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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

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ENGARRAFADORA DE SONHOS
Romance esquecido de Budd Schulberg, roteirista de Sindicato de Ladrões, mostra o lado sórdido da Hollywood dos anos 1930
por Luiz Rebinski Junior (jrrebinski@yahoo.com.br)

recente publicação de Os desencantados , livro que conta de forma romanceada parte da história de vida de Franz Scott Fitzgerald, trouxe novamente às pautas de jornais e revistas o nome de Budd Schulberg. Romancista de grande talento, o escritor sempre foi mais lembrado pelo roteiro de Sindicato de Ladrões , filme que ganhou o Oscar em 1954 e revelou Marlon Brando, do que pela sua produção literária.

Mas além do livro inspirado na experiência do autor de O grande Gatsby em Hollywood, Schulberg escreveu outra história igualmente mordaz e pungente, que também teve como pano de fundo a maior indústria cinematográfica do mundo.

O livro em questão é O que faz Sammy correr ? , um romance que aos poucos vai sendo resgatado, depois de mais de seis décadas de seu lançamento. Roteirista profissional de diversos estúdios hollywoodianos, Schulberg utilizou-se de toda experiência que possuía para descrever os interesses que moviam o cinema norte-americano na década de 1930. Carregado de munição e esteado por uma escrita sublime, o escritor chocou a sociedade norte-americana ao descrever o “lado B” da camada social que envolvia a então emergente e glamurosa Hollywood.

Para descrever com mais propriedade os jogos de interesses e as negociatas dos figurões do cinema, e assim dar mais credibilidade à narrativa, Schulberg recorre a um personagem que personifica tudo o que havia de mais sórdido e antiético nos bastidores da sétima arte. Sammy Glick, que empresta o nome ao título do romance, é um judeuzinho nova-iorquino que tem como único objetivo ser “um dos grandes” de Hollywood. Mesmo sendo Sammy o personagem central da trama, a história é contada por um certo Al Manhein, jornalista mediano que trabalha em um periódico chamado Record . É nesse jornal que Sammy começa, como mero mensageiro, sua empreitada rumo à glória.

Al, desde o primeiro diálogo que tem com Sammy, em que o adverte a não falar “tô” e preferir a forma culta “estou”, percebe que há algo de errado naquele judeu suburbano. Rápido e eficiente nas tarefas do dia-a-dia, Sammy vai aos poucos conquistando espaço no ambiente de trabalho. Abusado e esforçado, o garoto sabe estar na hora, nos lugares e com as pessoas certas. Não esconde de ninguém que deseja ser um jornalista de renome e ter sua própria coluna no Record , o que acontece em pouco tempo. Al, paralisado pela rotina e pela falta de motivação no trabalho, vê com amargura a ascensão do menino bisbilhoteiro que há poucos meses não sabia falar direito. A partir daí, descobrir o que fazia Sammy Glick correr tanto se torna uma obsessão para o narrador.

Hollywood aos pés de Sammy

Após conseguir a tão sonhada coluna no Record , que tinha como assunto principal o incipiente rádio, o iminente jornalista de Nova Iorque começa a planejar novos vôos. Al, desolado ao ver a meteórica promoção de um pequeno farsante, que se utiliza de meios pouco ortodoxos para ser conhecido, resolve tentar desmascarar o colega. Porém o jornalista é tomado por um inexplicável sentimento que mistura indignação e atração. Sammy é um anti-herói, espécie de Macunaíma que tenta tirar proveito até das situações mais embaraçosas. Porém, a seu favor o ambicioso rapaz tem um misterioso poder de persuasão, que o ajuda a conseguir o que quer.

E o que Samuel Glickstein, nome verdadeiro do figurinha, quer, é Hollywood, a Meca dos grandes artistas dos Estados Unidos e passarela para os endinheirados do país. Ser roteirista de um grande estúdio de cinema era, segundo Al Manhein, o sonho de nove entre dez profissionais da mídia na época. Porém as oportunidades eram escassas. Mas não para o intrépido Sammy. Ele consegue a façanha, como não poderia deixar de ser, enganando um talentoso e ingênuo escritor chamado Julian Blumberg. Tentado a mostrar sua escrita a um grande jornalista, Blumberg passa os originais de uma de suas histórias ao senhor Glick, que rapidamente a vende à industria como se fosse sua.

