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Revista Rabisco chega ao quarto ano com muitas histórias para contar

stava chegando perto da comemoração dos quatro anos da revista, e o Rodrigo Herrero me enviava e-mails o tempo inteiro perguntando “Ana, o que faremos para a edição de aniversário?”. Na minha mente vinha apenas o logotipo com o bolo, que o Marcio Caparica fez
para a Edição 25, quando completamos 1 ano. Na ocasião, nos reunimos para elencar os momentos culturais mais importantes para a equipe, que foi a capa da referida edição.

Entre as tantas idéias que surgiram para a edição de quatro anos, decidimos pedir aos colaboradores que fizessem um depoimento falando sobre a relação deles com a revista. O intuito era mostrar como histórias de pessoas tão distantes convergiram neste ambiente chamado Rabisco. Vale a pena notar que quase todo mundo lembrou de como começou na revista, do primeiro texto publicado, do contato com os leitores, da emoção. Felizes coincidências que ajudaram este projeto, que começou lá em 2002, a completar quatro anos.

Enquanto vocês lêem os depoimentos dos nossos colaboradores e editores, nós já começamos a preparar a edição 84, que vai dar o primeiro passo para o quinto ano da Revista Rabisco. Esperamos, de coração, poder estar aqui no ano que vem soprando mais uma velinha com vocês, leitores queridos. Boa leitura!

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE...

ou apaixonado por livros e cinema, mas estava no Google procurando algo sobre a canção “Aquarela” e acabei por cair no Rabisco, em um texto da Ana Lira que fazia um paralelo da canção com a vida do ser humano. O texto era empolgante o que me fez começar a ler os outros textos do site. Vi uma nota na página, falando que o site aceitava colaborações, mas hesitei. Há tempos não escrevia textos.

Algum tempo depois após ter visto o DVD Duplo do filme fenômeno (inter)nacional “Cidade de Deus” fiquei alucinado para escrever sobre o documentário que mostrava os bastidores desta obra de tanto impacto. Se o que faz o homem vencer seus medos é a empolgação, eis que resolvi escrever uma resenha sobre o filme e enviá-la para o Rabisco.

Alguns dias depois recebo o e-mail do Marcel Nadale dizendo que iria utilizar a resenha na próxima edição. Assim que a edição de número 36 foi ao ar, enviei e-mail para todos os contatos da minha lista. Essa sensação de ver meu texto no site para então poder debater o tema com os amigos, ou mesmo saber que desconhecidos estão lendo os textos e se mexendo para mudar algo em suas vidas (assim como aconteceu comigo ao enviar o primeiro texto para o Rabisco...e então recomeça-se o ciclo) é indescritível. Surgiram outras colaborações, mas claro sempre conflitando com as complicadas jornadas do meu “trabalho ganha pão”. ( Paulo Gustavo Freire é engenheiro, cinéfilo e mora em São Paulo)

culpa é do Google. E da minha monografia de conclusão de curso. Era mais uma manhã chata sem nada para fazer de um trabalho chato em uma assessoria de imprensa chata. Decidi fazer algo útil do meu tempo e fui navegar na Internet a procura de alguma coisa sobre o tema da monografia, a relação entre cinema e videoclipe. Depois de muito pesquisar e encontrar pouca coisa legal, eis que me deparo com um site sobre cultura pop, o Rabisco. Foi paixão à primeira vista. Passei as manhãs seguintes matando o tempo ocioso no escritório lendo o conteúdo do site. Além das críticas e resenhas bem escritas, algo me chamou a atenção: o site aceitava colaborações. Porque não mandar, pensei comigo mesmo.

Já que, na época, estava insatisfeito com o trabalho, seria uma boa escrever sobre o que gostava e colocar em prática algumas coisas que aprendi na faculdade mas que não tinha, ainda, a oportunidade de exercer na vida profissional. De lá para cá, entre indas e vindas, são quase de três anos de colaboração, muitas críticas de cinema, algumas de música e o desejo de que o site continue sua trajetória por muito tempo.

