Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

4 a 18 de julho de 2006

Equipe Ediηυes Anteriores
3 de julho de 2006

A CAVERNA DO VoiL
Em entrevista exclusiva, banda paulistana fala sobre o disco Verdade ou Ilusão? E mostra que rock, sonhos e filosofia podem ser inseparáveis
por Guillermo Matias Gumucio ( guillermogumucio@yahoo.com)

pós alguns sérios problemas envolvendo a organização da série de shows na Tribe House no domingo, 18 de junho, Beno (voz/guitarra), Marcelo Forlani (segunda voz/guitarra), Rogô (bateria) e Gonzo (baixo) decidiram que, mesmo com alguns revezes, não seria justo decepcionar aqueles que compareceram especialmente para ver o VoiL, numa noite que ainda contava com as bandas Gloria e NX Zero. Se ajeitaram, tocaram e empolgaram, com apenas meia hora de palco. A sensação de “quero mais” ficou em todos porque o VoiL tem tudo o que uma banda que se propõe a fazer o que se convencionou chamar de hardcore melódico precisa. Conseguem provar isso a todo o momento, em cada música, mas aquela que sintetiza a perfeita junção de peso, melodia e potencial radiofônico da banda é, com toda certeza, “Inércia”, que recheou o abreviado repertório, para delírio das algumas dezenas de fãs presentes, além de outra grande quantidade de admiradores.

Apesar de uma microfonia chatíssima (causa explicada na primeira linha do parágrafo acima), Beno e Forlani nunca estiveram tão entrosados, Gonzo parecia recém-saído de um hospício e botado sem aviso prévio em cima do palco, numa performance alucinadamente inspirada, e as baquetas de Rogô, por deus, trabalhavam juntas numa soma rara de virtuosismo com agressividade, sem parar, no gênero que for.

Fazendo shows periódicos para divulgar seu disco de estréia, Verdade ou Ilusão ? (Enemy One Records, 2005), Beno e Rogô receberam o Rabisco para conversar sobre a produção do álbum, a cena independente, as mudanças na formação da banda e mostraram que já deixaram a ilusão de lado, e conhecem a verdade que é mostrada ao sair da caverna.

– Participação em programa da TV Cultura, no programa Bate-Cabeça da 89FM de São Paulo, no show de aniversário  da Empire Records a sair em DVD e admiradores do som da banda na equipe da MTV. O Brasil está começando a conhecer melhor o VoiL?

Rogo – Com certeza, essa é a maior satisfação de quem tem uma banda, ter o reconhecimento de quem quer que seja. Ver pessoas do outro canto do país cantando suas músicas, ou um apresentador da MTV usando uma camiseta nossa, é uma sensação inexplicável. Tudo isso é fruto de muito trabalho e ralação, mas com certeza compensa qualquer esforço.

– Verdade ou Ilusão? foi lançado há 1 ano. Como tem sido a reação do público?

Rogo – Tem sido boa. Aos poucos estamos conseguindo fazer uma quantidade maior e melhor de shows. O público tem reagido bem e está cada vez gostando mais, talvez pela sinceridade que colocamos nas letras e pela vontade que temos em transmitir sempre algo de bom, algo para se pensar, além do som.

- Conte-nos um pouco a respeito da elaboração de Verdade ou Ilusão?

Rogo – Verdade ou Ilusão? foi nosso primeiro disco e é fruto de um longo período de composição, separamos, antes de começar a gravar, umas 25 músicas e escolhemos somente 15 pra gravar, sendo que acabaram entrando no CD apenas 11 delas. Pessoalmente, achei isso o mais indicado, pois ficam registradas ali as melhores músicas e composições da banda, mas cada um cria de um jeito e grava de um jeito, esse foi o nosso, para próximo CD já pensamos fazer diferente. Separar um tempo só pras composições, ficar fritando mesmo, a banda inteira, e não cada um fazer em sua casa, pois assim a música fica com uma influência de cada um, não dando um diferencial pra banda.

– E como é o processo de composição da banda?

