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26 de setembro a 11 de outubro de 2006

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FÊNIX METALLICA
Há 20 anos morria o lendário baixista Cliff Burton, do Metallica, e a banda tomaria um caminho nunca antes imaginado
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

epois do Metallica perder o baixista Cliff Burton, seu mais louco integrante, morto em um acidente com o ônibus da banda na Suécia, durante a turnê de “Master Of Puppets” em 1986, os outros três componentes da banda de metal de maior sucesso à época James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammett perderam rumo de si próprios e também o da banda. Passados três discos de sucesso e milhares de dólares na conta bancária, eles se viam numa situação de revés muito grande, sem saber qual caminho seguir.


Demorou um tempo e muitas cervejas até que se recuperassem do golpe sofrido nessa morte trágica, e também, um tempo para encontrar um baixista que chegasse perto do lendário Burton. Assim, apareceu Jason Newsted, que muitos acreditam ser um integrante original do Metallica, o que não é verdade. Reza a lenda que Jason entrou para a banda depois de um teste bastante peculiar: ele teria que beber e beber e beber até não mais poder, caso fosse aprovado pelos integrantes, ele faria parte do grupo. Foi o que aconteceu.

Depois desse inusitado “teste”, o Metallica gravou o EP Garage Day Re-Revisited , lançado em 1987 e que possui cinco covers de bandas heavy , como o Holocaust, Misfits e Diamond Head. Esse, na verdade, foi o teste final para Jason e para a própria banda. A partir disso, eles poderiam seguir em frente sem traumas e fazer “o álbum metal redentor”. E em janeiro de 1988, os integrantes entraram no estúdio para começar as gravações de ...And Justice For All .
Lançado no mesmo ano, esse trabalho traz a palavra heavy em todos os aspectos, desde as variações de guitarra, as pedradas de bateria, as apenas nove, mas quilométricas músicas do disco – em um total de 1 hora e 5 minutos -, repletas de mudanças de ritmos e velocidades, além da alma escura e perdida das letras do Metallica. Foi um álbum que reafirmou para os próprios integrantes que eles não haviam perdido ao mão.


Muitos podem se lembrar apenas da música “One”, que tocou nas rádios e fez a cabeça da molecada da época, principalmente pela estréia do Metallica no mainstream, ao produzir um clipe de uma versão reduzida (mutilada, na verdade) da canção para ser executada na MTV, em franca ascensão naquele fim da década de 1980.

No entanto, julgar ...And Justice for All apenas por essa faixa seria uma injustiça muito grande. “Blackened”, por exemplo, é de um discurso que nos chama para a morte da mãe Terra, o escurecimento total causado por quem aqui vive. Não se pode deixar de prestar atenção à faixa-título. “...And Justice For All” é de uma viagem absolutamente insana. São quase dez minutos de barulheira total, só que, com um importante quesito que prende os ouvidos dos fãs: as variações.

A música tem uma diversidade mudanças, envolvendo o estilo, o ritmo, as viradas, os solos e tudo que mais puder na faixa, deixando o ouvinte em deliciosa hipnose durante toda a duração da música. Quando parece que ela vai acabar, a velocidade e o peso das guitarras aumentam, o vigor da bateria e do baixo retornam e a voz raivosa de Hetfield embala o petardo. O título da música é irônico, pois na verdade, a letra fala da justiça comprada, violentada, destruída pelo dinheiro que manda no mundo, ou seja, uma letra bem atual para nossos dias.


A comercial “One” tem uma letra que deixa quem lê emocionado, triste, revoltado, num misto de ódio e pavor que apenas a massa de guitarras no meio da música liberta da dura realidade de quem ouve. “One” é daquelas que faz a pessoa querer quebrar tudo em casa, mas, ao mesmo tempo, chorar compulsivamente e querer que tudo isso não passe apenas de uma letra de música, sabendo, entretanto, que a morte, e no caso, a morte numa guerra, é tão real quanto o que aquelas palavras dizem.


Seguindo pelas outras faixas deste disco nota-se, além do magnífico instrumental, já citado, a impressionante temática do disco, um misto de desalento e raiva. São as contradições revelando o mal que ocupa a mente das pessoas, a sujeira de nossa Terra, a desconfiança, as trevas e a liberdade que, segundo a visão mostrada pelo disco, não existe. Em um clima pesado e muito veloz, uma verdadeira paulada heavy metal, característica do Metallica, “Dyers Eve” serve pra fechar bem o disco, com um discurso de revolta contra os pais por colocarem as crianças em um mundo no qual elas não podem suportar, distribuindo ódio por todos os lados.


Apesar dos trabalhos anteriores, não alcançados por este, na visão dos fãs, ...And Justice for All é um verdadeiro clássico, de peso incrível e poucas vezes visto antes no mundo do metal. A diferença é ser um dos trabalhos mais sofisticados do Metallica, que teve um retorno tão grande que a excursão do disco durou dois anos, passando inclusive pelo Brasil, em 1989. Vale a pena ter em casa para refletir com um pouco da lucidez das letras do álbum, que falam de coisas que ninguém mais quer saber, além de se desprender das amarras do rock de rádio atual. Esse trabalho tem de um peso tão intenso, que nem mesmo o próprio Metallica chegou um dia perto de fazer novamente algo semelhante.