A paixão pelos livros e por cinema continua forte e enquanto puder escrever para o Rabisco estarei sempre mantendo a tal empolgação que nos faz tomar atitudes diferentes para mudar nas nossas vidas. Não é todo dia que se faz 4 anos de existência, digo para um site é claro. Espero que tenhamos muitos outros aniversários. Parabéns Rabisco. ( Fabio Freire é jornalista. Nasceu no Maranhão, cresceu em Fortaleza, e agora mora em Salvador )
-Fábio Freire posando de integrante do The Strokes.

ocê gosta de cinema? Por que não escreve um artigo em um site da internet?” Quando, há quatro anos, uma amiga me fez este desafio, eu não sabia nem por onde começar. Já escrevia críticas há alguns anos, mas sempre as jogava para a gaveta, porque nunca tinha tido chance de fazê-las chegar a alguém. Achava que ficaria só como um exercício pessoal, uma reflexão para mim mesmo sobre os filmes que eu via, sem chance de ver a luz do dia, como outros trabalhos.

E então o bichinho-carpinteiro da vontade de trabalhar, aquela espécie de consciência culpada que se apodera de nós quando estamos em frente à tv sem fazer nada, me disse para levantar a bunda da cadeira e mandar meus textos para sites da internet. Mandei, nenhum deles me aceitou, mas um dos responsáveis por um destes sites me falou de um endereço virtual onde poderiam aceitar meus textos. “Chama-se Rabisco”, disse ele. Gostei do nome. Fui até lá, me apresentei, e mandei meu primeiro texto (na verdade era uma crônica, uma brincadeira, quase uma profissão de fé sobre o que eu acho que o cinema deve ser: A Importância da Pipoca no Cinema Mundial – se estiver interessado em ler, clique aqui). E o pessoal do RABISCO publicou.

Desde então, venho escrevendo sobre cinema no RABISCO, com mais ou menos regularidade (do que peço desculpas aos meus colegas, à Aninha, ao Herrero, e a todos). E para mim, o Rabisco é um milagre: uma revista virtual feita por gente que se encontrou ao vivo no máximo 3 vezes, que tem um sonho de ter um espaço legal na internet, um espaço aberto sobre tudo, democrático e vivo, onde qualquer pessoa pode mostrar seu conhecimento, falar de uma peça, um livro, um movimento cultural, um esporte, uma paixão. Tenho orgulho de fazer parte deste Rabisco, deste espaço que se abre para quem quiser mostrar que a inteligência não se resume aos grandes jornais, revistas e sites estabelecidos. Que venham os próximos 4 anos! ( Fernando Américo é mineiro, mas está morando em São Paulo ).

Rabisco surgiu na minha vida simplesmente pelo acaso. Do acaso de uma amizade que, por acaso, me incentivou a escrever alguma coisa para o site. Para minha grande surpresa o primeiro texto, sobre adaptações de HQs para o cinema, foi aceito e publicado.

Após esse primeiro instante de felicidade, achando que tinha aprendido a escrever, o Marcel Nadale me colocou no meu devido lugar rejeitando alguns textos e “destruindo” outros. Mas a persistência resistiu a todos os empecilhos e aqui estou eu depois de 2 anos, 28 textos e 38 edições participando do aniversario de 4 anos do Rabisco.

Um grande lar onde eu tenho aprendido muitas coisas, que não se aprende em qualquer lugar. E tendo a chance de poder escrever sobre aquilo que eu mais amo: cinema. Parabéns ao Rabisco e a todos que, direta ou indiretamente, tem contribuído para que essa fagulha de arte e cultura não desapareça nesse imenso mar virtual. ( Luiz Andreghetto é publicitário e mora Campinas )

ra meados de 2003 quando conheci aquele que seria um de meus melhores amigos. À época, ele vivia às voltas enrolado com a quantidade de textos que ele tinha para escrever, somando os trabalhos da faculdade de jornalismo e para um site que sempre mencionava, mas eu nunca guardava o nome. Naquele tempo, e nem faz tanto tempo assim, eu mantinha minha produção textual em alta, escrevia muito, mas não tinha onde publicar. Neste período, nós nos reunimos em torno de um projeto extracurricular na faculdade, que visava o aprimoramento do texto jornalístico, foi quando passamos a nos conhecer melhor e, por conseqüência, à Rabisco.

