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13 a 28 de outubro de 2006

Equipe Edições Anteriores

ANTROPOLOGIA URBANA
Trabalho de mestrado discute o impacto das canções da banda de Renato Russo entre os jovens
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

sonho de todo artista é ter sua obra perpetuada por longos tempos, ficando, se possível, marcada na história da humanidade. Se a Legião Urbana não alcançará algo desse quilate, pelo menos garantiu seu lugar no panteão do rock nacional, com vendagem e sucesso garantidos até hoje, 10 anos após a morte de Renato Russo e o conseqüente fim da banda. Mas como saber se esse trabalho produzido durante 13 anos de carreira é visto mais do que simples música, e sim, como uma espécie de guia para muitos jovens nos dias de hoje? Os próprios integrantes do grupo diziam em entrevistas, que queriam montar uma banda e serem felizes com ela.

Só que, como todos sabem, a Legião Urbana não ficou apenas nisso. Muitas pessoas encaram suas letras como verdadeira filosofia de vida, orientação de como pode ser uma pessoa verdadeira no meio de tanta mentira. E na tentativa de entender como os jovens fãs encaram a obra da banda é que o antropólogo André Luis Campanha Demarchi, 25, realizou uma dissertação de mestrado para o Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A tese, defendida em julho deste ano, tem o título Legionários do Rock: um estudo sobre quem pensa, ouve e vive a música da banda Legião Urbana e analisa o impacto das canções da Legião Urbana na juventude. As análises foram feitas por meio de mais de 80 entrevistas com fãs diversos, formando, inclusive, uma espécie de perfil do fã da Legião.

Aliás, um perfil de público bastante crítico, entendendo a importância das letras da banda no sentido de colocar os “ensinamentos” no seu dia-a-dia. Sim. Renato Russo é visto como um guru para seus fãs. Pelo menos é o que chegou a conclusão do trabalho de Demarchi, indicando que a obra e seu criador tem ajudado a esclarecer assuntos que a família e a escola – que seriam, em tese, as responsáveis pela educação das crianças e jovens – fogem e tratam como tabu, a exemplo de morte, drogas, relações amorosas, sexo, sociedade. Talvez o cantor e compositor não estivesse satisfeito, hoje, em ser visto como um guru, mas, pelo menos, os fãs entenderam a mensagem e seguem sua música e não seus atos, o que poderia trazer um certo alívio ao eterno líder da Legião Urbana.

Depois de concluído esse trabalho, Demarchi aguarda o posicionamento de alguma editora na tentativa de publicá-lo para lançar mais um pouco de luz ao entendimento desse fenômeno provocado por um simples conjunto de rock. Por enquanto, ele apresentará um artigo sobre o tema no fim deste mês, durante o Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). E em entrevista por e-mail ao Rabisco, ele antecipa a abordagem no seminário, traçando o perfil do fã da banda a partir do que recolheu em seu estudo, além de falar das razões que o levaram a executar esse trabalho e como a obra legionária influencia a juventude de hoje.

- Como surgiu a idéia de tratar do fenômeno que cerca a Legião Urbana sob a ótica dos fãs?

André Demarchi - Eu tinha interesse em estudar questões que envolviam a juventude brasileira. Daí um amigo que trabalhava comigo na época, chamou minha atenção para as letras da Legião Urbana e para a forma múltipla como abordava diversos temas sobre a juventude. Eu reuni meus discos e comecei a ouvir todo dia e comecei a analisar as letras para ver se o trabalho era possível de se concretizar. Depois de ouvir muita Legião cheguei a conclusão de que era possível, porque, se você olha as letras como uma dimensão à parte, você percebe que elas tematizam, de maneira plural, diversas situações e personagens, que vão de encontro também com a multiplicidade social, econômica e simbólica da juventude no Brasil. Meu objetivo inicial era trabalhar somente com as letras. Depois fui percebendo a quantidade de pessoas que ainda hoje, quase dez anos após o término da banda, continuam ou estão começando a ouvir a Legião. Daí resolvi entrevistar as pessoas. 

- Você fala no começo do texto que a maioria das análises trata mais da obra e da própria banda e que seria necessário analisar tudo isso sobre a perspectiva dos fãs. Na sua opinião, a que se deve essa priorização? Mais: por quê você escolheu o "outro caminho"?

