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13 a 28 de outubro de 2006

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A VOZ DO DONO E O DONO DA VOZ
Candidatos à Presidência sempre receberam apoio de cantores populares para ganhar prestígio e arrecadar votos
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

que tinham Isaura Garcia, Elizeth Cardoso, Alvarenga e Ranchinho, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Luiz Gonzaga e Aracy de Almeida em comum? Mesmo sendo já conhecidos do grande público e, talvez por causa disto mesmo, grandes nomes da música popular também se envolveram em campanhas eleitorais e foram intérpretes de jingles políticos. Alguns números chegaram a fazer sucesso, e muitos são lembrados até hoje. Umas eram francamente favoráveis a este ou aquele candidato; outras, porém, faziam sátira política sobre nomes ou dos rumos da sucessão presidencial. Para não serem confundidos com os candidatos a quem defendiam e para evitar constrangimentos, muitas vezes eles gravavam as canções protegidos por pseudônimos.

Primórdios — Para a campanha de Júlio Prestes, em 1929, Luís Peixoto, um dos maiores cantores da chamada “Era do Rádio”, e que mais tarde faria sucesso com “No Tabuleiro da Baiana”, trouxe a campanha eleitoral para o disco na música “Não se meta com seu Júlio”, de Heckel Tavares. Na letra, de sua autoria, Peixoto desafiava a sopre de tuba o então candidato da Aliança Liberal, Getúlio Vargas, a tomar cuidado com seu adversário, que à época tinha o apoio dos principais grupos oligárquicos dos estados que o apoiavam. De Rio de Janeiro e São Paulo: Getúlio, Fon, fon fon, fon, você está comendo bola, não se mete com "seu Júlio" que seu Júlio tem escola”. Seu “Júlio” levaria as eleições no bico e no cabresto mas, a três do outubro de 1930, Getúlio Vargas tomaria o poder através de golpe militar.

Em 1937, o jonal A Noite promoveu um concurso para saber quem seria o vencedor no ano seguinte. Carmen Miranda defendia uma das músicas, “Minha Terra Tem Palmeiras”, de João de Barro e Alberto Ribeiro: minha Terra tem um homem, ninguém sabe quem será, minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, ô, que terra boa prá se vadiá”. Mas a vencedora foi “A Menina Presidência”, de Antônio Nássara, interpretada por Sílvio Caldas que, coincidentemente ou não, anteciparia o desfecho eleitoral: "o homem quem será, será seu “Manduba” ou será seu “Vavá, entre esses dois meu coração balança, porque, na hora “H” quem vai ficar é seu Gegê”. Dito e feito: nem José Américo, nem Armando Sales: à 10 de novembro, Vargas anunciou o Estado Novo. Eleição, agora, só dali a oito anos...

Em outubro de 1945, Getúlio Vargas era deposto através de Golpe Militar. No dia 2 de dezembro, em eleições diretas, Eurico Dutra é eleito presidente da república, pelo PSD.  A música popular dá o troco no ex-ditador com a marchinha “Palacete no Catete”, composta por Herivelto Martins e Ciro de Souza para o Carnaval da 1946 e gravada no ano seguinte pela voz de Francisco Alves — então o maior cantor de seu tempo — alusiva à deposição do presidente: “existe, um palacete no Catete, e consta que foi desocupado, o vizinho do lado, estava informado, que o seu vizinho já pensava em se mudar, esse inquilino, apesar dos desenganos, morou nesse palacete...vinte anos!”.

Por ironia do destino ou por causa do cachê polpudo, Chico Viola defenderia o mesmo Vargas, em 1950, com a canção “Bota o Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo ("A La La Ô") e Marino Pinto ("Aos Pés da Cruz") e que se tornaria antológica: “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho, faz a gente trabalhar".