Lembro-me de ter tido o primeiro contato com a Rabisco, quando ele - hoje um dos mais ativos rabisqueiros, Rodrigo Herrero - me pediu para ler um texto que seria publicado na revista eletrônica. O texto, na época abaixo da qualidade alcançada atualmente, mas nem por isso ruim, já tinha os seus principais traços. Interessei-me em escrever para o site, que passei a gostar imediatamente, pela liberdade dada aos rabisqueiros tanto de tema, quanto de estilo textual. Parecia muito simples, mas eu não conseguia achar um assunto que eu considerasse bom o suficiente para a publicação na Rabisco.

Finalmente encontrei algo que dominava e que considerei razoável para a Rabisco. Meu primeiro texto publicado falava sobre o movimento punk, que até hoje recebo e-mails me perguntando se as informações contidas naquele artigo podem ser utilizadas em outros trabalhos ou publicações, pedidos que sempre atendo solicitando apenas que seja denominada a fonte como sendo a Rabisco. Desde então, tento manter “rotina” de textos para a Rabisco - algo que não tem sido muito fácil -, mas não por interesses financeiros, ou para receber e-mails elogiando meu trabalho, mas porque gosto do site, gosto das pessoas que realmente suam para que seja atualizado. Espero que a Rabisco tenha ainda muitos anos de vida. ( Thiago Vieira é jornalista e mora em São Paulo )

ESPAÇO DE CRIAÇÃO...

empre vi o Rabisco como um espaço incorruptível inserido em um meio onde tal característica, pasmem, é praticamente pré-requisito. Hoje em dia há, felizmente, ainda mais excelentes websites onde a prática da crítica cultural é regida por fundamentação e opinião pessoal, e não por favores. A proliferação dos blogs como instrumento de expressão independente de críticos e autores de prestígio (justificado, diga-se de passagem) já é fenômeno comprovado e seu usufruto consta daquilo que o Rabisco sempre se aproveitou – de aqueles que se interessam por uma cultura acessível analisada por gente que desconstrói, sugere, critica e estuda um objeto artístico por dois motivos básicos e extremamente ingênuos em sua concepção: prazer e insatisfação.

O quesito "prazer" é facilmente explanado na medida que nenhum integrante ou colaborador do website recebe qualquer quantia pelo que faz; no caso daqueles que suportam bravamente a empreitada, muito pelo contrário. O outro fator está diretamente relacionado com o pré-requisito mencionado acima. Pare um minuto e pense em quantas, por exemplo, críticas musicais isentas de qualquer tipo de pressão e/ou usurpação é possível ler na internet ou na mídia impressa? Tal reflexão deveria revelar uma escassez surpreendente.

Como jovem leitor assíduo do Rabisco, cresci com ele de uma maneira que não ocorre em nenhuma instituição de ensino. Um complemento perfeito para as leituras relacionadas a cultura não somente por oferecer textos que mostram na prática aquilo que a teoria tenta expressar, mas por fazer com que estudante faça a sua própria análise e cotejamento, ou seja, a análise da análise. Creio que meu afã em contribuir com algum texto para o website veio de modo natural, como um simples acarretamento da maturidade do repertório já constituído (ainda que, é claro, em permanente e constante expansão) e da vontade irrefutável de querer exibir a outras pessoas a sua opinião a respeito de algo que considera importante, de querer mostrar um lado da moeda que nem sempre é visto e, tão importante quanto, trajar tudo isso em uma aparência que abarque um público com a mesmíssima sede de aprendizado. (Guillermo Matias Gumucio é argentino, mas reside no Brasil)

