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28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

CANÇÃO PARA SCHUMANN
Mundo relembra os 150 anos da morte do compositor alemão
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

obert Schumann, cuja passagem do sesquicentenário de sua morte é lembrado nesse ano, foi um dos compositores clássicos que melhor entronizou o mito do herói romântico por excelência. Como homem de idéias, escreveu inúmeros ensaios sobre literatura alemã e o futuro da música de seu tempo. Como compositor, foi um dos maiores artistas do piano do século XIX, ombreando com nomes como Franz Liszt e Frederic Chopin, seus contemporâneos e que, assim como ele, dedicaram a maior parte de suas respectivas obras para o desbravamento do piano. Porém, do outro lado, a despeito da força do mito romântico, havia o drama pessoal de um homem minado pela sífilis e, como observou o músico Celso Loureiro Chaves em ensaio recente, essa mesma lenda fez com que seus biógrafos omitissem o fato. Muitas delas eufemizam a razão de sua doença, tentando ligar o distúrbio mental que o levou à morte prematura, em 8 de junho de 1856, em um sanatório da Saxônia a uma personalidade taciturna, melancólica, sensível e soturna.

Menino prodígio, Schumman chamou a atenção de seus pais e professoras sobre seu talento musical. Chegou a ser aluno de Carl Maria Von Weber. A morte do pai fez com que ele perdesse o mecenas musical e fosse obrigado a buscar um futuro melhor como estudante de Direito, em Leipzig, conduzido pelo condão draconiano de sua mãe, Johanna. No entanto, dividia a vida na faculdade com saraus com o ilustre professor Friedrich Wieck. Foi quando conheceu sua filha, Clara, que contava apenas trezes anos. Transferido para Heidelberg, travou conhecimento com o furibundo Niccòlo Paganini: foi quando enfim percebeu que a sua verdadeira vocação era a música. O genial italiano, que implodira paredes e conceitos sonoros com seu violino enfeitiçado, pegara tanto Robert de surpresa quando o resto da Europa de roldão. Schumman queria fazer no piano o que Paganini fazia com seu instrumento.

Junto com a vida de compositor, ele sonhava ser um grande virtuose , como um Liszt, a fim de arrebatar apopoléxicas platéias e colocar todos sob seu encanto, inclusive as mulheres. Tanto que, à moda chopiniana, criava formas de adestrar as mãos e ampliar a sua capacidade de técnica e brilho pianísticos. Naquele tempo, todos os jovens músicos aspiravam a isso, ou quase. Porém, a idéia de adestrar-se foi seu mais funesto malogro: de tanto utilizar mecanismos presos aos pulsos para treinar os dedos sob o teclado, o mecanismo acabou provocando um grave acidente. Com a moléstia, Schumann foi obrigado a desistir da carreira de instrumentista, em 1833. Desta forma, passou a se dedicar totalmente à composição. Foi quando o compositor floresceu dentro dele: o filho de Zwickau canalizou seu talento para a escrita, e assim sua produção musical se tornou prolífica. Dessa época, datam os Intermezzi para piano, Opus 4, e os seus primeiros estudos sinfônicos (embora só publicasse a primeira sinfonia longos oito anos depois, aos 31 anos).

Paixões de fogo — Sua paixão com Clara Wieck, filha do velho Fried mudou a sua vida para sempre. Ela seria a força motriz que iria catalizar o seu ímpeto criador. A menina de treze anos agora contava quinze anos, e laureada como insígne concertista. Logo iniciou os arrufos entre Robert e Clara, que seu pai proibia. Fried, aliás, de tudo fez para que o namoro naufragasse, nem que tivesse que mandar sua filha para uma turnê no fim do mundo, ou fazer uso de maledicências e denúncias. No fundo, ele não queria que Clara deixasse o futuro promissor como concertista para se tornar a “mulher do compositor”.

Mas os refugados estudos de Direito até que não foram em vão. Foi graças ao seu conhecimento de advocacia que Robert conseguiu se desvencilhar o ardiloso sogro. Descobriu que se os pais fossem contra o consórcio sem motivo específico, era lícito que se solicitasse ao tribunal uma autorização. Assim, em junho de 1840, Clara assinou a petição que permitiu o casório. Contudo, a profecia de Friedrich não se realizou, e carreira musical de sua filha tomou seu curso sem empecilhos. Seu marido é que, por sua vez, já dando mostra da loucura que o arrastaria como um turbilhão para a sepultura, bramia o seu estro de compositor em outros espaços, como no terreno vocal (os ciclos de lieder , à maneira de Schubert) e a música camerística ( Arabesque , Fantasiestüke para piano, violino, viola e violoncelo, Humoresque , os quartetos de cordas Opus 41). Foi quando esboçou a Sinfonia em Ré Menor e o primeiro movimento do famoso Concerto para Piano e Orquestra em Lá Menor.

