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28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

O BAÚ DE INFLUÊNCIAS DE NASI
Em sua primeira empreitada sem o Ira! e sem os Irmãos do Blues, Nasi aposta na diversidade sonora e nos tipos urbanos para produzir um disco bastante interessante.
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

uando um artista que faz parte de uma banda conhecida do público resolve lançar um disco solo, a primeira reação, tanto dos fãs quanto da crítica, é comparar aquilo que o cantor ou compositor fez no passado com o novo trabalho. Em muitos casos, é verdade, o álbum solo é apenas mais do mesmo, só que com outro nome. Assim como todos que se aventuram em um vôo solitário no mundo da música, Nasi não escapou das inevitáveis comparações com seu grupo de origem, o paulistano Ira!. Mesmo assim a empreitada de Marcos Rodolfo Valadão passa longe de ser apenas uma reprodução de sua banda principal. O Cd Onde os anjos não ousam pisar faz jus à história do cantor, que é, ainda hoje, um dos principais nomes do rock nacional.

Com boas composições e experimentações sonoras pertinentes, o debute de Nasi chega a empolgar mesmo quem não é lá muito fã do Ira!. A fusão de sons é um dos pontos fortes do disco, que une batidas mais eletrônicas com riffs que tendem para a pegada do blues. Nasi percorre, ao longo das 12 faixas, por ritmos tão distintos quanto o rock, o rap e a eletrônica, com direito a incursões ao jazz. Exemplo dessa miscelânea musical bem-sucedida é a faixa que abre a bolachinha. Em “Corpo fechado”, que ganhou vídeo clip com direção do ator Selton Mello, uma flauta à Ian Anderson surge por trás de batidas eletrônicas. A letra, assim como quase tudo no disco, fala de sexo, vício e o lado sórdido da vida.

Antes de gravar Onde os anjos não ousam pisar , Nasi fez dois discos dedicados exclusivamente ao blues, acompanhado da banda “Os Irmãos do Blues”. No novo trabalho o ritmo nascido no sul dos Estados Unidos marca presença em “Eu não me canso de dizer” e em “Hey, meu amigo”, esta última com solos de guitarra e harmônica muito eficientes.

Na nova empreita o lado compositor do vocalista – encoberto pelo talento de Edgard Scandurra no Ira! – vem à tona. Das 12 músicas, nove são de autoria de Nasi, sozinho ou em conjunto com outros letristas, como os parceiros de longa data Ciro Pessoa e Johnny Boy. Alias, este último, um dos melhores multiinstrumentistas do país, empresta seu talento tocando baixo, guitarra, piano e violão em várias músicas. Se o lado musical do disco prima pela variedade de estilos, sem que soe oportunista, é bom que se deixe claro, as letras de Nasi são, em sua maioria, dedicadas aos tipos urbanos que fazem da cidade um lugar tão complexo, ao mesmo tempo rico e pobre; fascinante e sórdido; belo e podre. Os paradoxos da urbe estão bem explícitos nas letras.

A música que mais deixa claro essa tendência é a faixa-título, que fala de lugares onde nem mesmo os anjos, os seres mais puros do universo, ousam pisar. Escrita por Zé Rodrix, que já deu outras boas canções ao Ira!, e Etel Frota, a música é um soco no estômago, com uma letra inspiradíssima. Em um dos versos mais fortes Nasi canta com sua voz rasgada o seguinte: Abandonado por meu próprio destino / Fazendo força pra seguir sem pensar / Dentro do peito agonizando o menino/ Que se perdeu porque não soube chorar / Se não tem cura eu toco um tango argentino / Olhando o anjo que não sabe dançar / Nada perder, nada ganhar / Enlouquecer ou delirar / E eu ainda insisto em andar, onde os anjos não ousam pisar. A voz rouca do vocalista, resultado de anos de fumo e álcool, e o piano de fundo dão um toque trágico à letra que, com certeza, é o ponto alto do disco.

Mas há outros bons momentos como a regravação de “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de Erasmo Carlos, gravada originalmente em Carlos, Erasmo , clássico do Tremendão de 1971. Nasi manteve os arranjos originais da canção, dando apenas um toque autoral no modo de cantar. Já “Quero ser seu homem” bem que poderia ser uma música de Tim Maia ou Jorge Ben em sua fase mais inspirada. Regada a pianos que se sobressaem, a música conta com um solo de metais arrebatador. Nasi ainda arranja tempo para assoviar a melodia ao final da música.

Mesmo as faixas menos inspiradas, como “Você me usou” e “Wolverine blues”, são boas. Esta última é uma espécie de homenagem ao personagem dos quadrinhos encarnado por Nasi há uns dois anos. Homenagem que poderia ser evitada na capa do disco, pelo menos. A foto de Nasi na contra-capa, vestido de cafetão e envolto em uma nuvem de fumaça, casa bem melhor com a estética e temática do Cd. A fantasia do cantor poderia ter ficado em segundo plano neste caso.

Mas o fato é que Nasi acerta na sua estréia. Para os fãs mais radicais do Ira! e aqueles que esperavam algo próximo do som da banda paulista, Onde os anjos não ousam pisar certamente não vai agradar tanto. Afinal os acordes inconfundíveis de Scandurra dão lugar a solos de trombone e piano. Unindo com competência e bom senso todas as suas influências musicais, Nasi faz um disco musicalmente bem interessante. Ao apostar em um tema que domina, o underground urbano, o vocalista acerta a mão indo buscar inspiração onde nem os anjos costumam pisar.