abisco é um espaço livre, inteligente e diversificado. Espalhados por vários estados, os colaboradores enviam matérias, crônicas e críticas, criando, junto com a equipe do site, discussões tanto sobre temas polêmicos presentes na nossa sociedade, quanto sobre o cotidiano e as trivialidades do dia-a-dia. Tudo o que vemos no Rabisco é resultado dessa confortável posição em que nós, colaboradores, nos encontramos. Escrever sobre o que temos vontade nos permite ser espontâneos e autênticos, além de colorir as páginas do site com diferentes nuances. Não é à toa que encontramos textos únicos e um conteúdo que não costuma estar por aí. Eu mesma já me peguei interessada em assuntos abordados por essa galera e que antes não conhecia. O nome é auto-explicativo. Cada um vem aqui e rabisca um pouquinho, deixando para os leitores um trabalho cuidadoso e subjetivo. E não há maneira de ser mais universal. ( Natália Klein estuda jornalismo e mora no Rio de Janeiro)

A GENTE ESCREVE CERTO POR LINHAS TORTAS...

Rabisco existe há quatro anos. Acho que ninguém nunca esperou que fosse durar tanto. Talvez a Ana Lira que sempre teve o sonho de materializar o site numa redação de verdade, com todos trabalhando próximos, etc. Bem, isso ainda não aconteceu (e nem sei se um dia acontecerá), mas o site prossegue firme e forte, tentando superar a falta de patrocínio, de apoio. Contamos apenas com colaboradores fabulosos que possuem o mesmo carinho que tenho por esta revista e que, por isso, continuam se preocupando em mandar suas relíquias textuais para a gente botar na página e ficar feliz a cada nova atualização, sempre bacana de ser vista e lida.

Meu início no Rabisco foi um tanto conturbado. Eu cursava o segundo ano de Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) e, portanto, não tinha tanto contato com a escrita jornalística. Fazia meus textos sem pretensão, apenas treinando, procurando algum lugar para aceitar meus trabalhos. Aí o Rabisco apareceu na Internet e, quando eu soube, xinguei a Ana por não ter me avisado, já que eu queria e muito participar de um projeto assim: tinha tido antes o Caderno Zero com um amigo (com participação da Ana e o Xavier) que não durou muito por diversos motivos, até hacker surgiu para sabotar o site. Aí eu fui tentar a sorte no Rabisco. Como eu não sabia escrever muito bem, os textos iam e voltavam, recusados pelos editores. Eu ficava puto da vida, berrava, gritava. E a Ana sempre paciente comigo, pedia calma, me indicava o que corrigir e me dava força para tentar. E, ao mesmo tempo, pedia paciência ao Marcel, para que ele segurasse mais um pouco, pois eu tinha potencial, segundo ela me contou uma vez.

E assim foi. Aos poucos cavei meu espaço dentro do site e hoje eu sou colunista e um dos editores do Rabisco. Eu me formei jornalista, aprendi a escrever (rsrsrs será mesmo? rsrsrs) e trabalho na área desde antes de me formar, sempre buscando projetos e trabalhos que dêem prazer em fazer e que tenham utilidade, não apenas dinheiro na conta bancária. E, dois anos depois de formado, com quatro anos de casa, o lugar que me dá mais tesão em produzir conteúdo jornalístico hoje ainda é o Rabisco. Por mais dificuldades que passamos no site, ir atrás de uma pauta legal, cobrir um evento, entrevistar uma banda, ver um show, uma peça, pensar o que melhorar no site, escrever uma coluna, enfim, o principal motivo de eu trabalhar no Rabisco até hoje é o mesmo de quando eu entrei: escrever pelo prazer de fazê-lo, sem ter que cumprir obrigações limitadoras do jornalismo atual, ter liberdade para escrever sobre o que quiser e da forma que quiser, seguindo um padrão mínimo de construção jornalística, para também não virar um blog. Por isso, acredito sempre no projeto, mesmo nos momentos em que a desesperança chega e dá vontade de largar tudo e rumar pra casa. Nessas horas a missão do Rabisco sempre reacende dentro de mim. E qual é essa missão: fazer o site crescer cada vez mais e manter-se como um canal aberto a todos que queiram produzir e consumir cultura no Brasil. Espero que outras pessoas venham a somar esforços conosco para permanecer com essa chama bem acesa por bastante tempo. ( Rodrigo Herrero Lopes é jornalista, colunista, paulistano e São Paulino )

aniversário de quatro anos do Rabisco coincide com o aniversário de um ano que escrevo aqui. Para quem olha de longe, um ano ou quatro anos pode parecer pouco, mas a verdade é que não é. Isso porque para mim e todos os que estão envolvidos com o site cada edição é um aprendizado. Cada edição que fazemos é uma evolução. Cada texto que escrevemos, cada matéria que publicamos é parte do aprendizado de cada um e a vitória coletiva que move esse projeto tão importante chamado Rabisco.

