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SERTÃO POP
Árido Movie, segundo longa-metragem de Lírio Ferreira, trata com sutileza e bom humor das mazelas do sertão nordestino

por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

m dos erros capitais que um cineasta pode incorrer quando filma o sertão nordestino brasileiro é deslizar para os clichês históricos que normalmente são vinculados a essa região do país. Ainda que reais e cruéis, a seca, o analfabetismo e o clientelismo ainda existentes nos rincões do nordeste se tornaram temas tão "desgastados" quanto o carnaval e o tráfico de drogas nos morros cariocas – assuntos que as platéias estrangeiras adoram e que, diga-se de passagem, ajudam a reforçar ainda mais a visão simplista que os gringos têm de nossa realidade social.

Erro esse que o diretor Lírio Ferreira passa ao largo em sua segunda incursão ao longa-metragem. Mesmo falando sobre muitos dos chavões que rondam a parte mais seca do Brasil, "Árido Movie" – o próprio título já é revelador – consegue driblar o lugar-comum apostando em uma boa história e um jeito interessante de conduzir a narrativa.

Com um elenco competente, Ferreira conta a história do jornalista Jonas (Guilherme Weber), "homem do tempo" da televisão que volta à cidade natal após receber a notícia de que o pai (Paulo César Pereio) havia morrido após uma discussão causada por uma prostituta. Saído ainda criança da fictícia Rocha, Jonas se depara com a estranheza de um lugar que lhe é indiferente. Antes de seguir para o funeral, o jornalista revê a mãe e os velhos amigos na ensolarada Recife.

Aí começa uma série de encontros e desencontros que acompanha a história até seu desfecho. Os amigos de Jonas, vividos por Selton Mello, Mariana Lima e Gustavo Falcão, dão um toque pitoresco e até mesmo pop ao drama vivido pelo protagonista. Mello faz a melhor interpretação do filme com o despirocado Bob, um garotão que só pensa em fumar maconha e curtir o sol pernambucano. Falcão e Mariana, também vão bem na interpretação dos personagens Falcão e Verinha, respectivamente.

A trama começa a esquentar quando os amigos de Jonas decidem segui-lo até Rocha, onde o defunto já entrava em decomposição devido ao calor intenso e a demora do enterro. Porém os desencontros iniciam quando o protagonista encontra, no meio da viagem de ônibus, a documentarista Soledad, que lhe oferece carona. Esse é o gancho do diretor para falar do problema da falta de água na região e do uso político-religioso que muitos fazem da seca. Tal papel fica por conta de José Celso Martinez Corréa, que encarna um pseudomessias com supostos poderes milagrosos.

Bem amarrada, a narrativa faz um interessante link entre a condição de penúria causada pela falta de água e a profissão de Jonas, homem que deveria trazer boas notícias à região castigada pela seca.

A ainda presente influência de coronéis e afins na política das cidadezinhas do nordeste é mostrada quando a avó de Jonas – matriarca de uma família que se dedica ao plantio da maconha – pede ao neto que vingue a morte do pai, matando o índio Jurandir (Luis Carlos Vasconcelos). Tudo isso contado de um jeito habilidoso, muito sutil, sem que a história enverede para o denuncismo.

Filmando em um lugar bastante peculiar, cercado de rochas e inundado pela poeira, Lírio Ferreira consegue um bom resultado com suas panorâmicas e zooms desfocados. Ainda que conte uma história linear, com começo, meio e fim, o diretor consegue inserir takes que pegam de surpresa o espectador. Faz isso na cena capital da película, em que Jonas, após tomar uma bebida alucinógena no meio da caatinga, é morto pela mesma mulher que motivou o assassinato de seu pai. A cena é meio surreal, com Pereio – que mais uma vez faz o seu papel preferido: o de eterno cafajeste –, voltando nos braços de sua algoz para testemunhar a morte do filho.

O filme ainda traz muitos bons momentos, como a cena em que o trio Verinha-Bob-Falcão encontra uma plantação de maconha, entrando em êxtase. Matheus Nachtergaele, acostumado a figurar entre os protagonistas nos trabalhos em que atua, neste fica em segundo plano como o tio introspectivo – e dono de funerária – de Jonas. Mesmo assim tem uma participação digna de nota.

Outra boa sacada é a trilha sonora do longa-metragem, dominada por Otto e outros nomes saídos de Recife como Junio Barreto. A primeira cena, com Renato e seus Blue Caps tocando em um inferninho também é muito boa.

Unindo uma boa história – esteada por um roteiro sóbrio – e ótimas interpretações individuais, "Árido Movie" consegue ser político sem abdicar da imaginação e de uma bom enredo. Por tudo isso, pode-se dizer que Lírio Ferreia conseguiu um feito: superou a si próprio e ao seu excelente "Baile Perfumado", filme que já tem lugar garantido na recente história do cinema nacional.