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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

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PAIS E FILHOS
Cômico e sensível, Transamérica abre a cena para a afetividade familiar
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

m homem descobre que tem um filho, fruto de uma experiência do passado, e sua terapeuta o aconselha a procurar por ele. Os dois se conhecem, mas o segredo não é revelado. Por força do destino, pai e filho são obrigados a realizar uma viagem de carro e, através da convivência forçada, descobrem que estão mais próximos do que imaginam. Se, a princípio, esta história soa clichê e piegas demais, Transamérica (2005) vai além das histórias familiares com conflitos e finais felizes.

A narrativa gira em torno de Bree, um travesti que está com uma cirurgia de sexo agendada, e tem uma semana para fazer as pazes com o passado e reencontrar o filho que nem imaginava existir. Por sua vez, o garoto é um adolescente que mostra traços concretos de problemas afetivos e familiares: fugiu de casa, prostitui-se e droga-se nas ruas e está preso em um reformatório, de onde Bree procura tirá-lo.

Usando a premissa do road movie para aproximar os dois personagens, o diretor Duncan Tucker ganha pontos por não transformar o filme em um épico de mudanças e descobertas e optar pela descrição de uma viagem simples. A história vai além dos gêneros sexuais e do travestismo e debate a família - não a convencional que temos como base (pai, mãe e irmãos), mas a relação familiar como um todo, usando os novos núcleos que estão sendo formados, com os papéis se confundindo e se misturando. É também sobre o afeto paternal e maternal, sobre as diferenças entre pais e filhos e todas as implicações que advém dessas diferenças.

Por isso, além da relação entre Bree e seu filho, o filme também converge para a família da personagem principal, onde ela busca abrigo, refugio e aceitação para suas mudanças e escolhas. Nessa busca, a personagem descobre que todo aquele afeto tão insistentemente procurado pode ser dado a alguém que também nunca encontrou: seu próprio filho. Bree precisa da cirurgia para ser vista como mulher, o que realmente é, mas a sua aceitação como ser humano vem através do reconhecimento do filho por sua maternidade/paternidade.

No papel de Bree, a atriz Felicity Huffman (a Lynette da série Desperate Housewifes) dá um show de interpretação, nunca resvalando no estereotipo fácil, lutando por uma personagem com muita emoção e sensibilidade, uma entrega que valoriza muito mais a humanidade da história. É uma atriz/personagem acima do próprio filme. Porém, na ânsia de querer agradar a tudo e a todos, alguns conflitos, que poderiam ser mais bem desenvolvidos, acabam empobrecidos pela necessidade de parecer correto e assertivo todo tempo.

Entre erros e acertos, nascem os momentos mais emocionantes do longa-metragem, mas é no equil í brio entre o drama e a comédia que estão os grandes méritos da direção de Tucker. Travestismo, prostituição, drogas e fam í lia disfuncional são temas que podem render uma infinidade de dramas pesados e arrastados, mas nas mãos de Duncan Tucker ganham uma leveza quase inesperada.