O Rabisco não é apenas um site, é uma equipe. Diagramadores, colaboradores e editores que em comum têm a crença nesse projeto. E você, nosso leitor, já o prestigia há quatro anos. Quatro anos que podem parecer pouco para você, mas é muito para cada um de nós que mantém o Rabisco de pé. No entanto, esse tempo não nos intimida. Só nos abastece para que possamos seguir e comemorar o aniversário do Rabisco muito mais vezes. ( Ricardo Stabolito estuda jornalismo, é paulista e mora na Bahia )

u conheci a rabisco através da Ana Lira. Quando o Márcio (ex-webdesigner) saiu, ela me convidou pra participar da equipe e eu topei na hora. Foi um prazer trabalhar na Rabisco. Infelizmente meu ciclo se encerrou, mas nunca vou deixar de acompanhar, porque além de super interessante, as pessoas são fantásticas. Posso dizer que somos uma família. ( Alessandro Max Sachetti é webdesigner, webmaster e fotógrafo )

uando fui designado a escrever alguma coisa sobre os quatro anos do Rabisco, fiquei sem idéia do que dizer. Eu nunca sei o que dizer, e isso e um problema (desculpem a inconfidência desnecessária e inoportuna). Porém, herculeamente revolvendo meus alfarrábios, me deparei com uma caixinha cheia de recados dos leitores, e resolvi reler tudo. Acabei viajando no tempo: cada carta que eu relia, longe do estéril turbilhão da rua, me lembrava do trabalho e do tempo que eu gastava para escrever e corrigir cada texto. Recordava de estar perdido entre um parágrafo e o outro, à beira de um ataque de nervos, com o cursor da tela do computador piscando como me perguntasse, impaciente: “e aí, você tá muito devagar hoje! Escreva de uma vez, seu vagabundo vocacional!”, e eu soturnamente a pensar: “meu Deus, o que esse alegórico ser vem fazer por estas tristes paragens?”. Mas a gente sabe que a missão do repórter é maior do que esses esquálidos ossos do ofício. Às vezes eu escrevia alguma matéria sobre um assunto qualquer, e pensava: “quem vai ler isso?”, e publicava como um claudicante náufrago tentasse se comunicar com uma mensagem numa garrafa. A Internet é um oceano gigantesco, mas também é um Saara, cujo oásis é ser tocado pelas palavras de algum leitor (desculpem o gongorismo de algibeira e o exagero de estilo).

Leio aleatoriamente algumas cartas. Uns elogiavam matérias antigas, outros sugeriam pautas, muitos ajudaram a acrescentar alguma informação a respeito de alguma matéria publicada. Descobri até que tenho leitores fora do Brasil, e que tentavam se comunicar. Um paulistano pede para escrever sobre Odair José, um maranhense pedia que eu escrevesse sobre Johann Sebastian Bach. Um argentino me pediu para escrever sobre os Kinks, ainda estou te devendo essa, cara! Outra me pediu a letra de uma música de “Quarto de Pensão”, do Paulo de Paula. Mandei. Um jornalista espanhol queria que eu escrevesse sobre o “Maracanazo” da Copa de 1950. Outra leitora elogiou um conto meu, eu respondi que nem era para tanto (pobre desse humilde e subliterário escriba). Há uma matéria sobre o selo Elenco (esse foi o recordista de mensagens) que eu escrevi em lá em 2003, e que eu recebo mensagens pedindo mais informações a respeito até hoje. Até uma neta do Gentil Cardoso (“me dêem Ademir Menezes e eu lhes darei o campeonato!”) me agradeceu por ter citado o velho treinador carioca num texto meu que eu nem me lembro qual era (!). Uma leitora que amavelmente disse que outro texto meu lhe havia ajudado numa pesquisa. Outros me mandavam teses, questionários, todos devidamente lidos e respondidos (que eu me lembre!). Outra me perguntou: onde anda o Hermes Aquino, morreu? “está mais vivo do que eu”, respondi. Nesse imenso deserto internético, o inevitável afrodisíaco é o galardão por conta daqueles que nos lêem e, conseguintemente, nos dá o prazer de sermos lidos e devidamente prestigiados (desculpem o meu discurso empolado, puído e pernóstico).

