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26 de setembro a 11 de outubro de 2006

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AMÉLIE POULAIN ENCONTRA FORREST GUMP
Café da Manhã em Plutão discute sexualidade e afeto em meio a temas como terrorismo e religião
por Luiz Andreghetto ( luiz_andreghetto@hotmail.com )

o nascer, Patrick é largado na porta de uma igreja, cujo padre da paróquia, não por acaso, é seu pai. Adotado por uma família quase insuportável, o protagonista é constantemente castigado por seus rompantes de rebeldia e por suas tendências homossexuais, principalmente quando, na adolescência, começa a vestir-se e agir como mulher. Se não bastasse ainda é expulso de casa em plenos anos 70, quando a Irlanda passava conturbados momentos com o IRA e o exército inglês, indo para Londres tentar encontrar a mãe biológica. Este é o enredo de Café da manhã em Plutão (Breakfast on Pluto, 2005).

O diretor Neil Jordan consegue impingir em sua fábula uma doce melancolia (já sentida na música de abertura do filme Sugar Baby Love, das Rubettes), que pode ser percebida nos 36 pequenos capítulos que compõem essa odisséia de procura pelo amor e pela felicidade. Misturando temas que, a principio, possam parecer polêmicos (Igreja Católica, terrorismo, travestismo), nas mãos de Neil Jordan tudo é mostrado por um víeis de despojamento e irreverência que fazem a diferença na atmosfera idílica e quase “cartunesca” em que vive o personagem principal.

Patrick, ou melhor, Patrícia “Kitten” Braden, como gosta de ser chamado, atravessa os conturbados anos 70, na Irlanda, alheio a tudo ao seu redor, onde a ingenuidade diante de certas situações acaba por colocá-lo em perigo real. O que ele(a) quer é apenas um pouco de afeto em um mundo que parece lhe negar o mínimo de felicidade a que tem direito, tudo isso sem levantar bandeiras panfletárias ou fazer uma ode à diversidade sexual.

Baseado no romance de Patrick McCabe (também autor do roteiro junto com Neil Jordan, que já havia adaptado outro livro do escritor no filme Nó na Garganta), a trajetória de Patrick peca justamente por não se aprofundar em questões políticas, religiosas ou até mesmo sexuais. Tudo é visto como uma pequena fábula, onde qualquer envolvimento mais complexo com algum desses assuntos possa tirar a leveza e a beleza quase infantil desta personagem.

Patrick é ingênuo demais quando se trata de um envolvimento com um simpatizante do IRA, quase morre nas mãos de um serial-killer, age naturalmente quando descobre que seu pai é o padre da paróquia local e vive como seu fosse assexuado, mesmo sendo travesti e entrando para um clube de prostituição.

Mesmo com esses pormenores que parecem não querer macular a “aura” de bondade de Patrick é, apesar das inúmeras excentricidades, impossível não se “apaixonar” por esse personagem (principalmente pela excelente interpretação de Cillian Murphy, sem estereótipos e cheia de sutilezas) e se deixar levar nessa jornada de sonhos e devaneios surrealistas, com direito de até dois passarinhos fofoqueiros que comentam algumas passagens do filme.

Como se fosse um Forrest Gump irlandês, Patrick usa sua bondade para transformar o mundo em que vive em um lugar mundo melhor, onde o cinismo, a ganância e a arrogância não deveriam fazer parte. Seu lado romântico e sentimental, cujas comparações estão mais próximas da apaixonada e atraente Amélie Poulain, Patrick guarda a eterna busca por um grande amor, aquele que "o leve para o hospital quando estiver caído".