Beno – Geralmente, ainda mais agora que estamos voltando a compor, funciona da seguinte forma: cada um compõe algo e leva para o ensaio. Lá no estúdio tentamos lapidar ao máximo e deixar com a cara do VoiL. Acreditamos que nosso próximo trabalho terá um “rosto” mais nosso, pra quem ouviu o primeiro disco vai entender o que estou dizendo. E o segundo já começa a brotar, muito timidamente, mas começou (risos).

– Há um conceito que permeia todo o disco?

Rogo – Com certeza. O conceito de verdade ou ilusão permeia até mesmo no VoiL. O disco traz letras em forma de uma história com desenhos de suas respectivas músicas, além de um conceito da capa, na qual dá para tirar algumas conclusões se você olhar bem e refletir.

Beno – Gostamos do conceito, é algo que rodeia nossas vidas. Tantas coisas que pensamos e com as quais às vezes nos iludimos, sonhamos, imaginamos coisas, conflitos que às vezes nem perto da verdade estão.

– As referências a idéias conflitantes são claras e o símbolo da banda é a coruja, que significa sabedoria, fora a alusão ao mito da caverna de Platão. Vocês gostam de Filosofia ou é só impressão?

Beno – (risos) Sinceramente, eu gosto, mas posso dizer com toda segurança que não sou nenhum estudante de Filosofia ou que a conheço profundamente. Na verdade, a gente gosta de pensar muito sobre tudo: reações, emoções, atitudes que vivemos e vivenciamos durante o dia-a-dia. Gostei da lembrança do mito da caverna, atualmente tenho interesse em aprender mais sobre Filosofia, mas ainda estou longe! (mais risos)

– E o público costuma captar tudo isso?

Beno – Bom, depende muito. Agora é que estamos sentindo mais a reação do pessoal. Tem uma galera que fala que se identifica muito com a música, ou que adora o conceito da banda e tudo mais. Não digo tanto que chegam já falando em Filosofia ou algo assim, mas de maneira geral gostam do que passamos, e acho que isso é mais importante para nós.

– A produção do disco, da banda e Daniel Pampuri (baterista e produtor, Motel, ex-Aniima), é impressionante. Qual foi a influência de Pampuri no som da banda?

Rogo – Daniel carrega uma bagagem muito boa, mas entupimos a mesa dele com CDs que gostávamos, como Story Of The Year, Finch, The Used, que são alguns dos trabalhos que carregam uma ótima produção. Base para tirar dali tínhamos muita. E foi o que aconteceu: nesta mescla toda o disco foi sendo produzido e o resultado, pra nós, foi melhor do que imaginávamos de início.

– Há alguma diferença entre o público das bandas e artistas representando o gênero no mainstream e o público de vocês?

Rogo – Pessoalmente, acho que o público da banda independente sempre vai ser mais fiel, porque quando a coisa se torna mais massificada a tendência é artificializar um pouco, gostar da música porque toca na rádio, ou porque viu na TV, e não como no independente que a galera corre atrás, baixa da internet, vai a todos os shows. Existem diferenças no público em si do mainstream para o independente, mas achamos ser algo natural, nada que seja culpa do público.

– Você acha que hoje em dia há menos preconceito contra as letras em português em ritmos pesados?

Rogo – Com certeza, mas isso não vem de hoje, muitas bandas já fazem esse estilo de som há algum tempo. Dead Fish e Noção de Nada com certeza são ótimos exemplos de bandas que conseguiram romper essa barreira e levar o hardcore com letras em português pro Brasil inteiro. A gente só tem agradecer a eles e tantas outras bandas por isso.

– Como foi a escolha da gravadora independente Enemy One para lançar o disco?

