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13 a 28 de outubro de 2006

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A BRUXA DA MODA
Anne Hathaway come o pão que a Meryl Streep amassou em O Diabo Veste Prada
por Fábio Freire (fabio_fcosta@hotmail.com)

ara Miranda Priestly, dinheiro, sucesso e fama não são nada quando embalados sem charme e elegância. Diretora de uma das revistas de moda mais importantes do mundo, ela dita o quê e quem está na moda com um simples acenar de mãos ou mordida nos lábios. Altiva, impiedosa e cruel, Miranda aponta novas tendências e destrói ou alavanca carreiras com a naturalidade de um juiz que manda um condenado ao corredor da morte. Já Andy é uma modesta jornalista iniciante recém chegada à Nova York. Desajeitada, sem a menor noção estética ou talento para a moda, a moça acha que trabalhar para Miranda pode contribuir com sua carreira e abrir novas portas na sua área. Tolinha.

A trama da comédia O Diabo Veste Prada é bobinha assim mesmo. Baseado no best-seller homônimo de Lauren Weisberger - inspirado em acontecimentos que a própria autora viveu quando era assistente da revista Vogue -, a graça do filme não está no roteiro formulaico e sem grandes arroubos de criatividade, ainda que inteligente e divertido. Andy quer apenas um emprego como jornalista. Sem saber muito como, consegue a vaga de segunda assistente de Miranda Priestly, diretora que comanda a revista RunWay com mãos de ferro, mas sem borrar o esmalte.

Não é preciso ser nenhum gênio para saber que Miranda vai desprezar e humilhar Andy. Já Andy vai se esforçar para provar que tem valor e é mais do que uma garota desengonçada, “gordinha” e que não sabe se vestir. Não demora mais que uma seqüência ao som de “Vogue”, de Madonna (claro!), e Andy parte para o lado negro da força ao trocar o moletom azul, o namorado cozinheiro e o sonho de escrever por uma bolsa Calvin Klein, um par de sapatos Manolo, um vestido John Galliano e alguns acessórios Chanel. O prêmio: uma viagem para a semana de moda de Paris, a “confiança” da chefe e o lugar de primeira assistente de Priestly.  

Um dos méritos de O Diabo Veste Prada é que o filme não tem a menor intenção de ser uma crítica ácida à superficialidade, ao jogo de egos e influências do mundo da moda (coisa que Prêt-à-porter, de Robert Altman, já fez sem muito sucesso). Ainda que sentimentos como inveja, cobiça e vaidade façam parte do pacote, a produção adota um tom levemente irônico e funciona apenas como entretenimento dos bons. Os diálogos são inspirados e bem escritos, a edição flui e o longa nunca perde o ritmo.

O filme se beneficia, também, da direção de David Frankel. Deconhecido do grande público, Frankel dirigiu vários episódios da série Sex and The City e traz toda sua experiência com sapatos altos, vestidos de grife e atrizes fabulosas para O Diabo Veste Prada. Meryl Streep faz de Miranda Priestly um exemplo, ao mesmo tempo, de elegância e grosseria (se indicá-la ao Oscar já não fosse tão banal, ela teria grandes chances no próximo ano). Mas a maior surpresa é mesmo a bela Anne Hathaway, atriz adolescente (O Diário de Uma Princesa) que demonstra, aqui, maturidade e desenvoltura no papel.

O Diabo Veste Prada desliza apenas no final, quando a ironia é trocada pela lição de moral e a redenção de Andy tira um pouco do charme do filme. Mesmo o roteiro seguindo a cartilha Uma Secretária do Futuro de ser, fica a sensação de que a produção podia ter fugido à regra do final moralista do cinemão americano e admitido que seguir um sonho de carreira ideal nem sempre é uma questão de escolha e, sim, de necessidade, principalmente em uma cidade competitiva como Nova York. Ainda assim, com o perdão do trocadilho, O Diabo Veste Prada é um desfile de saltos, bolsas, vestidos de grife, elegância, sofisticação. E talento.