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13 a 28 de outubro de 2006

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MEZZO A MEZZO
Um Beijo de Colombina desafia o leitor a buscar além dos clichês narrativos
por Marillia Raeder Auar Oliveira (raederauar@uol.com.br)

m beijo de colombina, da carioca Adriana Lisboa, pretende seduzir o leitor já a partir das primeiras páginas. E de fato o faz. Apesar de certo desconforto com alguns clichês literários já esgotados e por demais ultrapassados, a proposta do livro, apesar de não original de todo, não deixa de ser interessante: a personagem principal é uma escritora – jovem e bonita – e, embora estando no início de sua (promissora) carreira, já recebeu dois prêmios literários importantes. Seu novo projeto literário, um romance baseado em poemas de Manuel Bandeira.

Entramos então naquele labiríntico jogo: romance dentro de romance dentro de romance... O que lemos, da Adriana Lisboa, que se faz imediatamente naquele do narrador professor de latim (até então não sabemos seu nome) e por fim, o da própria Teresa, escritora personagem principal. No fim das contas, trata-se de um só livro, que se pretende vários, ou melhor, que se configura como reescritura e como apropriação. Como multiplicidade de leituras, portanto.
Nesse jogo que se pretende enganoso, que se quer uma armadilha sem chegar ao êxito, somos levados por um Rio de Janeiro sedutor e convidativo; andamos é por um Rio classe-média, com cerveja, bossa-nova, Lapa, samba, Vila Isabel. Aqui, nada de Leblon. Em vez de Búzios ou Angra, Mangaratiba. Cenário antiburguês ao estilo dos artistas e pseudo-artistas cariocas freqüentadores da zona boêmia.

Mesmo não se tratando de uma história para lá de interessante, o livro é bem intencionado. A escritora Teresa, no auge de sua carreira, afoga-se no mar de Mangaratiba. Como seu corpo não é encontrado, não fica difícil imaginar que na verdade ninguém se afogou – nem foi afogado. Tampouco demora para que o leitor perceba que o que está lendo é o livro que o professor de latim escreveu – está escrevendo –, e que esse livro é nada mais nada menos que o romance projeto-futuro de Teresa antes do suposto afogamento, aquele baseado em poemas de Manuel Bandeira, que volta e meia dão o ar da graça durante a narrativa. Consequentemente, não precisa ser gênio para sacar que o livro é mesmo o de Teresa, e que o professor de latim – agora podemos dizer que se chama João – é na verdade o narrador.

Mas como disse, é um romance bem-intencionado. Os poemas de Manuel Bandeira, cada vez que aparecem, deixam no ar um gosto de quero-mais, um cheirinho de saudade, de lembrança, de rememoração. Os passeios cariocas e as inevitáveis paradas nos bares da Lapa dão uma pontinha de inveja, sobretudo em quem está em casa, afundado em uma poltrona, tomando um chá, em um dia de frio rigoroso.

O livro, contudo, é leve, bem orientado pela autora, e as histórias que vêm à tona pouco a pouco no romance não se confundem e não confundem o leitor. Adriana escreve com clareza e firmeza poética, conduzindo os enredos entrelaçados muito bem. Seu texto é límpido, de sintaxe correta e estilo próprio. Cabe, pois, relevar o enredo que se afigura modesto e certas expressões forçadas de tom romântico. Concentremo-nos na bem-intencionada proposta da autora e na fotografia da cidade, através de seu texto bem guiado. Afinal, a literatura contemporânea não se faz tão-somente de obras-primas, muito menos de documentos originalíssimos. Assim como sua personagem Teresa, Adriana Lisboa se firma como uma das mais promissoras autoras da nossa literatura. E é jovem e bela.