André Demarchi - A antropologia está sempre querendo perceber o ponto de vista dos outros. Depois de ler as análises eu percebi que as abordagens sobre o ponto de vista dos fãs eram sempre superficiais e muitas vezes estereotipadas e como a pesquisa era sobre juventude, pensei em relacionar duas dimensões. De um lado as letras que tematizam diversas questões e temáticas juvenis e, de outro, os próprios jovens que estão em contato com as canções. Isso foi muito importante na pesquisa porque consegui dimensionar o importante papel da música e dos ídolos na vida dos jovens. Uma das conclusões do trabalho é que a música e o ídolo ensinam mais aos jovens do que a família e a escola.

- Para você, a que se deve o fato de, 10 anos após a morte de Renato Russo e o conseqüente fim da banda, ela continuar a atrair tanta gente e, ainda por cima, mais e mais jovens e, até mesmo, crianças?

André Demarchi - Olha, penso que por tratar de temáticas juvenis (drogas, conflitos familiares, relações amorosas, conflitos geracionais, rebeldia) de uma maneira aberta e sem preconceitos, as canções da Legião se colocam para os jovens como formas de aprendizado em relação à vida. Essas questões tratadas nas letras não são discutidas nem na escola, nem no âmbito da família. Então, quando o jovem ouve algo como: "Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo/ Prefiro acreditar no mundo do meu jeito", ele se identifica porque ninguém mais diz isso para ele. Mas o Renato Russo, o ídolo diz. E aí o ídolo passa a ocupar o lugar que antes era da escola e da família, ou seja o lugar de quem transmite experiência e conhecimento. Para mim – salvo as importantes preocupações literárias do Renato Russo na confecção das letras (escrever na primeira pessoa, não se referir a marcos geográficos, inserir várias vozes na mesma letra) que sem dúvida são importantes para a permanência da obra – o fato mais marcante que caracteriza essa permanência da obra e essa contínua identificação de pessoas cada vez mais jovens é a possibilidade que elas têm de aprender temas, conceitos, situações e experiências que não são mais (se é que algum dia foram) discutidos em outros lugares como a escola e por outras pessoas como a família. 

- Você acha que a mensagem do Renato conseguiu modificar a cabeça dos jovens, no sentido de abrir um novo horizonte de percepção perante si mesmo e ao mundo em que ele vive? Essa transformação pode ser sentida de forma concreta pelos fãs?

André Demarchi - Com certeza. Na pesquisa, muitos jovens entrevistados dizem que definem sua vida como antes e depois da Legião. Muitos também se referiram a uma certa consciência política adquirida através da audição das canções. Além disso, falaram da busca por novos conhecimentos a partir daqueles citados por Renato Russo nas letras. Outra coisa que as canções suscitam é um modo auto-conhecimento através da reflexão a respeito das temáticas presentes nas canções.

- Essa condição positiva do ídolo, de alguém central na vida desses fãs, como você cita no texto, não pode levar para um outro lado, nada agradável, tendo em vista canções com temáticas pesadas, que falam sobre morte, desesperança, como “Clarisse”, “La Maison Dieu”, “Natália”, etc.? Não é preciso ter um limite?

André Demarchi - Claro, limites são sempre necessários, principalmente nessa nossa sociedade do consumo. No entanto, a não ser em casos extremos, não vejo, ou pelo menos não percebi nas entrevistas que fiz, jovens que entendessem negativamente essas questões que você chamou de "pesadas". Aliás, essas "temáticas pesadas", quando são bem colocadas, são de grande importância para os jovens, porque novamente não existem espaços para se discutir esses temas. Se o jovem pergunta para mãe o que é o suicídio, a mãe já acha logo que ele quer se matar. Se o jovem pergunta algo sobre drogas, a família o entende como viciado, ou pelo menos suspeita. Esses temas são obscurecidos tanto pela família quanto pela escola, o que realmente piora a situação. Então, o jovem tem que aprender por sua própria conta e aí se ele ouve a música pode entender como alguém se sente, como é a angústia de alguém que pensa em se matar. Mas daí a ele se matar só porque a música fala de suicídio eu acho exagero.

- As pessoas não confundem demais o que o Renato escrevia com o que ele era, como se fossem uma coisa só? Para você, há diferença entre o Renato Manfredini Jr. e o Renato Russo? Essa "confusão" não explica essa intimidade, esse conhecimento que as pessoas afirmam ter do ex-vocalista da banda?

