. O estopim seria o ‘caso Dario'.

Dario Maravilha era o centroavante dos sonhos do general. Não era craque, mas fazia gols como ninguém. ‘Não existe gol feio, feio é não fazer gol', dizia. O presidente admirava o trabalho de João Saldanha, mas queria o Rei Dadá com a camisa 9 da Seleção. Os desacertos com o escrete e a repercussão negativa de alguns insucessos em amistosos abriam espaço para críticas no sentido de mudar a escalação do time titular.

Faltava a derrota

Saldanha era constantemente questionado por suas posições futebolísticas, e como profetizara seu amigo tricolor, Nelson Rodrigues, não levava desaforo para casa. O atrito entre ele e a imprensa logo começou a desgastar a sua imagem como técnico da Seleção. De sua trincheira na redação de O Globo, o lírico e parnasiano Nelson bramia como um Velho do Restelo, em sua retórica camoniana: “Nunca houve um massacre pessoal tão desumano. E o espantoso é que nós exigíamos do João sem Medo um comportamento de estátua de Abrahão Lincoln (...) Faltava a derrota, que as hienas esperavam. Mas o Saldanha tinha brio. Ótimo. Por ser brioso, tinha que sair do escrete”.

Nos subterrâneos do poder, porém, Saldanha era visto como um carbonário, um revolucionário, um conspirador em potencial. Sua independência ideológica era temida. E se ele voltasse com a sumida Jules Rimet do México como um fogoso e férrico Parsifal e usasse o seu prestígio para questionar o regime? Ou se, diante de microfones e câmeras de tevê, ele denunciasse, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, as contradições do governo militar com uma lista de desaparecidos políticos perante a opinião pública mundial? Dario se tornou o pretexto para sacar João ‘Sem Medo'. Foi quando, envenenado por repórteres a respeito da suposta pretensão de Médici em escalar o salubérrimo artilheiro Dario no ataque, que Saldanha disse, impávido e desafiador: “O presidente que escale o ministério dele que eu escalo o meu time!”. Como refletiu Nelson Rodrigues em suas crônicas esportivas, “a cada entrevista que João concedia, cavava um abismo”.

Linha Dura

Seguida pelo mal-estar da insubordinada e provocativa declaração, veio o patético empate com o simpático, humilde e honesto Bangu, em 14 de março de 1970, que precipitou a dissolução da comissão técnica e por conseguinte, a queda de Saldanha. Em seu lugar, Mário Jorge Lobo Zagallo foi investido ao cargo. Com o decano Zagallo, veio também a ‘militarização' da CBD, chefiada pelo major Jerônimo Bastos, contando com militares como Cláudio (‘ponto futuro') Coutinho e José Bonetti, entre outros, oriundos da malfadada estrutura da antiga Cosena e um neófito estudante de Educação Física, o jovem Carlos Alberto Parreira.

Como diz o historiador Gilberto Agostino, “cabelos cortados no estilo da caserna, preparação física preparada por militares, contraditoriamente a Seleção se transformaria, dentro de campo, em paradigma do verdadeiro futebol-arte”. Já Zagalo, usando de cautela e fazendo jus ao sobrenome, não quis saber de ombrear com alguém da estatura e do poder esmagador do ditador de cinco estrelas e tratou de levar o injustiçado Dadá Maravilha para o México, embora mantendo o centroavante no banco de reservas por toda a Copa, optando pelo excepcional meia Tostão (que, desacreditado por causa da operação no olho, só foi convocado por causa de João, que acreditou nele até o fim) para vestir a camisa 9.

O tempo mostrou que a escolha foi corretíssima: com ele no ataque, mais Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza (centromédio recuado na defesa), Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Pelé, Jairzinho (ponta-de-lança no Botafogo e exclusivamente deslocado para a ponta-direita na Seleção, para quem acha que jogador fora de posição rende menos, só se não for craque...), foi o comandante da campanha invicta do Tri — cuja base foi formada pelo polêmico proscrito João Saldanha, no ano anterior. Méritos de Zagallo, mas méritos também de Saldanha, que montou o grupo e meteu brios naquele antológico time, hoje cantado em prosa e verso.

Agostino observa que o governo militar, por intermédio do Serviço Nacional de Informações (SNI), manteve guarda canina sobre os movimentos de Saldanha. Como se pode observar em um informe, datado de maio de 1975, o ex-técnico das ‘feras' agora estava no alvo predileto de seus algozes em verde-oliva...

Ao serem lidas, hoje, as sisudas e exegéticas observações do SNI não deixam de ser de dar frouxos de riso, ou de deliciar os mais paranóicos amantes de teorias conspiratórias:

“Durante a realização de jogos no estádio Mário Filho, os comentários agressivos promovidos pelo comentarista de arbitragem da rádio Globo, sr. Mário Vianna, vêm provocando na massa de torcedores reações descontroladas (...) consta que essa provocação subliminar tem como criador e orientador o comentarista esportivo João Saldanha, ele mentor ligado às esquerdas e defensor da ideologia comunista, o qual Saldanha utiliza-se do locutor Mário Vianna, elemento inculto, incapaz de compreender que está sendo utilizado para outros propósitos, mas que, com sua linguagem rude e grosseira, sem dúvida alcança, através dos rádios de pilhas dos torcedores, a fácil comunicação com o alvo desejado, o público presente”.