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4 a 18 de julho de 2006

Equipe Ediçőes Anteriores
3 de julho de 2006

PASSANDO POR MARTE, UMA VOLTA ÀS ORIGENS
Omar Rodriguez-Lopez, guitarrista do The Mars Volta, reverencia Miles Davis e Santana em seu segundo disco solo
por Guillermo Matias Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com)

oucos guitarristas neste planeta achariam que não conseguem mostrar toda sua musicalidade em uma banda como o The Mars Volta. Na verdade, somente o próprio guitarrista da banda: Omar Alfredo Rodriguez-Lopes. Seu segundo disco solo não foge totalmente ao que concebeu com o vocalista Cedrix Bixler-Zavala, e é por isso que é um disco que surpreende na medida exata, ou seja, não mostra uma faceta inédita do artista — apenas vai mais fundo.

Isto é, não há novidades no front: no The Mars Volta, os ritmos latinos são uma constante, os improvisos nos shows chegam a beirar durações zeppelinianas (para ficar apenas na comparação em âmbito roqueiro), e ninguém se espantaria nem um pouco ao achar uma foto de Carlos Santana ou Miles Davis na parte de trás do amplificador do porto-riquenho de trinta anos de idade.

Até na data de lançamento Omar vai contra a corrente. Convenhamos, ninguém lançaria um disco de música instrumental como esse em dezembro e esperaria algum retorno financeiro. A bem da verdade, ninguém lançaria um disco como esse em qualquer dia do ano e esperaria qualquer retorno financeiro por isso, mas a banda principal vai de vento em popa, conquistando um público cada vez maior, então nada de errado em produzir um tributo às principais influências ao seu próprio modo sem sequer imaginar chegar aos pés da marca de quatrocentas mil cópias vendidas em um ano de Bitches Brew (1969).

A sensação de estranheza já é provocada no exterior: a capa, com fundo amarelo e desenhos rabiscados em preto, não é exatamente um padrão do gênero, além de todas as músicas terem nomes na língua holandesa. Depois de uma introdução (se é que três minutos e vinte e dois segundos podem ser assim chamados) que soaria bizarra até para Syd Barret, a primeira música é “Regenbogen Stelen van Prostituees”. “Prostituees”? Pois é, como se não bastasse a arquitetura sonora claramente calcada no disco que concebeu o jazz elétrico, Bitches Brew de Miles Davis, a referência fica também no nome. Com o tema sendo iniciado com uma linha de contrabaixo que se repete incansavelmente durante praticamente todos seus dez minutos de duração, há espaço para sopros empolgantes — e às vezes dissonantes — solos de guitarra com wah-wah e flanger, teclados do irmão Marcel Rodriguez-Lopez, além de uma bateria frenética e perfeita, gravada por Eric Salas. No final, como deveria mesmo se esperar de Omar, os instrumentos praticamente se confundem entre si, e a cozinha não pára nem um segundo sequer.

Omar Rodriguez-Lopez é do tipo gênio perfeccionista, mas sabe que não deve perder o momento, a espontaneidade. Fez todo o trabalho de mixagem e efeitos de estúdio do disco enquanto excursionava com o The Mars Volta no segundo semestre de 2005, após escrever — sim, pode não parecer, mas músicas como estas também são compostas — e gravar as cinco faixas pouco antes, em Amsterdam (daí o idioma utilizado para batizar as canções).

“Jacob van Lennepkade” inicia com o naipe de metais e logo dá a brecha para o baixo constante e quase galopante, algo que também foi institucionalizado por Miles Davis há mais de trinta anos. Com Bitches Brew , a tradicional convenção do walking bass foi substituída por um contrabaixo muito mais pesado e que não deixava de ser menos movimentado, uma heresia para muitos de seus admiradores, que diminuíram o disco por não encontrarem jazz em Bitches Brew , somente o rock. As marcas deixadas por experimentações de estúdio ficam claras em “Jacob van Lennepkade”, pouco antes de seu término, quando a cacofonia gerada chega a níveis absurdos, para ser interrompida de súbito, no melhor estilo progressivo.