Beno – Conhecemos o Taú há alguns anos. Eu o conheci por causa do Fortalzine, era colaborador do site do Wallace, na época um grande portal de notícias do independente do nordeste e do Brasil. Taú era colaborador também, a partir daí ficamos amigos e sempre fomos trocando informações e tudo mais. Foi quando surgiu a idéia de lançar a Enemy One, e até então o Voil não fazia parte do projeto. Com o CD pronto, Taú ouviu o disco e a proposta foi feita. Preferimos embarcar junto sabendo no desafio do novo selo e da novidade que seria. Ano passado a Enemy One foi eleita o segundo melhor selo do Brasil em votação aberta no site Zonapunk . Muito gratificante, afinal de contas estamos acompanhando de perto essa evolução.

– Como vocês vêem a estrutura e esforços do cenário independente no estilo hoje em dia?

Rogo – Eu acho que tem melhorado muito, tanto o que cada uma casa proporciona em termos de som, como no profissionalismo que cada banda é tratada pessoalmente, muito legal mesmo, e ainda falta muito, mas é esse o caminho.

Beno – É verdade, parece que cada vez mais, com a quantidade de bandas que vêem surgindo e crescendo a cena independente, novas casas abrem espaços e já começamos a sentir mais profissionalismo no geral mesmo, há muita banda vindo com vontade. Mas como o Rogô disse, ainda dá pra melhorar, mas vamos em frente. Sempre.

– Qual foi o retorno da divulgação da banda no website da Trama Virtual e outros websites disponibilizando algumas de suas músicas em mp3?

Rogo – Ah, o retorno é legal, tem muita gente que vem nos shows e fala que baixou as músicas, que tem no mp3 player, porque querendo ou não tem muita gente que prefere baixar as músicas da net, ou então até pra conhecer mesmo. Mas a gente não tem muito problema com isso, e já colocamos músicas em muitos websites especializados nisso, no nosso website há os links de todos eles.

Beno – É sempre bom usar esse links, downloads e o que der, a internet pode causar diminuição de vendas, mas o alcance dela é imenso, e para nós tem ajudado muito, sempre recebo e-mail de alguém que passou pelo Trama Virtual. Gostaria de também aproveitar o espaço para dizer que lemos todos os e-mails, e sempre respondemos, mas não sei o motivo ao certo, alguns voltam com erro. Só para constar pra galera que manda o recado.

– A referência mais clara são as bandas de metalcore melódico dos EUA, como Silverstein e My Chemical Romance, no entanto, há alguma outra influência que saia dessa vertente?

Rogo – Achamos que tudo é influência, tudo mesmo, ou pra música, ou pras letras, pro palco, pra tudo, cada um tem um gosto diferente. Vou falar do meu: gosto muito de Lostprophets, Foo Fighters, John Mayer, e nos estilos mais diferentes, estou ouvindo muito Black Alien agora e Jorge Ben. Acho que vale a pena buscar algo diferente em outros estilos, sem dúvida.

– Os vocais são muito bem trabalhados. Há alguma inspiração nesse aspecto?

Beno – Com certeza, todas as bandas que ouvimos e servem de influência têm vocais impecáveis e que conseguem mostrar timbres e melodias ótimas! Por ali nos baseamos, sendo críticos com nós mesmos, sempre. Ouvimos nosso próprio som e gostamos da sensação que a nossa música passa para nós e nisso, principalmente a voz é a que fecha as músicas completando a parte instrumental.

– Como foi a substituição de "Brasil" por "Chuva de Pedra" na última hora?

Rogo – Putz, essa aí é só pra quem acompanhava a gente desde a saudosa época do Grafite 0.5 (risos)!. Mas foi meio duro, sempre é difícil você tirar uma música de um CD... mas não tinha mais como colocar “Brasil” no disco, ela estava totalmente diferente das outras músicas, não estava fazendo sentido colocar ela. “Chuva de Pedra” dispensa maiores apresentações, é sempre uma das mais pedidas nos shows.

– Como se deram as participações de Alexandre Capilé (Sugar Kane) e Maurílio Fernandes (Switch Stance) em "Ventoeste" e "Nossos Passos", respectivamente?

