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28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

MÁRIO CENTENÁRIO
Quintana era anjo disfarçado com jeito de guri e rosto de avô
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

m poeta faz cem anos: Quintana é o menestrel que descobriu a poesia de cada dia. Era o nefilibata em pessoa: romântico, solitário, boêmio, inacessível. Vestido com apuro, era facilmente encontrado de mãos para trás, do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Metódico, porém sendo poeta, Mário teimava em olhar o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo. Aliás, a própria história de “O Mapa” é bastante curiosa, e mostra bem o perfil do escritor lírico, distraído, sempre compelido para o sonho. José Otávio Bertaso, ex-editor da Livraria do Globo, contou certa vez que, no dia em que Quintana entregou os originais do Apontamentos de História Sobrenatural , ficou estático, pensativo, espiando pela janela, do alto do edifício da gráfica da editora, na esquina da avenida Getúlio Vargas com Botafogo, em Porto Alegre, de onde se podia enxergar todo o bairro Menino Deus. Naquele instante, assomado pelo instante mágico da paisagem que, involuntária, surgiu diante de sues olhos, sentou na mesa de Bertaso e escreveu o poema em vinte minutos. Depois, entregou a folha para o editor, e disse, lacônico: “acrescente nos originais”.

Estreou nas belas letras parnasiano, em Rua dos Cataventos, moldando o seu verso às regras de estilo que eram tão caras ao bom-mocismo literário, cedo descobriu que o seu estro seria muito diferente daqueles a quem copiava. Abandonou os modelos laudatórios, verborrágicos, incontidos e oriundos de fontes literárias clássicas e desceu para a rua, para a fala espontânea do leitor de jornal. Esse foi o verdadeiro Quintana, o escritor simples, o pensador irreverente, o homem comum que com facilidade se expressava para os seus pares.

Alexandrinos — Mário distraía-se com as palavras como o transeunte que se perdia pelas ruas de seu longo andar e de seu repouso. A fama só aumentava o seu mito, de que um poeta deve agir como tal o tempo inteiro. Levava todo o tempo do mundo para traduzir Charles Morgan, Proust e Virgínia Woolf, causando a irritação dos irmãos Bertaso, que impunham datas de entrega, que Quintana sempre protelava em favor da tradução ideal. Certa feita, Mário irrompeu no escritório de Henrique Bertaso. Não gostou das mudanças nas provas da sua tradução de A Fonte , de Morgan. Onde o poeta havia escrito: “te amarei para sempre”, o revisor colocou: “amar-te-ei para sempre”. E gracejou: “mas como pode, seu Henrique? Já imaginou como seria o filho desse ‘amar-te-ei', seria um monstrinho, certamente...”.

Quando editava a seção “Jornal dos Jornais”, no extinto O Estado do Rio Grande , era obrigado a condensar material que chegava por telegrama de outras localidades. Como todo editor, precisava contar as letras para encaixar o texto. Achou o serviço tão chato que resolveu versificar as notícias. Fazia as coisas rimadas e fez um título com, no alto, um alexandrino, abaixo, um decassílabo, e, depois, um setissílabo. O dono do jornal, o político Raul Pilla, indignou-se com o inusitado tratado de versificação: “Esse título está em desacordo com os editoriais! Por acaso o senhor lê o nosso jornal”. Resposta do poeta: “Eu não lia, mesmo. Afinal, eu trabalho aqui...”.

Como no exemplo do “poema-espontâneo” de “O Mapa”, ou no episódio da tradução ‘gongórica' do revisor da Globo, foi justamente a partir de Aprendiz de Feiticeiro que ele descobriu esse imaginário do pensamento livre, da expressão direta, da “conversa ao pé de ouvido”, que certos críticos de sua obra tanto atacaram — mas que jamais o impediu de surpreender e cativar milhões e milhões de admiradores, desde aquele que prestigiava o “Caderno H”, publicado no jornal Correio do Povo , até os pequenos leitores de suas obras infantis, como Pé de Pilão . Mas o seu engenho ficou marcado à mercê dos seus comentários anedóticos (e muitos viraram pedras-de-toque), às vezes cáusticos, da poesia colhida aqui ou ali, numa praça ou num boteco, desde os seus tempos de boêmio: “os relógios são as máquinas de escrever do tempo. Estão sempre fabricando mortalhas”, ou “a bomba abriu um rombo no teto, de onde se descortinava o céu azul que sorria para os sobreviventes”, ou ainda “o amor é a vitória da imaginação: ninguém consegue ter as qualidades que o amante sente na pessoa amada”.

Vida errante — Mas tão notável quanto o seu lirismo e sua ironia, era a sua personalidade desassombrada com a vida (“o tempo é uma invenção da morte: não conhece a vida, a verdadeira, em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”), com o mundo, suas lendas, sua vida errante de endereços provisórios e de preparativos para viagem, dos quartos anônimos que habitou, as jornadas de dor cheias de poesia que flutuava os vapores de fumo e poesia, das xícaras de café forte (mesmo contra recomendação médica. Onde houvesse café, ele parava e entrava), e sua paixão pela música de Mahler e o retrato de Cecília Meireles. Como disse o escritor Tabajara Ruas: “era assim que gostávamos de imaginá-lo: solitário, romântico, inacessível”. E essa foi a imagem que a tradição entronizou.

O alegretense Mário dizia que andava de bengala “só de charme”, desde que sofreu um acidente em 1985 (foi atropelado em frente ao Correio do Povo ), com seus passos lentos chegou aos 87 anos como um dos poetas fundamentais de nossa língua.