Mas a mais interessante missiva eletrônica que recebi foi a de uma menina que, certa feita, rigorosamente pediu que a gente tirasse um texto do ar, porque ela queria copiar um texto meio sensabor desse escriba que vos fala sobre o iluminista Voltaire e entregar como trabalho dela para a sua professora da História. Mesmo entendendo (de certa maneira) como um elogio às avessas, quase que atendi ao apelo de minha doce, suplicante e desesperada amiga virtual. Mas, como diria a Regina Duarte, o que a gente não faz pelos leitores, não é mesmo, minha gente? ( Marcelo Xavier é jornalista, contista, colunista e mora em Porto Alegre )

uatro anos. Depois de acompanhar tantos projetos excelentes que ficaram pelo caminho por falta de colaboradores ou pela mudança de planos de vida de seus organizadores, eu diria que estar aqui soprando esta quarta velinha é uma felicidade imensa. Parece até que cada ano completado equivale a muitos outros. Na verdade, pode até ser isso mesmo. Se considerarmos que construímos 83 edições nos últimos quatro anos, em cada um deles colocamos cerca 20 vidas no ar. Sim, porque cada edição é um novo existir. Pelo menos é assim que nos sentimos quando trocamos todo o conteúdo a cada quinze dias.

Depois de contemplar tudo por alguns minutos, eis que a ficha cai e começa tudo outra vez: pautas, prazo de entrega, conversa com colaboradores, mensalidades a pagar, fotos, contatos com o webmaster, papo com os leitores, entre outras coisas que sempre aparecem durante a montagem de uma nova edição. Quer um cafezinho? Até parece que estamos em uma redação de verdade, com gente correndo para todos os lados, telefone tocando. Quem dera que fosse assim. Quem dera trabalhar todos os dias com estas pessoas maravilhosas que fazem parte da Revista Rabisco. Ô meu Deus, quem dera! Ainda não foi possível. Espero que um dia seja...

Por enquanto, a nossa rotina é virtual mesmo. Nunca vi o rosto da maioria dos nossos colaboradores. Eu os conheço pelo ritmo do texto, pela vírgula, pelo vocabulário, pela maneira de colocar um intertítulo no meio da composição, pela temática que abordam. Estas singularidades que marcam cada um no meio de tantos textos publicados diariamente na Internet.

Aqui passaram dezenas de colaboradores. Alguns retornam, como a Andreia Moroni, que apresenta um conto na coluna Espaço Aberto desta edição; outros somem nos confins do ciberespaço. De vez em quando eu costumo ler os perfis de cada um para lembrar quem esteve por aqui, e então bate uma saudade enorme de certos textos, de certos jeitos de escrever. Então, eu clico nas edições anteriores e passeio pelos trabalhos que aqui foram realizados. É uma sensação incrível.

Hoje pela manhã quando disse ao Nadale “estou montando a edição de quatro anos” e ele respondeu “que orgulho!”, eu senti o mesmo também. Não apenas por tudo o que fizemos, mas principalmente por poder contar com pessoas magníficas que continuam acreditando no projeto e nos ajudando a iniciar o nosso quinto ano de existência. Isso inclui os fundadores, editores, webmasters, colaboradores e os nossos queridos leitores . A quem agradecemos imensamente. E vamos em frente...escrevendo certo por linhas tortas, como todo bom Rabisco. ( Ana Lira é jornalista, mora em Recife e atualmente é editora do Rabisco )