Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

4 a 18 de julho de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

AH! QUE DELÍCIA DE GUERRA
Soldado Anônimo chega às locadoras e mostra o despropósito de uma guerra inútil
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

u me perdi no caminho entre o colégio e a faculdade”. O que, a princípio, pode parecer apenas o desabafo de um adolescente, ganha contornos críticos quando esse “caminho” termina em um alistamento militar para lutar na Guerra do Golfo. Assim é Soldado Anônimo ( Jarhead , 2005), que acaba de chegar às locadoras, um retrato realista e cruel do desespero de jovens despreparados em uma guerra fútil, tediosa e dispensável.

À primeira vista, pode-se dizer que Soldado Anônimo não seja nenhuma novidade ao se tratar de um gênero com clássicos como M.A.S.H. , uma corrosiva sátira bélica e Apocalypse Now , obra-prima operística sobre o horror e a loucura de uma guerra, com quem acaba guardando algumas “semelhanças”. Mas quem se dispor a assisti-lo irá encontrar uma aguçada crítica à falta de perspectiva de uma juventude alienada em uma guerra onde não precisariam estar, ou melhor, que nem precisaria existir.

Baseado no romance Jarhead , de Anthony Swofford, conta a história do próprio autor que entra em um treinamento militar brutal e cruel, e quase enlouquece em uma guerra que nunca chega. O dia-a-dia dos treinamentos militares, da camaradagem, dos jogos de futebol (onde um acaba em simulação sexual para a imprensa), das bebedeiras, das masturbações, das brigas de escorpiões, da limpeza de rifles, da lentidão entre o nada e coisa nenhuma, percorre toda a narração do filme.

Talvez seja esse o motivo que afaste algumas pessoas: é um filme de guerra, sem guerra, sem ação propriamente dita, sem heróis ou vilões. Apenas mostra o vazio de uma espera nunca concretizada, onde o cotidiano áspero e asfixiante do deserto e de uma guerra iminente leva-os (os recrutas) a beira da loucura.

Mesmo sendo um assunto propício ao discurso político ou panfletário, o diretor Sam Mendes evita o tom partidário, criando situações inusitadas e até surreais, sem ceder a algum tipo de engajamento ou causa. Seus personagens estão deslocados e perdidos em um ambiente que não conhecem e numa guerra que não entendem. A grande pergunta que permeia todo o filme é: o que fazem os americanos naquele lugar? Há necessidade de gastar tanto dinheiro em uma guerra que talvez nem exista? Se o desperdício financeiro é enorme, maior ainda é o desperdício humano, onde jovens são submetidos à tênue linha entre a razão e a loucura, mostrando o que há de melhor ou pior em cada um deles.

Nascido na Inglaterra, com uma extensa carreira teatral, Sam Mendes tornou-se conhecido do grande público com o primeiro filme que dirigiu: Beleza Americana (1999) , crítica à hipocrisia e aos hábitos da classe média americana. Com o sucesso de Beleza, que trata com acidez as relações familiares e sociais, Mendes novamente lançou seu olhar para o núcleo familiar, desta vez em Estrada para Perdição (2002) , onde um assassino de aluguel precisa salvar a vida do filho que foi testemunha de um dos seus “serviços”, enquanto tenta, ao mesmo tempo, se vingar daqueles que o perseguem. A família, às vezes como força destrutiva, ora opressora ou até mesmo salvadora, acaba percorrendo toda a obra de Mendes; em Beleza ela é escancarada e esmiuçada em todos os seus pormenores; em Estrada ela precisa ser protegida e vingada; em Soldado sua ausência é compensada na camaradagem e amizade entre os soldados que, longe de casa, se adaptam da melhor maneira possível.

Com uma estréia cultuada e elogiada nos cinemas, fica difícil ao próprio Sam Mendes fazer um filme que faça jus à Beleza Americana , mas, mesmo sofrendo dessa comparação, Soldado Anônimo consegue sair do lugar comum apostando que todas as guerras são iguais e também são diferentes, sejam elas necessárias ou não.