Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

26 de setembro a 11 de outubro de 2006

Equipe Edições Anteriores

QUANDO LOLITA ERA JUNKIE
Em Bonequinha de Luxo Truman Capote dá vida a uma das personagens femininas mais instigantes da literatura desde Lolita
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

uase uma década antes de lançar o seminal A Sangue Frio e se tornar uma grande estrela das letras norte-americanas, Truman Capote já tinha marcado a ferro quente a sociedade americana ao criar um personagem que se tornaria o retrato de uma época. Holly Golightly, protagonista de Bonequinha de Luxo , livro lançado em 1958, encarna o sonho americano do começo da década de 1940.

Holly é uma jovem órfão saída do sul do país que pretende ganhar a vida em Nova Iorque. Mais do que um emprego e um bom casamento, a jovem deseja a ascensão social, cuja personificação desse sonho é a joalheria Tiffany's (daí o título original Breakfast at Tiffany's ). A novela é contada sob a ótica afetada de um aspirante a escritor vizinho da moça. Apaixonado pela beldade, que se dedica à prostituição nas horas vagas, o narrador vai esmiuçando a trajetória de Holly a partir do estilo de vida pouco usual da jovem e, sobretudo, sob o prisma de uma gama enorme de personagens tão escusos quanto excêntricos.

Capote vai, a cada página, revelando figuras que de certa forma completam a personalidade de Holly, ainda que cada um traga consigo traços extremamente singulares. Com um passado misterioso e uns laivos de francês, aprendido não se sabe onde, a menina vive cercada de gente que, assim como ela, tenta se manter por cima na emergente sociedade americana de então. Assim, pessoas como O. J. Berman, um figurão do cinema com trejeitos de mafioso que acolhe Holly em Hollywood, têm lugar garantido na trama de Capote. A galeria de tipos esquisitos ainda tem lugar para Mag Wildwood, uma modelo gaga; o milionário Rusty Trawler; Joe Bel, dono do boteco preferido da garota; e José Ybarra-Jaeger, um diplomata brasileiro que se apaixona por Holly.

É interessante notar como Capote constrói, em meio a tipos que trafegam à margem da sociedade, uma narrativa leve e sem sobressaltos. A personalidade muitas vezes sórdida dos personagens não contamina a escrita do autor, que mantém a mesma pegada ao longo de toda a história.

HOLLY

Donzela e atrevida, doce e agressiva, frágil e cruel, Holly é uma espécie de Lolita que jogou a inocência pela janela, pintou os cabelos e começou a beber. De personalidade dúbia, em algumas situações é apenas uma menina do interior que caiu de pára-quedas na cidade grande, em outras é uma mulher experiente e sem escrúpulos que persegue a fama e o dinheiro a qualquer custo. São essas características que fazem com que o narrador da história se aproxime de Holly. Solitário e inseguro com relação ao próprio talento para escrever, vê na garota cativante um porto seguro, ainda que tenha consciência de que é apenas o vizinho amigo que abre a porta de madrugada para a protagonista. Essa situação incomoda o narrador, que odeia e ama a menina com a mesma intensidade.

Em meio ao relato de festas e da rotina excêntrica de Holly, a história de Capote vai ganhando corpo. O passado misterioso da garota permeia toda a narrativa. Escorregadia, a cada hora conta uma história diferente acerca de sua infância. Só é desmascarada quando Doc, um agricultor texano e velho, revela que Holly, cujo nome verdadeiro é Lulamae, casou-se com ele aos 14 anos, quando foi pega, junto com o irmão, roubando galinhas. Desesperada com a presença do antigo companheiro, Holly trata de despachar logo o caipira.

Sem emprego fixo, a protagonista usa de todos os artifícios para ganhar a vida. Isso inclui fazer visitas semanais a um velho mafioso preso de nome Salvatore “Sally” Tomato. Contratada, segundo ela mesma, para fazer visitas a um velhinho solitário, é presa e acusada de passar informações cifradas enviadas por Tomato a um tal de O'Shaughnessy.

Estreando na literatura com apenas 24 anos, Capote foi ele mesmo uma espécie de Holly Golightly. Egocêntrico e persistente – haja vista o tempo que desprendeu para realizar sua obra-prima nos anos 60, o já citado A Sangue Frio –, o escritor perseguiu a fama e o estrelato com a mesma intensidade que sua protagonista. Talvez por esse motivo que, mesmo com atitudes às vezes incoerentes e díspares, Holly pareça sempre tão sincera. Encantadora e ambiciosa, a moça traz consigo a mesma vontade de aparecer e ser reconhecida que Capote em seu círculo intelectual. As semelhanças entre criador e criatura, ainda que irrelevantes do ponto de vista literário, pode ser o ponto de partida para tentar entender melhor como Capote deu vida a uma personagem que, apesar de toda banalidade e superficialidade, consegue fascinar o leitor.

Apenas três anos depois de publicada a novela, que na nova edição brasileira vem acompanhada de outros relatos breves – “Uma casa de flores” ( 1951), “Um violão de diamante” (1950), “Memória de Natal” (1956) – igualmente bons, o diretor Blake Edwards filmou a história com Audrey Hepburn no papel principal. Hepburn, com uma atuação impecável, ajudou a construir uma das personagens mais fascinantes da cultura popular americana.

Bonequinha de Luxo abriu muitas portas ao seu autor, que seria reconhecido como um escritor que trafegava por diversos gêneros literários – do conto ao teatro – com a mesma competência. Holly Golightly é só uma parte dessa história, há muito mais.