Passado para traz por um fedelho vigarista, Al Manhein decide tentar a sorte em Hollywood assim que uma oportunidade lhe aparece. Al é um jornalista que escreve bem e é respeitado pelos colegas. Confia em seu trabalho como roteirista e não consegue entender como Sammy conseguira chegar ao topo. Entre um golpe e outro do protagonista, o livro de Schulberg vai entrando nos meandros de uma classe dominada pelo clientelismo e pelas trocas de favores.

Na Hollywood descrita por Al, nem sempre o mais talentoso é o vencedor. Mais políticos do que artísticos, os estúdios eram o berço de yuppies que tentavam virar o jogo após a desastrosa quebradeira do final dos anos 20 na economia norte-americana. Surgido do lado mais obscuro da recessão, saído dos guetos judaicos, Sammy tem como único objetivo a fama.

No rol dos fantoches de Sammy, além do narrador e Julian Blumberg, ainda há lugar para uma bela roteirista e sindicalista chamada Kit, e uma velha raposa do cinemão que atende pelo nome de Sidney Finneman. Todas essas figuras são, de uma maneira ou de outra, usadas pelo pequeno Sammy. Alias, Kit tem uma relação pouco clara com Sammy, o que deixa Al enciumado, já que este é apaixonado pela colega.

Schulberg se utiliza de um humor fino bastante pertinente para descrever a trajetória do protagonista. As saídas pela tangente de Sammy, quando este se via acossado nas rodas intelectuais por assuntos que não tinha o menor conhecimento, são realmente muito boas. Entre uma festa e outra o autor vai revelando a falsa erudição que permeia a sociedade hollywoodiana. Por meio de seu intrépido vigarista, Schulberg faz florescer o provincianismo dos figurões do cinema. E nesse quesito Sammy Glick é o modelo ideal.

Falando sobre cinema e sendo ele próprio um homem de muitos roteiros, Schulberg se utiliza de cortes cinematográficos para contar suas histórias. Ainda que o romance tenha sido escrito na longínqua década de 1940, as frases curtas e os parágrafos jornalísticos podem ser observados com facilidade. Aliás, o autor recorre a cartas e matérias de jornais como forma de quebrar a narrativa linear. É uma maneira de dar legitimidade ao que conta também.

Em uma espécie de meta-romance ficcional, o autor destrói a aura romântica do que anos mais tarde, no já citado Os desencantados , chamou de “engarrafadora de sonhos”, quando se referia a maior indústria de cinema do mundo.

Al persegue – e é perseguido em muitos momentos – a figura onipresente de Sammy até as últimas páginas do livro. A relação dos dois personagens é tão dúbia – sempre pendendo mais para o lado da disputa –, que em muitos trechos parece haver algo de obscuro, quase passional, entre Al e Sammy. Até as últimas linhas do livro os dois estão juntos, sendo Al testemunha da derrocada amorosa e moral que deixa o amigo no chão depois de seguidas vitórias.

Ferino e satírico, Budd Schulberg construiu um personagem que abalou os alicerces do meio intelectual norte-americano. Que inclusive lhe rendeu uma perseguição anticomunista do senador MaCarthy. Sammy Glick, imigrante pobre e inculto, era tudo aquilo que a sociedade de então não gostaria de ver como símbolo de um lugar reservado às cabeças mais iluminadas da terra de Tio Sam. O que faz Sammy correr ? teve a ousadia de falar sobre um mundo até então visto pelo imaginário popular como encantado. O livro, além do inegável valor literário, abriu caminho para que uma década depois o autor se aprofundasse nos labirintos de Hollywood, tendo como peça-chave não mais um imigrante ambicioso, e sim um grande literato decadente.