No campo das idéias, militou no jornalismo publicando no Novo Jornal da Música artigos que eram debatidos amplamente no seu Clube David, onde ele combatia os compositores considerados “passadistas”, ou os “filisteus” musicais. Tempos depois, seria contratacado pelo jovem e impetuoso Richard Wagner. Também influenciado pela música de Beethoven, no entanto, o compositor de Tristan Und Isolde apontava o presente e o futuro do chamado drama musical para outros rumos. Wagner e sua turma criticava todos os que fossem tributários da tradição clássica, ou seja, meros diluidores da obra do mestre de Bonn. Schumman, que havia lutado tanto pela renovação, agora havia sido colocado na mesma vala.

Em tempos difíceis para o casal, com a personalidade ciclotímica de Robert, era Clara quem tocava o barco, realizando turnês de sucesso por toda a Europa. Nessa realidade, era ela quem competia para garantir o sustento da família. Como o caseiro “marido da pianista”, Schumann seguia compondo, e para ela. A primeira execução do Concerto em Lá Menor para piano e orquestra, em 1846, por exemplo, teve sua esposa como solista e Felix Mendelsohn como o maestro. Junto com esta, viriam outras excelentes composições de característica sinfônica, como as aberturas Júlio César e Hermannn e Dorotéia . O corolário desse trabalho viria em 1853, com a consagração de público após a execução da Quarta Sinfonia. Porém, se ele colhia louros diante da platéia, aquele momento marcou a sua decadência mental.

Atormentado por alucinações, tentou o suicídio nas águas do Reno. Foi salvo por populares, mas a partir daí, Schumann foi confinado num hospício. Dois anos mais tarde, em 1856, adormeceu para sempre.

A música — A obra de Schumann pode ser dividida em duas partes: os primeiros quinze anos como compositor, onde debruçou-se sob o piano e gêneros camerísticos, como quartetos e canções, como o lied feitos sobre poemas clássicos. E a segunda fase, que se inicia quando o autor conta 31 anos, quando Robert passa a desenvolver música sinfônica (excelente) e operística (considerada menor, mas não menos importante). Mas o estilo que o consagrou antes de tudo foi o pianístico. Da mesma forma que Chopin, ambos se tornaram notáveis como arquitetos de novos espaços musicais dentro do formato das 78 teclas. Ou seja, não faziam música para o piano, mas sim, música “pianística”, transpunham suas idéias para o teclado: nesse aspecto, Schumann, à maneira do compositor polonês, foi um dos revolucionários que, mesmo decorridos um século e meio de sua geração, ainda surpreendem e atraem novos ouvintes e intérpretes pela qualidade e a singularidade das obras e a enorme carga de material novo e autêntico, virtuosístico, sem deixar o gosto popular.

Já como sinfonista, ao contrário de seu amigo Chopin, soube escrever para orquestra; foi mais conservador com a batuta do que ao piano, porém sabendo dialogar perfeitamente com a tradição beethoviniana sem repetir os mesmos modelos ou afastar-se do legado do autor de Fidélio .

Dos títulos de Robert Schuman à disposição em CD, é possível destacar desde lançamentos mais simples (a preços populares, para não assustar aos não iniciados), como as coletâneas da Movieplay, com interpretações mais conhecidas, como o Carnaval Opus 9 ao Concerto para Piano em Lá Menor (existe uma interessante interpretação desse tema, com Fritz Reiner regendo a Orquestra de Chicago, com Van Cliburn ao piano, gravada pela RCA, que vale a pena procurar). Além disso, existe o catálogo clássico de selos como a Decca e a Deutsche Gramoffon, com gravações antológicas como o Arabesque e os Estudos Sinfônicos . De maior destaque, vale a pena ouvir a seleção de leader Liederkreis Opus. 24 e 39 e o Dichterliebe Opus. 48, gravado pelo barítono alemão Dietrich Fischer-Dieskau. Da Grammofon, existem ainda sinfonias como a Primavera (a número 1), com a Filarmônica de Berlim, sob a regência de Herbert Von Karajan ou o registro histórico com a mesma orquestra, esta sob a batuta do célebre maestro Wilhelm Furtwängler (com a número 4), além de registros de obras conhecidas, como a série completa “Carnaval” (Carnaval op. 9, Faschingsschwank aus Wien, Carnival Jest from Vienna , Carnaval de Vienne e Carnevale di Vienna op. 26) com o solista Arturo Benedetti Michelangeli.