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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

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AGONIA E ÊXTASE
Tchaikovsky foi da vaia ao aplauso com seu Concerto para Piano No. 1
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

esmo quando já compositor consagrado, o russo Pyotr Tchaikovsky também experimentou o gosto amargo do fracasso: a premiére do bailado Ondine e a abertura-fantasia Romeu e Julieta , para a platéia de Moscou, retumbaram em fracasso completo. Esse malogro fez com que o compositor se afastasse de seu público por algum tempo, da mesma forma que o jogou na rua da amargura. Para se recuperar, foi buscar o apoio de sua irmã, sob os ares pastorais da bucólica Kamenka. Lá, ele descobriu, pálido de espanto, como no soneto, a beleza da música popular russa. Certo dia, enquanto compunha, ouviu atentamente à melodia que o jardineiro de Alexandra assobiava, enquanto podava os arbustos, sob a janela do quarto em que o mestre de Votkisnk descansava.

A segunda vez em que travou contato com esse tipo de melodia de cunho popular foi ao visitar uma feira, na cidade. Ali, alguns mendigos cegos entoavam cânticos para atrair os flanêurs passantes. Muito daquele mote que ouvira o atraiu como se entrasse num forte torvelinho. O corolário daquela inefável experiência apareceu primeiro no Quarteto em Ré Menor (opus 11) e, principalmente, no célebre Concerto para Piano e Orquestra em Si Bemol Maior , (opus 23). Datado de 1874, esta peça se tornaria uma espécie de cartão de visitas da obra singular de Tchaikovsky. No entanto, como para muitas coisas na conturbada vida do autor russo, o seu começo não foi nada fácil.

Para começar, parecia paradoxal aos seus detratores que o criador de O Lago do Cisne utilizasse números meramente de apelo popular para compor. Afinal de contas, ele era considerado o menos russo dos compositores de seu país. Menos russo justamente no sentido de que sua música se afastava do regionalismo pátrio, optando por formas composicionais “europeizantes”, ou “ocidentalescas”, ao contrário da concepção do chamado Grupo dos Cinco (Balakiev, Korsakov, Borodine, Cui e Moussorgsky), este sim, visceralmente ligado à temática de sua própria terra, como era típico dos compositores do Século XIX. Na verdade, Pyotr via, na maior parte deles, apenas uma posição ideológica do que realmente a demanda de uma estética original.

A despeito dessa discussão estético-filosófica, a verdade é que o compositor soube realmente lidar com os motivos de seu país e integrar a sua música às raízes musicais de seu torrão natal, e o primeiro Concerto para Piano é o maior testamento disso. Com a música dos mendicantes da feira na mente, Tchaikovsky escreveu para a Baronesa Von Meck: “é incrível perceber que na Rússia européia os mendigos cegos cantam sempre o mesmo tema. Aproveitei parte desse refrão no meu concerto para piano...”. Há, porém, outras melodias ali. O segundo tema do Andatino é, na verdade, uma ária de uma burleta, que os irmãos de Pyotr — Anatole e Modeste — costumavam parodiar o jeito bisonho que certa soprano a interpretava...

Sem valor — A composição do Concerto começou em meados de 1874. Pyotr contava 34 anos e gozava de relativo sucesso. Havia composto muita coisa interessante, mas ainda nada que o projetasse além das platéias de Moscou. Nesse momento, ele tinha certeza de sua ampla capacidade criadora e estava, de certa maneira, ‘vacinado' contra qualquer “baixo” que lhe atingisse o estro. Semanas antes do Natal daquele ano, o autor levou a partitura para o seu mestre, Nicholas Rubinstein, a fim de mostrar-lhe a nova criação. Sentou-se ao piano, e tocou. O velho maestro ouviu atentamente, em silêncio total. Quando, ao fim da execução, foi pedir-lhe a opinião, Rubinstein não poupou críticas à obra:

— Não tem valor nenhum, é inexecutável — bradou o mestre. — os temas estão mal utilizados, alguns são batidos demais, outros estão mal arranjados, de tal forma que não há muito o que fazer ali.

Como na máxima de que não se pode ensinar novas melodias a um velho maestro, Nicholas ainda disse que “duas ou três páginas ainda podiam ser salvas, mas o resto precisa ser refeito”. Tchaikovsky segurou-se, mas deu de ombros para tal negaça. Saiu de lá soltando labaredas pelas ventas. Discordava diametralmente do veredito. “Não vou mudar nada, não vou mudar nada”, dizia de si para si. “Vou mandar imprimir da mesma forma como está!”. A crítica ácida e áspera de Rubinstein não abalou as suas convicções como autor. No entanto, a atitude do mestre lhe decepcionou amargamente, porque a peça seria dedicada à Nicholas. Numa carta à sua benfeitora, a Baronesa Von Meck, ele escreveu: “qualquer observador imparcial teria chegado à conclusão de que sou um idiota sem talento, um charlatão desprovido da mínima noção de composição”.

Decidido a dar cabo do ambicioso projeto, Pyotr levou os originais ao maestro Hans Von Büelow (marido de Cosima Liszt, genro do compositor húngaro). Embora tivesse percebido que a estrutura do concerto era diversa da forma tradicional — o primeiro movimento, por exemplo, mais serve a uma exposição musical do tipo rapsódico, ele defendeu o concerto com unhas e dentes, e foi o seu principal divulgador. Tamanha foi a dedicação de Büelow, que o apresentou pela primeira vez nos Estados Unidos, em 25 de outubro de 1875, com a Sinfônica de Boston (no Music Hall, na mesma cidade), que Pyotr enfim dedicou a sua criação a Büelow.

Bis — Treze anos depois da estréia no Novo Mundo, o compositor russo ainda chegou a introduzir excertos e alterações nas partes do piano, dando à obra o acabamento que conhecemos hoje. Prova, de certa maneira, que Rubisntein havia demonstrado que o concerto não prescindia de alterações — embora não de forma tão radical, como preconizara ao seu discípulo. Tchaikovsky sabia que havia muito em matéria de criação e informação musical ali que ia além dos conceitos formais do concerto propriamente dito, como nasceu e floresceu, a partir do século XVII e que chegara ao seu ápice em Beethoven. O preço do ímpeto, contudo, foi um enorme galardão: na Rússia, A Sociedade de Música da São Petesburgo adotou o concerto, ao qual apresentou dezenas de execuções.

Consta que até o empedernido e contrariado Nicholas Rubinstein, quem diria, tempos depois acabou adotando a peça que antes execrara com todas as letras, tocando-a nas principais cidades da Europa. Se tornou ele também responsável pela enorme popularidade que a obra desfruta desde então. Em 1891, o concerto para piano foi o principal número executado no recital de inauguração do Carnegie Hall de Nova York, com o próprio autor como solista. Na ocasião, a platéia pediu que o Rondó ( Allegro cnn Fuoco ) fosse bisado três vezes.

Gravações — Existem várias interpretações interessantes do Concerto para Piano No. 1. Vale mencionar a com o solista Ivo Pogorelich com a London Symphony Orchestra, sob a regência de Claudio Abbado. Outras interpretações excelentes são a com Martha Argerich, e o Abbado, desta vez regendo a Filarmônica de Berlim; e duas gravações históricas com Herbert Von Karajan regendo a Filarmônica de Berlim (todas da Deutsche Grammofon): com o solista Yevgeny Kissin e a mais conhecida, com Sviatoslav Richter, com Karajan regendo a Filarmônica de Viena.