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28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores
3 de julho de 2006

PACTO DE AMOR?
A Dama de Honra, suspense psicológico de Claude Chabrol, traz a obsessão amorosa como centro da trama
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

hilippe é um jovem pacato e extremamente racional, que vive com a mãe e duas irmãs, em uma vida que parece transitar entre o trabalho e os problemas domésticos. No dia do casamento da irmã, ele conhece “a dama de honra” do título e uma enorme atração nasce entre eles. O que antes parecia reprimido em Philippe torna-se um turbilhão de emoções e sensações e uma fina teia de suspense começa a ser tecida entre os amantes, em uma intensa paixão, que parece não ter mais volta.

Novo filme do lendário diretor francês Claude Chabrol, precursor da Novelle Vague francesa juntamente com François Truffaut e Jean-Luc Godard, A Dama de Honra (La Demoiselle d'honneur, 2004) tem o melhor que esse senhor de 76 anos sabe fazer: suspense psicológico, onde assassinatos, adultérios e todas as perversões da mente humana parecem fasciná-lo.

A Dama de Honra é baseado em um romance de Ruth Rendell, escritora inglesa de grande sucesso no gênero suspense que já teve um outro livro também adaptado por Chabrol, o filme Mulheres Diabólicas , de 1995. Chabrol nunca se cansa do suspense - “Há um elemento no gênero, que é o crime em si, que me permite abordar qualquer assunto” . – diz ele e completa – “O suspense ainda é o gênero mais apropriado para lidar com personagens desequilibrados, os meus preferidos”.

Philippe (o excelente Benoit Magimel, visto anteriormente em A Professora de Piano ) fica obcecado por Senta (Laura Smet), que se revela sedutora e manipuladora, a ponto de propor que cada um mate uma pessoa em prova de amor. Á princípio reticente com a “brincadeira” proposta pela namorada, Philippe arruma uma maneira de que o estranho pacto seja realizado. Senta torna-se uma obsessão para ele que se deixa arrastar pela teia de mistérios, caprichos e ambigüidades criada por ela. Tal qual uma viúva-negra, Senta parece estar pronta para “devorá-lo” a qualquer momento e Philippe parece se entregar a essa situação sem rodeios. Até onde cada um é capaz de chegar em nome da paixão?

A obsessão de Philippe é tão doentia quanto os perigosos jogos de amor de Senta. Cada um, a sua maneira, revela o que há de mais perverso nos relacionamentos amorosos. Se Senta manipula Philippe com subterfúgios amorosos, a obsessão dele em viver essa paixão parece tão ou mais desesperadora do que a dela. Ambos não se relacionam com o mundo exterior, a paixão é restrita ao quarto de Senta, no porão de uma casa, onde Philippe acaba passando a maior parte do tempo, o que favorece ainda mais o clima claustrofóbico instalado entre os amantes, em uma relação apavorante.

Flertando com o cinema noir clássico e com uma história que lembra um pouco Pacto Sinistro de Alfred Hitchcock, cineasta com quem Chabrol às vezes é comparado devido á sua paixão por crimes e os meandros da psique humana, A Dama de Honra foge dos estereótipos tão propícios a esse gênero se tornando uma alegoria sobre o quão frágil torna-se o ser humano ao apaixonar-se e deixar-se ser consumido por essa paixão.