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O TEMPO DE TODOS NÓS
Cineasta francês fala sobre a morte em O Tempo que Resta

por Luiz Andreghetto (luiz_andreghetto@hotmail.com)

m filme que fale sobre doença ou morte, a principio, pode se tornar um imenso dramalhão de lágrimas ou uma história de superação sobre as grandes adversidades da vida. Mesmo não sendo fácil se desvencilhar de algumas armadilhas tão propicias ao tema, alguns diretores tentam se valer desse artifício para, ao falar da morte, celebrarem o quanto a vida é maravilhosa e deve ser aproveitada ate os últimos segundos.

Mas esse não é o caso do diretor francês François Ozon. Não que ele ache que viver é um desperdício ou algo assim. Para Ozon, em seu novo filme O Tempo que Resta (Le temps qui reste, 2005), “lutar” com a morte é injusto e por demais cansativo, não existindo nem esperança, nem redenção, apenas a dor da aceitação de um fim próximo e iminente.

Romain (Melvil Poupaud) é fotógrafo, gay, tem alguns problemas de relacionamento familiar e mora com o namorado. Ao descobrir que está com um câncer raro e que as chances de cura são mínimas, mesmo seguindo fielmente o tratamento necessário, resolve abandonar tudo e todos para conviver e aceitar o derradeiro momento de sua existência.

Em outros filmes, ao se deparar com a proximidade da morte, as personagens procuram acertar as contas com o mundo exterior: perdoando ou sendo perdoadas, fazendo o que antes não se permitiam fazer, etc. Em O Tempo que Resta , a busca de Romain é inversa. Ele volta seu olhar para dentro de si, em uma busca intima e solitária, um acerto de contas consigo mesmo, com suas memórias e afetos.

Para isso Romain não conta a ninguém que está morrendo, apenas para sua avó (Jeanne Moreau, em uma participação mais do que especial) que, como ele mesmo diz, poderá entendê-lo melhor, por também se encontrar tão próxima a sua mortalidade. O protagonista briga propositalmente com a irmã, é ríspido com os pais, expulsa o namorado de casa, afastando todos que o amam, para que não sintam pena e nem o levem a ter algum tipo de esperança referente à situação que esta vivendo. Se a grande tragédia da existência humana é que ela é solitária por natureza, é nessa solidão que Romain quer encontrar sua paz interior.

O entendimento do “mundo” e da vida de Romain muda, assim como seu olhar fotográfico, quando começa a captar pequenos instantes da realidade que o cerca, como se essas imagens fossem aquelas que ele realmente gostaria de levar consigo. São nos detalhes de cada coisa, de cada pessoa, que Romain percebe o quanto que viver poderia ter sido simples. É um mergulho interior trôpego, onde cada camada alcançada parece ser mais dolorosa que a anterior, em um caminhar de espaços abertos, ensolarados e amplos onde ele precisa encontrar a maturidade para se desvencilhar daquilo que nos é mais caro: a própria existência.

O Tempo que Resta é simples, curto e sucinto (85 minutos), mas não por isso menos essencial. Ozon segura as lágrimas do espectador para que ele caminhe junto a Romain, em um final que, por mais triste que possa parecer, é poético. Assim como viver ou morrer.