Rogo – Desde que gravamos já tínhamos vontade de convidar o Maurílio do Switch Stance, até pela amizade que temos com os caras. O convite já tinha sido feito mesmo antes de começarmos a gravar, o único problema era o da distância. Conseguimos pegar o Maurílio no meio da turnê, numa bateria de cinco shows seguidos, e às onze da noite arrastá-lo para o estúdio. Entrou e gravou na correria. Piramos com isso, pois a banda já está na correria há anos e ouvíamos e assistíamos shows deles antes mesmo de pensar que participariam do disco. O mesmo aconteceu com o Capilé do Sugar Kane. Chegamos depois de um show e fizemos o convite, que foi aceito na hora. Também pegamos ele em uma das passagens por São Paulo, em um domingo de manhã e a sensação foi a mesma. Ouvir caras que estão na cena há mais tempo, com bandas que sempre curtimos, cantando uma música nossa é uma sensação um tanto quanto inexplicável.

– Como é ter que correr atrás de um projeto musical com tanto empenho e ao mesmo tempo exercer uma carreira profissional e cursar uma faculdade?

Rogo – Nossa, essa é a parte mais difícil talvez, porque todos da banda tem a semana inteira preenchida entre trabalho e faculdade. A gente sempre é aquela banda chata que chega às onze horas da noite em um estúdio e sai de lá a uma da manhã, ou então que fica o fim de semana inteiro intercalando show e ensaio. É meio difícil porque todo o corre que podíamos fazer durante a semana inteira temos que deixar pras madrugadas ou pro fim de semana, mas tudo bem, isso não é esforço algum quando se faz o que gosta.

Beno – Organizar o tempo e conciliar é o mais complicado, mas isso é apenas mais um dos obstáculos de querer realmente fazer um som e sentir de perto todo o esforço começar a retornar aos poucos.

– Recentemente, Gabriel Gonzo, que já foi baterista da banda quando ela ainda se chamava Grafite 0.5, voltou à banda para desta vez assumir o baixo. Como isso se deu, qual é a diferença e como tem sido?

Rogo – Cara, ter o Gabriel de volta na banda foi demais!!! É amigo nosso desde sempre e claro, foi uns dos caras que começou a banda, há 5 anos. Todos ficamos abalados com a saída do Kevin, mas ter o Gonzo de volta também foi muito bom. O Kevin continua sempre presente, é amigo nosso e opina nas nossas composições.

– E mais recentemente ainda, o Atum acabou saindo do VoiL e você (Beno) assumiu a responsabilidade da guitarra de vez. Como está sendo isso voltar para esse cargo?

Beno – Pois é, meu... depois do Kevin, o Atum, acho que pra nós, independente de qualquer um de fora, sabemos o que é ter algum amigo seu fora da banda, foi assim, acredito, com que todos que tocaram conosco desde o começo lá no Grafite 0.5. Mas é uma parte que estamos aprendendo a lidar e apesar de tudo nos reorganizamos. Eu assumi a guitarra agora de vez, sei que pode atrapalhar às vezes, até pelo vocal em que faço, porém abre novos leques. Estamos mais unidos do que nunca e com muita vontade. A casa está muito mais organizada agora.

– Para finalizar, quais são os próximos passos do VoiL?

Rogo – Estamos preparando algumas coisas, compondo músicas novas e já pensando em um novo disco. Fechamos algumas parcerias importantes e estamos com uma estrutura muito melhor, o que nos ajuda muito na hora de tocar. Pro segundo semestre esperamos ter muitas novidades boas, já tem algumas coisas acontecendo e que assim que forem certas colocaremos no nosso fotolog, por isso acessem sempre lá: www.fotolog.com/voil . Além disso, há o novo website também, totalmente reformulado, com vídeos e tudo mais: http://www.voilrock.com.br .

Beno – Também queremos aproveitar aqui para agradecer ao nossos quatro apoios, Estrondo, Kever, Dafos e Mastercore, que tem nos ajudado muito. Agradecemos muito a oportunidade desta entrevista, e a você, Guillermo, é claro! Muito obrigado, obrigado ao pessoal do webzine Rabisco ! Valeu!