André Demarchi - Essa confusão ocorre por que as mensagens das letras tocam profundamente as pessoas. Então, elas acham que o Renato Russo é o mesmo cara que toma banho, vai no supermercado, acorda de mau humor, etc. Ou seja, as pessoas confundem a imagem pública do ídolo, aquela veiculada na televisão, nas rádios, nas revistas, com o seu ser psicológico, ou seja, aquele que vive uma vida normal como todos nós. É claro que a imagem pública e o ser psicológico se manifestam sobre um mesmo corpo (o que causa ainda mais confusão), mas são elementos discerníveis. A intimidade surge no momento em que o fã se sente entendido pelo ídolo e aí quer retribuir de alguma maneira. Mas o fã quer falar sempre com Renato Russo e não com Renato Manfredini. Em uma entrevista um legionário me disse que uma vez foi até a casa do Renato Russo. Tocou o interfone, ele atendeu, apareceu na janela, mas não quis descer. Disse que tinha problemas para resolver e tal, ou seja, agiu como uma pessoa normal. Então o jovem ficou indignado, como se o Renato Manfredini fosse obrigado a atender uma pessoa que ele nunca viu na vida.

- Você cita que o legionário é visto como independente em relação à obra e ao autor. Você acredita que essa autonomia é real ou não passa de uma tentativa de buscar exatamente o que o Renato falava que as pessoas não deveriam se prender em ídolos, acabando, com isso, por seguirem o que o Renato dizia? Mais, você acredita que haja esse distanciamento analítico entre obra-autor e fã?

André Demarchi – Olha, os legionários que eu entrevistei diziam praticamente a mesma coisa. É preciso refletir sobre a obra, pensar nas questões que ela aponta, ir além dela, buscar novos conhecimentos a partir das referências presentes na obra. Então eu acho que se o Renato Russo disse isso (de que as pessoas não deveriam ficar presas em ídolos), isso de fato aconteceu. Uma coisa é você admirar um artista e se identificar com sua obra, outra coisa é o fanatismo, "a cegueira", como dizem os legionários. Pensar a obra do ponto de vista dos fãs foi importante também para questionar os estereótipos presentes na mídia de que o legionário é um fanático, cego e quase louco. Os dados recolhidos diziam justamente o contrário. Os legionários valorizam o pensamento crítico e a autonomia em relação à obra e a banda.    
Em relação ao distanciamento analítico ele deve existir porque senão você coloca tudo no mesmo saco. É preciso discernir as três dimensões do fenômeno. É preciso abordá-las de maneiras distintas, mas sempre mantendo uma continuidade. No caso do meu trabalho essa continuidade era colocada pela noção de juventude, já que tanto os autores eram jovens, faziam músicas para jovens e os fãs em sua maioria também eram jovens.

- Dos entrevistados da sua pesquisa, tem uma característica comum a todos que você poderia destacar, quando eles falam da relação deles com a as canções da banda?

André Demarchi - A maioria deles diz que as canções são importantes fontes de conhecimento sobre a vida e sobre temas que não são discutidos em outros espaços.  

- Para você, o que é ser legionário?

André Demarchi - Seguindo o que aprendi nas entrevistas, posso dizer que ser legionário é aprender com as canções, divulgar o conhecimento nelas presentes, e ir além, em busca de novos conhecimentos. Um legionário disse uma frase muito importante sobre isso: "Ouvir só Legião seria uma corrupção das próprias idéias da banda, porque o próprio Renato Russo queria descobrir e abrir a consciência para outros conhecimentos". Ser legionário é isto. Considerar a obra, mas ir além.

- Você é fã da banda? Há quanto tempo ouve Legião?

André Demarchi - Como grande parte dos jovens brasileiros, eu também ouço e gosto de rock nacional. Mas até o momento da pesquisa, eu ouvia Legião com os ouvidos de fã. Depois, como dizem os sociólogos, é preciso colocar os óculos e afinar os ouvidos, para ver e ouvir de outra maneira, buscando entender as dimensões diferentes da obra. Mas posso dizer que a Legião teve um certo peso na minha formação, principalmente, o disco Que País é Este?, que me influenciou no modo como me posiciono politicamente, ainda hoje.

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