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DE CARONA EM UM CLÁSSICO
Taxi Driver faz 30 anos sem perder a força original, mesclando beleza e brutalidade para contar a história de um cavaleiro solitário em busca de redenção

por Fernando Américo (feramerico@yahoo.com.br)

ocê está falando comigo? Está falando comigo?” Há 30 anos que esta indagação ecoa nas telas de cinema. Quem pergunta é Robert DeNiro, no auge de sua paranóia persecutória em Taxi Driver , filme que em 2006 completa 30 anos.

Hoje, com seu status de obra-prima, é fácil louvar Taxi Driver , seu astro DeNiro e seu diretor Martin Scorsese, que junto com o roteirista Paul Schrader criaram um retrato acurado da alienação urbana do homem moderno. Mas em 1976, a idéia de fazer um filme como Taxi Driver deveria soar como uma loucura para os estúdios.

A obra aborda a vida Travis Bickle, um soldado reformado do Vietnã transformado em motorista de táxi em Nova York, um homem atormentado pela sujeira que vê nas ruas. O que salta aos olhos na trama é que Travis é um anti-herói sem redenção possível. Foi preciso muita coragem de Scorsese para filmar o roteiro de Schrader do jeito que ele estava, sem alterações. Uma ousadia que teve seu preço – alguns juram que a má sorte de Scorsese nos Oscars tenha começado aí. Só para se ter uma idéia do que a indústria de Hollywood glorificava neste período, o filme ganhador do Oscar deste ano foi Rocky, um Lutador. Scorsese nem concorreu a melhor diretor.

O roteiro de Paul Schrader foi baseado em suas próprias experiências ao mudar para Los Angeles, quando não conhecia ninguém, dormia dentro do seu carro, falava sozinho, andava de botas de cowboy, era obcecado com armas e passava as tardes em cinemas pornô. Através do roteiro, Schrader exorcizou a violência que continha dentro de si por causa da educação hiper-religiosa – os pais de Schrader só permitiram que ele visse um filme aos 18 anos de idade.

Toda esta vivência possibilitou ao roteirista criar um personagem que dá novo sentido à expressão “Cavaleiro Solitário”. Em seu táxi, Travis vagueia pelas ruas de Nova York procurando um sentido para a sua existência – que ele pensa ter encontrado quando decide salvar a prostituta adolescente vivida por Jodie Foster, em seu primeiro papel de destaque no cinema, aos treze anos. Travis é um anjo vingador, um mensageiro do apocalipse que vem “limpar a rua das escórias que a preenchem”. Este aspecto chegou a legar ao filme uma fama de fascista. Mas uma observação mais atenta revela que Taxi Driver não assume o discurso do preconceito; o filme mostra exatamente como este discurso serve de anestesia moral para uma mente perturbada. As atitudes racistas de Travis Bickle são apenas mais uma tentativa desesperada de se agarrar a algo, antes que enlouqueça.

O processo de deterioração da mente de Travis é mostrado sem recursos a psicologia barata ou a clichês sentimentais. Através de situações simples, Scorsese constrói um crescendo de paranóia que vai envolvendo o espectador; longe de apenas acompanhar episódios esparsos, Taxi Driver nos envolve na espiral de loucura de Travis Bickle. O que Scorsese fez aqui, através do cinema, só encontra seu paralelo no melhor da literatura de Dostoyevski.

Por isso, trinta anos depois, Taxi Driver continua absolutamente atual, um retrato fiel da loucura e da alienação das grandes cidades. Junto com Caminhos Perigosos e Touro Indomável , forma uma espécie de “trilogia da santidade”, em que personagens atormentados por seu mundo interior são purificados através da violência. Mais do que fugir dessa violência, os personagens principais dos três filmes se entregam a ela, como que sabendo de antemão que precisam pagar pelos pecados, os seus e daqueles que os cercam. Só Scorsese – um garoto que pensou em ser padre e gângster, e acabou se tornando diretor de cinema – conseguiria equacionar brutalidade e beleza de maneira tão intensa.