| CONTRA OS TEMPOS MODERNOS
Bob Dylan lança Modern Times e desdenha a tecnologia e a campanha contra download gratuito de CD
por
Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

ano de 2005 foi importante para Bob Dylan: lançou o primeiro volume de um livro de memórias e um documentário onde ele faz o inventário dos seus anos políticos, quando foi entronizado como o bem-comportado menestrel da antiga contracultura. Agora, lança o último álbum de uma proclamada trilogia (iniciada há quase uma década, com Time Out Of Mind ), o aclamado Modern Times . O disco chega às lojas sofrendo a mesma liturgia imposta à indústria do disco nos tempos modernos: as dez faixas já haviam sido colocadas à disposição no site da Sony.
Embora retirados do ar pouco tempo depois, o estrago já estava feito: todo o material já estava disponível em websites de BitTorrent a partir do dia 21 de agosto e, dois dias antes do seu lançamento oficial (dia 28 de agosto), o novo trabalho do cantor e compositor americano já estava sendo comentado e criticado em fóruns de discussão na Internet. Acontece que o virtual vazamento de músicas pela rede mundial de computadores não é novidade hoje — fato que fez com que muitos entendessem que isso se tratava de alguma estratégia de marketing da gravadora.
Entrementes, numa entrevista recente, o próprio Dylan não fugiu ao seu estilo sarcástico ao ser perguntado sobre o tal vazamento. Ao contrário de muitos artistas, ele aproveitou para criticar as campanhas contra download gratuito de música na Internet. "Por que não?", disse ele, “Isso não vale nada mesmo”. Para ele, é apenas “mais uma batalha perdida”.
Pseudônimo - Totalmente elétrico, Modern Times , o primeiro em cinco anos com músicas novas e considerado pela crítica como um dos melhores dos 44 dos seus 34 anos de estrada, é uma incursão no country e no blues norte-americano, um gênero que ele sempre considerou e que sempre foi o motivo condutor de sua obra. Gravado no começo de 2005, Dylan repete a mesma fórmula do álbum anterior, Love And Theft , e assina a produção do trabalho, porém sob o pseudônimo de Jack Frost. “Achei que não havia necessidade de nenhuma ajuda externa”, diz o autor. “não que eu quisesse me excluir da parte dos créditos ou tirar o holofote sobre mim, mas eu não queria que chovessem pedidos para que eu fosse produzir discos de outras pessoas a me pedissem sugestões para os seus trabalhos, não que eu não precisasse do serviço”.
A produção de Dylan explica a crueza do disco, cujas faixas foram todas gravadas rigorosamente ao vivo, sem mixagens, ao mesmo tempo em que o compositor acertava as letras das músicas ou lhes acrescentava versos a mais. Isso explica o ímpeto em escrever textos longos, como “Nettie Moore” ou “Ain't Talkin'”. A bem da verdade, nada que escape ao que ele sempre se acostumou a fazer em estúdio, deixando a música fluir ao sabor do tempo, como um mero produto da criação espontânea, ou um disco de garagem.
Modern Times é Dylan mais a sua banda de apoio na recente turnê: Tony Garnier (baixo), George G. Receli (bateria), Stu Kimball (guitarra), Denny Freeman (guitarra), e Donnie Herron (piano). Discreto ao extremo, ele soa mais leve do que no palco, ao mesmo tempo não vai além do mesmo padrão sonoro que imprimiu nos últimos trabalhos — um amálgama dentro do mais lounge possível e da simplicidade nos arranjos.
As músicas - “Thunder On The Mountain'” é um country-bop , com todos os seus clichês, no qual a letra, menos enigmática que o usual, se sobressai: “Estive estudando a arte de amar/Acho que isso me servirá como uma luva/ quero uma mulher boa para fazer o que eu sei/ Todos precisam saber disso agora nesse mundo cruel”. “Spirit On The Water” é um fox bem comportado, a melodia lembra “Moonlight”, do disco anterior. A letra, extensa, é plena de clichês românticos, mas sempre cheios de boas intenções: “eu esqueceria tudo sobre você/Então você voltou para mim/ Eu sempre soube/Que nascemos para ser mais do que amigos”. “Rollin'And Thumblin'” é um blues em tempo rápido, e que poderia estar em outros discos de Dylan.
“Where The Deal Goes Down” quebra um pouco o clima do disco, como uma valsa lenta commelodia ligeiramente gospel. O rock volta à carga com “Someday Baby”, com um solinho a la “Susie Q”: “sou tão pressionado/Minha mente está amarrada em nós/Fico reciclando meus velhos pensamentos/ Um dia você não terá pena de mim novamente”. “Workin'Men's Blues” é outra balada que contrasta com o country-rock, com uma letra filosófica e impressionista: “ouço o clamor dos pássaros no pélago noturno/Posso ouvir o suspiro dos amantes/ Durmo numa cozinha com os pés na sala/ dormir é como uma morte temporária”.
“Beyond The Horizon” é outro daqueles “fox-trots” ‘nefilibatas' de Dylan, cuja melodia é muitíssimo parecida com “Red Rails in The Sunset”, e o arranjo tem aquele ar de filme antigo: “além do horizonte/o céu é tão azul/Eu tenho mais que a vida inteira/ Para viver a te amar”. “Nettie Moore” é uma longa e langorosa história sobre o fim de um amor; “The Levee Gonna Break” é country estilo Carl Perkins. O grand-finale é “Ain't Talkin'” é o piece de resistance do álbum, e fecha Modern Times em grande estilo, mostrando um Dylan bancando o pessimista incorrigível, trazendo uma forte visão do blues, com uma noção do mundo fantasmagórica. Se em “Hard Rain”, ele fala de um mundo que está prestes a acabar, em “Ain't Talkin'” ele parece escrever o necrológio de um mundo que acabou: ”tento ser fiel ao meu próximo e fazer o bem para os outros/ Mas oh, mãe, as coisas estão indo de mal a pior”.
Diga o que disser, a verdade é que Dylan é um purista. Ele sempre procurou registrar os seus discos da maneira mais artesanal possível. Há pouco tempo, os jornais repercutiram suas afirmações de que a tecnologia dos “tempos modernos” mataram a mesma espontaneidade em que ele aprendeu a trabalhar. Para o compositor de “Blowin' In The Wind”, as músicas do seu novo álbum tem o som muito melhor ao vivo e em estúdio do que no disco. “Não conheço ninguém que tenha feito uma gravação com o som decente nos últimos 20 anos", disse o roqueiro em uma entrevista à revista Rolling Stone . Talvez a tecnologia realmente tenha piorado a crueza do velho e bom rock básico que ele faz, nos anos 60, nos tempos do “Blonde On Blonde”. Por isso mesmo, Modern Times talvez só não seja melhor se tivesse sido gravado há cerca de quarenta anos...
* O álbum está disponível nas pré-compras de muitas lojas online. Na Amazon.com, a página referente a Modern Times disponibiliza o teledisco (espantoso plano fixo!) de uma magnífica gravação ao vivo de um tema do álbum Time Out of Mind (1997): Cold Irons Bound."
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