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19 de agosto a 3 de setembro de 2006

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RASCUNHO DE UM ANJO
Patrícia Pillar se esforça, mas Zuzu Angel não convence
por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

inferno está cheio de boas intenções. E o cinema também. Zuzu Angel , filme que retrata o drama da estilista de mesmo nome, é mais uma tentativa de resgatar um pouco da história do Brasil. Ao focar a trama na luta de Zuzu Angel (Patrícia Pillar) para resgatar o corpo do filho morto pela ditadura, a produção não apenas apresenta ao grande público a coragem da estilista em enfrentar as autoridades arbitrárias da época, funcionando, também, como um pequeno painel de um período negro da política nacional. Mas, como o ditado, Zuzu Angel se perde em boas intenções e peca justamente em ser didático demais e cinemático de menos.

Ao optar por uma série de escolhas óbvias e burocráticas para tornar o filme mais comercial, o experiente diretor Sério Rezende ( O Homem da Capa Preta , Lamarca , Guerra de Canudos ) abre mão de uma série de possibilidades e entrega apenas o esboço de uma produção que poderia render bem mais do que é mostrado na tela. O longa-metragem ganha, assim, a empatia de um público maior e menos exigente, mas perde em profundidade e em carga dramática. A opção de focar a estória da estilista no período mais dramático de sua vida é válida, mas transforma uma mulher real e sofrida em uma caricatura pouco sutil. Nunca entendemos, por exemplo, o que levou essa mulher a abandonar uma vida “fútil” de estilista e abraçar e morrer por uma causa que nunca parece realmente ser a sua.

Em nenhum momento nos emocionamos ou entendemos o drama real dessa mulher que só queria recuperar o corpo do filho e fazer justiça. A direção pouco inspirada de Rezende pesa contra o longa e a impressão que temos é que o diretor não quis ousar porque a trama falaria por si só. Faltou coragem ao diretor e a profusão de flashbacks e a narração em off , além de não funcionarem, só atestam a fragilidade do roteiro e a artificialidade da produção, cheia de cenas de “impacto” e mal costuradas (Zuzu Angel visitando o pai do capitão Lamarca ou assistindo a um show de uma cantora interpretada por Elke Maravilha). Ao invés de investir em um maior cuidado narrativo, Rezende prefere se apoiar totalmente na dramaticidade da estória e aposta, assim, na interpretação dos atores. Uma pena que o roteiro preguiçoso não ajude, entregando não pessoas reais, mas personagens-chavões mal desenvolvidos.

O roteiro do filme não tem a preocupação em estabelecer, por exemplo, uma ligação mais forte entre Zuzu Angel e seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), o que acaba enfraquecendo a estória e a tornando superficial e, digamos, novelesca. Os diálogos proclamados e as frases feitas contribuem para a frieza com que o filme é conduzido. Zuzu Angel é a mulher destemida e o esforço de Patrícia Pillar em construir uma figura multidimensional é visível. Mas nem o talento da atriz consegue evitar que Zuzu Angel se torne mais uma personagem clichê. Stuart é o jovem idealista e que proclama frases clichês como “porcos imperialistas”, o que caracteriza a personagem mais como ingênua do que revolucionária. Othon Bastos é o militar malvado e sem coração. E todos os outros atores são meros joguetes que só aparecem em cena quando o roteiro maniqueísta necessita deles.

No final da contas, Zuzu Angel se sai melhor do que Olga, outra produção que investe no clichê “mulher luta contra o sistema”, passando longe do constrangimento causado pelo filme de Jayme Monjardim. Mas Zuzu Angel funciona mais como uma aula de história rasteira de cursinho do que como cinema. O drama não funciona nem quando a trilha sonora “triste” ressoa pelas salas de exibição. A tentativa de realizar um thriller político não convence nem mesmo quando a música “tensa” nos avisa do perigo. E o que sobra é a tentativa de Patrícia Pillar em transformar um rascunho de personagem em uma pessoa de verdade. Não apenas o nome de um filme ou uma nota de rodapé da nossa história.