Ninguém recebeu tanto apoio de cantores de êxito no Brasil do que o lendário governador paulista Adhemar de Barros, candidato do Partido Social Progressista (PSP) para o Planalto, em 1955. Para se ter uma idéia, ele chegou a manter um departamento de música no partido, e que contava com ‘cast’ da altura de uma Aracy de Almeida, de um Ataulfo Alves, Herivelto Martins, Benedito Lacerda e Pixinguinha, entre outros. De Herivelto e Benedito, nasceu “Vou votar em Madureira”, interpretada por Aracy, à esse tempo já reconhecida por trazer os sambas de Noel Rosa às novas gerações: “meu marido andava triste, já nem queria mais votar mas comprou um terno novo prá votar no Adhemar...". Outra que é lembrada até hoje é “Caixinha do Adhemar”, cantada por Nelson Gonçalves: “quem não conhece, quem não ouviu falar, na famosa Caixinha do Adhemar".

Mas quem ganhou nas urnas foi o mineiro Juscelino Kubistchek, com 36 % dos votos. Um detalhe: tanto Aracy quanto Nelson preferiram fazer uma campanha discreta ao candidato do PSP. Para tanto, ambos fizeram uso de pseudônimos, muito embora suas vozes fossem facilmente reconhecíveis. No selo do disco, ela assinava como Florinda Alves. Por sua vez, o boêmio trocou de nome para Joaquim Gonçalves. Reza a lenda que, um sujeito, ao ouvir “Caixinha do Adhemar”, teria perguntado quem era o dono da voz. Ao ficar sabendo, exclamou: “puxa vida, mas esse cara canta melhor que o Nelson Gonçalves!”.

Adhemar disputaria as eleições de 1960 com Jânio Quadros. Da coligação PDC-UDN e o Marechal Henrique Teixeira Lott, do PSD. Para o pleito, o departamento musical do PSP apresentou “Vamos saudar Adhemar”: "hip, hip, hurra, vamos todos saudar Adhemar! hip, hip, hurra, que o nosso Brasil vai governar”. Mas sua marchinha foi varrida pela vassoura de Jânio Quadros, que até hoje não há quem se lembre da melodia e da letra, tão atual como se tivesse sido composta para as eleições deste ano: “varre, varre, varre, varre, varre, vassourinha, varre, varre a bandalheira, que o povo já está cansado, de sofrer dessa maneira".

O Marechal Lott, percebendo que quem não gosta de samba bom sujeito não é e também não faz bossa, decidiu providenciar um tema para a sua malfadada campanha, chamado “Vassoura Americana”, que na verdade era uma brincadeira com a marcha de Jânio, cuja “vassourinha” fazia enorme sucesso: “o povo, sabe, sabe e não se engana, essa vassoura de piaçaba americana! Mas a espada do nosso marechal é fabricada com aço nacional”.

Um Pioneiro — Impondo-se com relação à seus contemporâneos, Luís Gonzaga defendia abertamente seus candidatos e também se notabilizou como um pioneiro do marketing político, mais ou menos em “escala industrial”, como vemos hoje. No terreno da música, ele criou vários temas, defendendo Juscelino e Jânio, entre outros políticos de expressão menor. Mas como não poderia deixar de ser — e nunca deixou, é claro — a paixão pelo candidato era proporcional ao valor do cachê que era oferecido. No Nordeste, ele foi um dos cantores-compositores mais disputados em período de campanha. Afinal de contas, ele era Luiz Gonzaga, e só o seu apoio era suficiente para garantir boa parte do eleitorado.

O Rei do Baião nunca escondia a relação que mantinha com os políticos. Segundo o autor de “Asa Branca”, os contratos eram, em média, de quatro ou cinco meses. Segundo ele confidenciava, o político escolhido era sempre aquele que pagava mais. Mesmo assim, Gonzagão sabia que o acordo era um contrato de risco, e como funciona no marketing político, o seu apelo promocional não era suficiente para garantir a vitória do “seu” candidato. Mas em contrapartida, a música poderia lhe render boa perspectiva.  Um exemplo é “Paraíba Masculina, mulher macho, sim senhor”, que originalmente foi composta sob encomenda para um candidato da Paraíba, cujo nome ninguém se lembra mais. Mas a música virou um clássico de Luiz Gonzaga...