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28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

“CANTO EM FRANCÊS, MAS NÃO ABDICO DO MEU LADO BRASILEIRO ”
Em entrevista exclusiva, a cantora Bïa fala sobre a concepção do disco Coeur Vagabond e o projeto de vir cantar no Brasil
por Marcelo Robalinho ( marcelorobalinho@yahoo.com.br )

m mês antes do lançamento do álbum “Coeur Vagabond” em Paris, ocorrido em abril deste ano, o repórter Marcelo Robalinho esteve pessoalmente com a cantora Bïa para entrevistá-la sobre o seu novo trabalho. Encontro esse, diga-se de passagem, adiado mais de uma vez por causa da agenda de shows da cantora. A conversa – marcada inicialmente para durar apenas 30 minutos num café da rue de Montreuil, situado no 12º arrondissement (espécie de bairro que fica na zona leste de Paris) – acabou se estendendo por quase uma hora. Melhor para a entrevista. Bastante simpática, Bïa falou sobre como foi concebido o novo disco. Também contou sobre a idéia de lançar o álbum no Brasil e o projeto de fazer uma turnê pelo Sul e Sudeste do País em parceria com a Aliança Francesa. A seguir, alguns trechos da conversa dessa cantora que também é formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP).

Como surgiu a proposta de gravar um disco com versões?

BÏA – A idéia já vinha sendo germinada na minha cabeça há muito tempo. O fato de falar outras línguas, como o espanhol e o francês, e o jeito mágico de tentar captar o sentido da poesia num idioma estrangeiro me fez pensar que a mistura de culturas poderia ser bastante interessante. Por viver na França há muito tempo e já desenvolver minha carreira aqui, resolvi unir as culturas francesa e brasileira, já que são as minhas culturas principais.

Como se deu o processo de escolha das canções?

BÏA – Partiu do meu gosto e da minha sensibilidade pessoal. É claro que busquei mesclar canções novas e antigas que representassem marcos para mim. No caso das canções brasileiras, é evidente que não poderiam faltar Chico Buarque, Caetano Veloso e Tom Jobim, por exemplo. Obviamente, eu não podia fazer versões de músicas de cunho político, como “Apesar de Você”, pela especificidade do tema ditadura. Resolvi, então, pegar canções com mensagens mais universais e que pudessem ser interpretadas numa outra língua. Já as canções francesas foram escolhidas com base nas que eu tivesse maior familiaridade.

Compositores brasileiros como Chico Buarque receberam bem as suas versões para o francês?

BÏA – Não houve problemas. Todos se mostraram favoráveis às adaptações. No caso do Chico, antes mesmo do disco “Coeur Vagabond”, eu já vinha fazendo versões para músicas dele. Cheguei a fazer uma adaptação para o francês da música “Terezinha” e enviei para a editora dele. Soube, tempos depois, que ele tinha gostado da minha versão. Fiquei feliz com isso até porque Chico conhece bem a língua francesa, então a avaliação é bem mais criteriosa.

Como compositora você acredita ser possível manter a mensagem original de uma canção quando ela é traduzida para uma outra língua? A idéia que se tem é que sempre que perde um pouco o sentido original.

BÏA – Bom, é evidente que nem sempre é possível manter a integridade de uma poesia numa versão pelo fato de ser uma outra cultura, diferente da original. Mas, dependendo da temática, a música pode ser adaptada sem perder o sentido primeiro. É o que ocorre, por exemplo, com músicas de amor. No disco atual, existem algumas canções de amor, então a tradução ficou menos difícil. Em outros casos, entretanto, optei por adaptar a letra segundo a minha vivência pessoal. Foi o que ocorreu com “Ilha do Mel”, uma versão da música “Belle-Île-en-Mer”, de Voulzy. A letra original fala da solidão como se fosse uma ilha. Na minha adaptação, busquei minhas lembranças de infância e dos tempos do exílio, quando tive de sair do Brasil com meus pais para buscar outros lugares, vivendo, assim, de forma meio cigana.

E o título “Coeur Vagabond”, de onde partiu essa idéia?

BÏA – Inicialmente, o título do CD não era para ser este. Por muito tempo, a gente procurou uma palavra que retratasse bem em francês e em português. Chegamos a pensar na palavra “treize” (“treze” em francês), por ter uma grafia parecida nas duas línguas e porque tínhamos a proposta de gravar 13 canções. Só que, depois de um tempo, acabamos gravando 15 músicas, aí a idéia teve de ser modificada. Optamos, então, por “Coeur Vagabond”, que é título da canção do Caetano Veloso traduzida para o francês “Coração Vagabundo”. Na minha concepção, Coeur Vagabond representa o próprio coração que está aqui hoje, mas pode estar em outro lugar também.

O público francês e o canadense recebem bem a proposta de cantar em francês e em português?

BÏA – Tem gente que gosta bastante dessa mistura. Não acho que exista uma opinião formal, única. Tem gente que gosta mais do francês e tem gente que prefere o português. Não sinto unanimidade desde o início da minha carreira. Sei que isso é eclético. Mas a verdade é que não posso abdicar da minha porção brasileira. Para mim, prefiro que a minha proposta seja verídica. Então, que seja confuso e misturado mesmo! Todos os grandes nomes da Música Popular Brasileira, como o Caetano, o Chico e a Elis Regina, já gravaram canções em outras línguas e nunca ninguém reprimiu isso. Vejo nessa mistura de línguas no cantar a própria antropofagia brasileira.

O fato de ser desconhecida para o público brasileiro e os seus discos não serem encontrados no País lhe incomoda? Nunca pensou em tentar carreira no Brasil também?

BÏA – É evidente que gostaria de ser conhecida no Brasil. Mas não passo noites em claro pensando nisso, até porque o fato de morar fora me levou a optar por uma carreira no exterior mesmo. Todos os anos, eu procuro me apresentar em Florianópolis, onde os meus pais moram, e descubro pessoas que conseguem meu disco não sei como e vão aos shows pedindo um autógrafo. Isso me deixa bastante emocionada. Tem até aqueles que levam disco pirata. Não tenho como reclamar disso, já que é difícil ainda encontrar meu disco no Brasil, só se for importado. Então, por enquanto, quero mais é divulgar o meu trabalho. Em breve, espero poder lançar oficialmente o meu disco no Brasil para que as pessoas tenham acesso ao meu som por um preço mais popular.

Tem previsão de quando se apresentará novamente no Brasil?

BÏA – Ainda não. Estamos discutindo um projeto com a Aliança Francesa para fazer uma turnê pelas cidades do Sul e Sudeste do País onde existe a escola de idiomas. Como meu trabalho tem a ver com o francês, a proposta interessa a ambas as partes. Espero que tudo dê certo. A idéia é que essas apresentações ocorram a partir do primeiro trimestre de 2007, depois que o meu disco for lançado no Brasil.

Veja também a matéria de Marcelo Robalinho sobre a cantora Bia