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6 a 21 de novembro de 2006

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DEZ MIL DIAS DE SOFRIMENTO E INSPIRAÇÃO
Cinco anos após Lateralus, Tool continua entusiasmando com receita de peso e alto nível
por Guillermo Matias Gumucio (guillermogumucio@yahoo.com)

aynard James Keenan é um cara mais ou menos normal. Ou mais ou menos o que gostaríamos que o termo "normal" significasse na indústria musical. Se todo e qualquer artista lançasse um produto (seja ele disco, filme, livro, etc.) tão e somente quando ele tem algo a dizer ou mostrar, isso seria um benefício incomensurável para nossos olhos e ouvidos, e é justamente por esse motivo que o Tool tem lançado álbuns de cinco em cinco anos. O "menos" normal fica por conta de que ter um disco como Lateralus (2001) no currículo não é definitivamente para qualquer um.

O Tool sempre se destacou pela inovação e diferenciação entre seus discos, mas com 10,000 Days não é mais possível continuar afirmando isso. Não, 10,000 Days não é ruim, muito pelo contrário, apenas não expande tanto os horizontes como seria de se esperar da banda. Lateralus pode ser, portanto, visto como uma faca de dois gumes — a velha história do "em time que está ganhando não se mexe". Se aproveitado como elemento único e individual, 10,000 Days se trata de uma experiência musical que poucas bandas modernas podem se dar ao luxo de oferecer a seus admiradores. Prosseguindo com um trabalho de estúdio e sonorização impecável, a banda, cinco anos e um prêmio Grammy depois, ratifica que há vida inteligente e muito ativa no metal, se é que pode assim ser categorizado.

Apesar de os produtores e engenheiros de som entre os dois álbuns serem todos diferentes, a sensação que se tem é que nada mudou nesse sentido. A produção de todo 10,000 Days é inacreditavelmente igual àquela de Lateralus.
Estão lá os interlúdios e até mesmo as faixas de encerramento dos dois álbuns são do mesmo tipo, isto é, não exatamente canções, mas experimentações com conotações ocultistas.

10,000 Days, título que faz referência ao duro período desde o derrame cerebral até a morte da mãe de Keenan, é aberto com "Vicarious", e já no primeiro segundo temos a constatação de que se trata de puro Tool. A guitarra segura de Adam Jones em uma frase repetitiva e alguma distorção e o baixo simples e ao mesmo tempo muito criativo, além de manter a sonoridade aguda e densa definida por Justin Chancellor nos discos anteriores. E justiça seja feita: a parte de guitarra com vox em "Jambi", a faixa seguinte, é de arrepiar. O Tool tem esse poder de fazer o ouvinte se perguntar constantemente "como ninguém pensou nisso antes?" e o solo em "Jambi" é mais um desses emblemáticos momentos. Danny Carey não decepciona e continua mostrando ser um dos bateristas de rock mais versáteis e criativos, com ritmos bastante tribais sobre tempos intrincados.

A explicitação do tema do disco vem já na terceira faixa, com "Wings for Marie (Part 1)", claramente dedicada à liberação da alma da mãe de Keenan. "Wings for Marie" é do tipo de canção difícil de ser apreciada na primeira audição, mas que se revela uma bela música, colocada no lugar adequado no disco, logo após as pesadas e longas duas primeiras faixas. E que show o da cozinha em "10,000 Days (Wings Part 2)"! Por uns bons quatro minutos da faixa-título, baixo e bateria liberam suas influências de free jazz e progressivo e embalam uma levada daquelas que poderiam se estender por uma hora inteira em uma apresentação ao vivo, numa repetição das mais prazerosas de ser ouvida e que dá liberdade para que a guitarra faça virtualmente tudo que vier à tona no momento.

"The Pot" se mostra direta e sem muitas surpresas, salvo pela abertura a capella de Maynard de extremo mau gosto — impossível escutá-la e não imaginar algo tão fora de lugar e insosso como Panic at the Disco! ou coisa que o valha. De qualquer maneira, é um chute para fora em goleada. E não se iludam: apesar de provinda da Califórnia, a proposta do Tool está bem distante das bandas que misturam metal com hardcore que abundam por aquela região. A quinta faixa de 10,000 Days é menos complicada do que parece, tornando-se mais simplória quando melhor detectada sua repetição e estrutura, assim como saídas instrumentais em geral, contudo, o refrão é um dos mais envolventes de todo o disco.

Ao longo da obra é admirável perceber como uma formação de guitarra, baixo e bateria consegue alcançar um espectro tão grande de timbres e ambientes. Apesar de a herança progressiva sempre ter sido muito latente em quase tudo produzido pela banda, em 10,000 Days ela convive em perfeita simetria com o soturno e o escuro proposto pelas letras e, especialmente, pela musicalidade e perpetuação das harmonias em progressões menores.

“Rosetta Stoned” e “Right In Two” mostram que se trata de uma banda que sabe exatamente o que está fazendo, sem deixar nada a dever em matéria de peso, com frases de metal — muito puxado para o new metal, de fato — incríveis e cativantes. Na primeira vemos um Maynard desprendendo-se de forma absoluta, por um momento, da voz mais feminina, conduzindo "Rosetta Stoned" com esquizofrenia e uma inspiração claramente originária das bandas mais pesadas e técnicas dos anos noventas de Seatlle, como Alice In Chains e Soundgarden. "Intension" prepara o terreno da percussão para o que virá a se tornar a parte interessante de "Right In Two", quando mandalas seguem o ritmo e são o centro das atenções por alguns preciosos segundos até a veia metaleira ressurgir na mesma faixa com muito vigor e guitarras acertadíssimas.

O que acontece é que toda essa empolgação é levada por água abaixo quando se percebe que o disco termina de modo surpreendentemente semelhante a Lateralus. Pode ser desconfiança do crítico, mas se existe uma ligação entre os dois trabalhos, ela não está nem um pouco aparente; e se existisse, não tenho dúvidas de que a banda poderia ter encontrado uma alternativa mais plausível e agradável.

Assim como no álbum anterior, a parte gráfica do artista plástico Alex Grey é de causar inveja nas demais bandas e resulta, convenhamos, não somente em um adendo à música contida no disco, mas em instrumento prático para tentar reverter a vertiginosa queda nas vendas de discos, principalmente naqueles que visam um público mais jovem, como é o caso do Tool.

O lançamento do Tool não somente tem chances de ser um dos melhores discos de rock pesado de 2006, mas também fornece uma experiência musical que fica mais atraente a cada atenta audição, envolvendo o ouvinte em sua atmosfera coberta de uma espessa penumbra que, estranhamente, acolhe. Desse modo, a similaridade com Lateralus também vai se dissipando, mas não com tanta consistência quanto seria adequado, o que levanta uma dúvida curiosa sobre o que será do futuro da banda em um próximo trabalho – as possibilidades no campo abordado em Lateralus e 10,000 Days parecem ter praticamente se esgotado, e algo ainda mais “dark” já seria cair em outro território musical, provavelmente.