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13 a 28 de outubro de 2006

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TEM MAIS SAMBA
Quatro décadas depois, os primeiros passos de Chico Buarque de Hollanda em disco ressurgem em um CD
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

á quarenta anos, Chico Buarque estreava como compositor pela extinta gravadora RGE, após lograr estrondoso êxito com “A Banda”, no Festival da Canção de 1966, quando Nara Leão defendeu a música. Antes, porém, ele já havia apresentado “Sonho de um Carnaval” (defendida por Geraldo Vandré e divulgada por Alaíde Costa) no certame do ano anterior. Junto com “Pedro Pedreiro”, sob a batuta de Manuel Barenbein, o cantor iria completar a série de compactos em um álbum de doze músicas. Nada mal para um iniciante: além das já citadas, o début do músico carioca em vinil contava ainda com pérolas como “Amanhã Ninguém Sabe”, “A Rita”, “Você Não Ouviu”, “Tem Mais Samba, “Olê, Olá” e “Meu Refrão”, entre outras.

No rastro do sucesso, Chico assinaria ainda mais dois trabalhos pela gravadora — denominados por volumes dois e três. Lançados em formato digital em 1993, porém, a RGE apostou em um formato “caça-níquel” e simplório, colocando uma capa genérica nos três CD, com uma foto recente do músico, sob o curioso título “Não Vai Passar” e ainda inexplicavelmente sonegando algumas faixas, como “Funeral de um Lavrador”. Reunidas em uma caixa pela Som Livre (que hoje detém o acervo da finada gravadora), os primeiros passos de Chico em disco ressurgem com as capas originais, algo raro em tempos politicamente incorretos em matéria de mercado fonográfico, como os de hoje.

Unanimidade

Os primeiros discos dão o mote para o que foi a conturbada trajetória de Chico Buarque naqueles anos políticos que foram os 60, desde quando o compositor foi guindado à estrela de primeira grandeza da MPB como uma espécie de menino-prodígio do samba, que surgiu para recuperar os velhos clichês da Velha Guarda na imagem de um rapaz boa-praça pálido e nostálgico como um Werther. A despeito de todos os rótulos, a verdade é que Chico surgiu na cena musical em um momento em que a Bossa Nova não tinha mais nada a dizer e o rock tomara de assalto as paradas de sucesso. Dentro da estética disseminada por João Gilberto, o jovem compositor aliou à tradição bossanovista tudo aquilo que ela tentava contrapor: a música de Noel Rosa. E o que poderia soar anacrônico ganhou uma nova dimensão: o que parecia passadista e demodê não tinha nada de velho, mas brilhava em beleza e comunicabilidade.

Logo surgiriam explicações para entender aquele rapaz de 23 anos que, da noite para o dia, virou capa de revista e Cidadão Paulistano. Millôr Fernandes dizia: “é a única unanimidade nacional”. No Estadão, a professora Leyla Perrone buscava elementos para uma honesta exegese de Chico. Para ela, o seu assombroso sucesso residia em seu perfil nostálgico e sua obsessão por elementos que evocavam isso. Nesse sentido, a banda já havia passado, o pano desceu na Quarta-feira de Cinzas, o barco partiu, a rosa morreu, Madalena foi o para o mar, a televisão matou a janela, a gente se sente como quem partiu ou morreu, a festa acabou, o que era doce se acabou. A alegria estava sempre no momento que passou. Contudo, alguns críticos entendiam que a nostalgia de sua obra inicial era aparente, e mostrava, na realidade, uma “dialética saudade do futuro”. 

Samba Metafísico

Essa ‘dialética’ mostra uma tendência em Chico Buarque, desde a sua obra inicial, de subverter a própria ordem instituída nos discos. Logo ele cuidaria de paulatinamente fugir aos próprios clichês, e o que havia de se tornar perene era algo que fosse além do problema “passado-futuro” para um samba metafísico que extinguiria o curso da história, ou o “samba tão imenso que o próprio tempo vai parar para ouvir”. Assim, a imagem construída pela mídia provocaria a luta de Chico contra o espelho: a partir do segundo seu disco, a lírica do criador da “Banda” zarpava para outros caminhos, mas sem perder a linha temática da urbanidade entronizada pelo samba e as suas variações, como a marcha de rancho (a antológica “Noite dos Mascarados”, interpretada pelo MPB-4 — Magro, Aquiles, Rui e Mílton, — e a atriz Odette Lara), a Bossa (“Morena dos Olhos d’Água”), a temática próxima a trovadoresca  da cantiga de amigo (“Com Açúcar, Com Afeto”, cantada por Jane dos Três Morais), que seria retomada com mais maestria nos anos 70, e a temática social, em uma época em que a música era o único espaço para se digladiar contra o Regime.

O marco dessa mudança estava no Volume 3 (de 1968), não só pelo vetor político mas também pela qualidade das letras. E quando para o seu público, Chico era ainda o rapaz tímido, ele buscava uma finalidade mais crítica para as suas composições, a partir da representação de Morte e Vida Severina, baseado na obra de João Cabral de Melo Neto. Da própria experiência como ícone, ele tratou de tentar desmitificar-se em Roda Viva, onde o autor se dizia estar em conflito com ele mesmo: “antes que brigassem com Chico, eu briguei com ele”, dizia. Roda Viva era a história de um músico que era esmagado pelas engrenagens do sucesso. A crueza do texto escandalizou a todos e exorcizava a imagem do “menino-prodígio” que o compositor repudiava. O novo disco passava os anteriores a limpo e chegava a momentos de excelência, como em “Umas e Outras”, ou na letra de “Retrato em Branco e Preto” (parceria com Tom Jobim) e “Sabiá” (também em parceria com Jobim), uma canção do exílio incompreendida pelas hostes revolucionárias que vaiaram os compositores em pleno Maracanazinho, no Festival daquele ano.

De capa da TV Intervalo, Chico Buarque se transformara em um dionisíaco. Diziam que ele bebia demais, que vivia com Marieta Severo sem estar casado com ela. Depois dos apupos dos revolucionários de festival (como dizia Nelson Rodrigues, que se divertia com a “obsessão” de Chico pela janela), o compositor resolveu sair do Brasil. Primeiro pensou em ficar três meses na Itália, para lançar-se como intérprete na Europa. Acabou ficando lá mais de um ano, onde praticamente recomeçou do zero e reavaliou a sua carreira. Voltaria ao Brasil diferente, negando os primeiros discos e, como diz em “Agora Falando Sério”, dando um chute nos glúteos do lirismo beletrista. A partir daí, sua música não seria a mesma — mas isso é outra história...