Omar Rodriguez possui um apelo latino que é característico de Omar e sua trupe desde os tempos do extinto At The Drive-In, quando era possível até mesmo ver bandeiras de Porto Rico penduradas nos amplificadores do lado direito do palco. Melhor dizendo, a antiga banda foi cindida — os integrantes se separam para uma metade formar o The Mars Volta e a outra, o Sparta — e hoje em dia não restam dúvidas quanto à origem da psicodelia no conjunto de definição tão complexa. Essa sonoridade envolta por ritmos latinos foi crescendo ao longo dos tempos, com reflexos bastante concretos já no primeiro disco da carreira solo e no The Mars Volta. Em “Drunkship of Lanterns” da estréia do The Mars Volta em álbum full-length ( De-loused in the Comatorium , 2003) é possível ouvir a surpreendente mistura de guitarras de levada punk com uma de bateria que, além de insana e com uma dinâmica de caixa incrível, é totalmente latina. Em Omar Rodriguez , o guitarrista aflora ainda mais a sua admiração explícita por Carlos Santana (nos tempos áureos — esse que veio ao Brasil recentemente e gravou discos como Supernatural e Shaman só pode ser um clone), não deixa a psicodelia de lado e presta uma homenagem das mais sinceras à fase elétrica de Miles Davis, juntando tudo isso como se o produto final, apesar de visivelmente confuso, fosse de elaboração trivial.

Claro, Omar Rodriguez-Lopez não está ligado somente a Bitches Brew e Santana. Em “Vondelpark bij Nacht”, está o lado zen, oriental e psicodélico (haveria orientação espiritual, como com o Mahavishnu Orchestra?), com um fundo de cítara tocada pelo próprio Omar, entre outros instrumentos percussivos, é construído o caminho para que o saxofone de Adrian Terrazas-Gonzales se intrometa e tente achar ali algum espaço. É a intervenção que Omar propõe em toda a sua discografia, mas em forma cântica, quase que tentando levar um sutra a cabo, mas sendo penetrado pelo jazz.

Depois do único momento oriental do disco, vem a faixa que agradará mais aos vinculados em demasia com o som do The Mars Volta, “Spookrijden op het Fietspad”, que encerra esta segunda investida de Omar em carreira solo de forma vigorosa. Com levada bastante familiar aos interlúdios geralmente compostos por Omar Rodriguez, é possível escutar ruídos que se assemelham àqueles de computadores de filmes de ficção científica antigos, gerados por teclado.

Os jazzistas precisaram de Miles Davis para descobrirem a guitarra distorcida (do mestre John McLaughlin, na ocasião) e apreciarem o rock como um gênero com possibilidades de produção criativa que convencesse. Ao gravar este disco batizado com seu próprio nome, Omar Rodriguez pode ser capaz de significar o caminho inverso para muitas pessoas; ou seja, gostaria de saber quantos fãs de The Mars Volta ou At The Drive-In, os quais são em sua maioria jovens, não se voltarão ao jazz — principalmente em sua vertente elétrica — após fazerem algumas audições de Omar Rodriguez . Esse feito, desnecessário dizer, poderia ser facilmente chamado de benéfico, e lecionaria a matéria História Contemporânea para um público que carece de jazz. A diferença entre os discos aqui mencionados é, sobretudo, uma questão de história também: Bitches Brew é de 1969, e The Inner Mounting Flame, do Mahavishnu Orchestra, de 1971; portanto, belo disco e homenagem, Omar, mas melhor deixar a revolução de lado.

Além da comparação inevitável com o Miles Davis elétrico, não é muito difícil achar quem atribua o apelido de “Jimi Hendrix dos anos 2000” a Omar Rodriguez. Bom, por mais genial que Omar venha se mostrando em seus mais variados projetos, a comparação soa ainda tão ingênua quanto Ronaldo vs. Pelé, residindo em maior parte na atitude em cima do palco, na ostentação do vasto black power na cabeleira e no fato de o porto-riquenho da cidade de Bayamón também ser canhoto. Mas com a criatividade de expressão e o pouco caso para com as convenções do mainstream , o porto-riquenho certamente está no caminho certo para produzir material ainda mais consistente e surpreendente num futuro próximo.