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4 a 18 de julho de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

DE CHORAR DE RIR
Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia escracha a eterna briga entre o bem e o mal
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

rovocar gargalhadas até você não conseguir respirar de tanta dor na barriga. Parece ser esse o mote da comédia musical Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia! , que está em cartaz no Teatro Fecomércio, em São Paulo, até o dia 6 de agosto. Depois de 2 anos conquistando os baianos, ao levar mais de 125 mil pessoas para assistir ao espetáculo na terra natal, a peça – dirigida por Fernando Guerreiro, um dos fundadores da Companhia Baiana de Patifaria – promete ganhar o público paulistano pelo riso.

Inspirado no conto de Machado de Assis, A Igreja do Diabo , o texto de Cacilda Povoas, Cláudio Simões e Gil Vicente Tavares conta a história da tentativa do Diabo (Frank Menezes) – incentivado por sua esposa Naja (Cristiane Mendonça) – de fundar uma igreja para sua adoração em Salvador, na Bahia. Deus (Jackyson Costa) autoriza, mas, sugerido pelo anjo Gabriel (Alan Miranda), decide acompanhar Naja e Diabo de perto para saber como os fatos evoluem. Eles chegam na cidade no dia do samba, presenciam diversas atividades populares e religiosas, mas o Diabo não alcança seu objetivo. Enquanto isso, Deus enche a cara, fuma um baseado, tentado por Naja.

Mesmo assim, o Diabo vê seu fracasso definitivo na Festa de Iemanjá, quando se dá conta da contradição do homem de adorar várias coisas, santos, diabos, deuses, enfim, o que estiver pela frente e garantir sua salvação. Só que ele decide levar tudo o que criou para o Inferno. Com isso, o carnaval fica sem a graça e a população local começa a chamar pelo Diabo para que ele volte com suas obras. Depois de ser convencido por Naja e chamado por Deus, ele devolve o que tinha levado (como a pimenta, as marchinhas), animando novamente o carnaval.

As quase duas horas de apresentação são de tirar o mau humor de qualquer um. As situações estapafúrdias que Deus e o Diabo vivem no decorrer das cenas são de chorar de rir. O dilema entre o Bem e o Mal passa ao largo do texto, ficando restrito às piadas e às sacanagens que um impõe ao outro durante a peça. As discussões entre os dois durante todo o tempo e, principalmente, o desempenho do personagem Diabo, trazendo piadas e palavrões ditos de formas sutis, fazem valer a pena. Há também o sotaque carregado dos personagens, um elemento adicional de divertimento, que traz um frescor ainda maior no desenvolvimento da peça.

A seção musical da peça não é seu ponto forte. Parece, em alguns momentos, desnecessária para o desenvolvimento da história, apesar do bom desempenho e do esforço dos dançarinos e dos personagens coadjuvantes. Em outros momentos, contudo, complementa de forma interessante, como nas festas populares – caso do dia do samba – e nas manifestações religiosas dedicadas a santas e orixás.

Já o cenário, com partes inspiradas no barroco colonial alegórico, é bastante interessante, com o Inferno na frente do palco e o Céu montado sob uma estrutura de madeira, ficando no alto. No meio é onde se dá a história, ou melhor, em Salvador, como se a capital baiana fosse um pouco de cada um. Mas até nisso há cenas cômicas, como quando as cabeças de anjos que ficam nas entradas ou em volta de imagens nas igrejas, começaram a cantar num trecho do espetáculo.

Tudo isso demonstra como Vixe Maria! é escrachado, misturado com teatro de cordel e muita coisa trash. Como no caso do anjo Gabriel que se descobre homossexual em Salvador, após um encontro com quatro travestis (personagens feitas por homens que se vestiram de mulher, dando um tom ainda mais cômico ao número). Sem contar a hora que Deus – que na história mais aprece um hippie dos anos 60 – toma uma bebida chamada capeta e cai bêbado nas ruas de Salvador, e ainda cura a ressaca com um cigarro de maconha.

Outra situação hilariante é quando Deus resolve conversar com uma mãe de santo para descobrir qual é seu orixá e pedir ajuda para impedir que o Diabo triunfasse em seu objetivo, sem falar no ciúme ao saber que até o Diabo tinha alguém do lado dele. Maluquices como essa são recorrentes durante a apresentação, transformando o absurdo em algo corriqueiro e engraçado. No final da peça, a sensação é de leveza, acompanhada por um largo sorriso no rosto. Se o objetivo de quem produziu o espetáculo era somente esse, conseguiu o que queria.

SERVIÇO

Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia

Teatro Fecomércio
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista – São Paulo – SP
Próximo às avenidas 9 de Julho e Paulista
As sextas e sábados às 21h30 e aos domingos às 19h
Preço: R$ 40,00 (sexta) e R$ 50,00 (sábado e domingo)
Estacionamento com manobrista: R$ 12,00
Telefone: 11 – 3188-4141