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13 a 28 de outubro de 2006

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EXISTE CULPADO?
Heróis Imaginários estende o leque de filmes estrangeiros que debatem o suicídio
por Luiz Andreghetto (luiz_andregheto@hotmail.com)

omo uma família sobrevive à perda de um ente querido, principalmente se ele é o filho “orgulho da casa” e sua morte traz a tona diversos segredos e põe a prova as relações superficiais de todos os envolvidos? Mesmo não sendo uma pergunta de fácil resposta, o filme Heróis Imaginários (Imaginary Heroes, 2004) tenta problematizar de maneira eloqüente as relações familiares e o quão frágeis elas podem ser.

  Sandy (Sigourney Weaver) e Ben (Jeff Daniels) encontram caminhos diversos e atípicos para enfrentar o suicídio do filho mais velho, o “astro” da família que estava se preparando para as eliminatórias das próximas Olimpíadas: ela torna-se usuária de maconha e agride todas as pessoas com um sarcasmo exasperante e ele, simplesmente, se aliena do mundo tratando tudo e todos como se fossem estranhos.

Em meio a todos esses conflitos e aparente desestruturação familiar, Tim (Emile Hirsch), o caçula da casa, caminha em um espiral de descobertas e sensações que nunca havia experimentado antes. Tim guarda secretos sobre Matt, o irmão morto, da mesma maneira que seus pais também o “protege” de um passado que teima em bater na porta de casa. O garoto se sente um estranho em uma família que não o compreende e vive como se sua vida fosse um terrível pesadelo.

Com muita sensibilidade, o diretor Dan Harris (também autor do roteiro), coloca esses personagens frente a frente, para que a falta de comunicação tenha que ceder espaço para um novo entendimento e quem sabe até a uma nova união familiar, onde os “pedaços quebrados” devem ser juntados para um novo início.

Famílias disfuncionais de aparente tranqüilidade com seus segredos mais sórdidos vindo à tona são temas recorrentes do cinema americano, onde o exemplo mais óbvio seria Beleza Americana. Mas Heróis Imaginários está muito mais próximo de um filme feito nos anos 80 e que também trata da morte do irmão mais velho, em um núcleo familiar: Gente como a Gente (Ordinary People, 1980).
           
Dirigido por Robert Redford e vencedor de vários Oscar (melhor filme, diretor, ator coadjuvante e roteiro adaptado), Gente como a Gente fala do complicado processo individual e coletivo para cicatrizar as dores da perda de alguém que era o “ídolo” da família. O irmão mais novo sente-se culpado por ter sobrevivido, enquanto a mãe deixa isso bem claro através de atitudes frias e cínicas e o pai se isola de tudo. Os frágeis vínculos familiares são desfeitos e a afetividade perdida, mesmo que superficial, nunca mais é encontrada. Sobra para Conrad, o filho, trilhar o caminho da terapia para curar as mazelas e a dor.

Vinte e quatro anos separam um filme do outro, mas mesmo com a diferença de épocas, poucas coisas mudaram. As famílias continuam a ter seus segredos e muitos dos problemas que advêm da falta de comunicação esbarram em sentimentos ocultos e verdades não ditas. A morte, seja ela suicídio, natural ou acidental, mexe com o âmbito familiar, virando de cabeça para baixo as inter-relações presentes nesse ambiente de conforto e segurança.

Em Gente como a gente as culpas e as mágoas são servidas na mesa do jantar como se fizessem parte da mobília da casa. Em Heróis Imaginários a falta de entendimento e respostas para o aparente absurdo da situação (porque um garoto tão jovem e promissor põe fim a sua própria vida?) entra em choque com a tênue fragilidade da família.

“Você nunca poderá saber o que estava se passando na mente de alguém naquele exato momento. Se eles sobrevivem, nunca te dizem. Se tiverem êxito, tudo o que pode fazer é passar o resto de sua vida culpado, porque poderia ter sido algo que tivesse a ver com você. A única preocupação deveria ser em relação àqueles deixados para trás. São deles que deveriam cuidar”.

Se a frase acima reflete bem a situação dos que ficam em Heróis Imaginários, ela é dita em outro filme que também trata do suicídio juvenil, À Beira da Loucura (On the Edge, 2001), onde os que sobrevivem são levados a um instituto de psiquiatra para que se “curem”, enquanto em Heróis e Gente a “cura” talvez esteja no próprio âmbito familiar que se torna tão nocivo a todos. Um assunto sério que, mesmo não existindo uma resposta pronta ou adequada, é tratado de forma reflexiva nesses filmes que se propõe a abordá-lo da maneira mais humana possível, conseguindo assim trazer histórias sensíveis e honestas.