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6 a 21 de novembro de 2006

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A VOZ DO ESCRITOR
José Castello defende que a busca por uma voz própria é o grande desafio dos escritores contemporâneos
por Luiz Rebinski Junior (jrrebinski@yahoo.com.br)
Foto da Capa: Joaquim de Carvalho

á mais de três décadas trabalhando na imprensa, José Castello se tornou ao longo dos anos um dos jornalistas da área cultural mais respeitados e prestigiados do país. Desde 1984, quando voltou dos Estados Unidos, onde cobriu as Olimpíadas de Los Angeles para a revista Isto É, Castello vem se dedicando apenas aos livros. Biógrafo de Vinícius de Moraes, é colaborador do jornal Valor Econômico e da revista Bravo!. Tem sido também um dos entusiastas do suplemento literário Rascunho, jornal editado há seis anos em Curitiba.

Da experiência na área cultural e do contato com grandes escritores brasileiros nasceu um de seus livros mais interessantes. Inventário das sombras, título que a editora Record reedita, traz as impressões de Castello sobre episódios que envolvem diversos autores – e um artista plástico – como Nelson Rodrigues, João Antonio, Manoel de Barros e a enigmática Clarice Lispector. Nascidos a partir de pautas jornalísticas, os encontros retratados no livro se transformaram em textos que estão, como o próprio autor gosta de frisar, em uma região limítrofe, entre o ensaio e o conto. E é justamente nesse caminho que Castello faz questão de investir.   

Mesmo sendo um jornalista de formação e vocação, José Castello não titubeia ao dizer que a imprensa, bem como a cultura em geral, está dominada por um pensamento “homogêneo”, onde há pouco espaço para a discussão de idéias.

Radicado há 10 anos na capital paranaense, o escritor escreveu um livro em que discute a onipresente influência do poeta Paulo Leminski nas letras e cultura curitibana. Para ele, Leminski virou uma “marca” ostentada por diversos escritores que se dizem herdeiros da poesia do “Polaco”.

Na entrevista a seguir Castello fala sobre crítica literária – gênero em que é um dos profissionais mais atuantes do país –, sobre a desconfiança de alguns setores da imprensa especializada a respeito de escritores que exercitam a crítica e discorre também sobre a nova geração de autores brasileiros. Em uma conversa no coração cultural de Curitiba, no Largo da Ordem, Castello falou de seus medos, sonhos e de seu lugar na literatura que, segundo ele mesmo, aos 55 anos, ainda está à procura.

- Durante muitos anos você fez apenas crítica literária. Hoje, sendo além de crítico também escritor, você acha que as duas funções são plenamente compatíveis?

José Castello – É o seguinte: eu acho que há muito preconceito quando um crítico escreve ficção e vice-versa. As pessoas de fora te vêem com desconfiança. Primeiro como aquele cara que exerce crítica mas que também se mete a escrever. Um exemplo disso é o preconceito que recai sobre um escritor brasileiro superimportante que é o Silviano Santiago. O Santiago é um cara de origem, um brilhante crítico literário que de muitos anos para cá começou a escrever ficção. Por conta disso, é uma impressão que tenho, ele é muito discriminado, considerado como um crítico que apenas se aventura na ficção. Como se a ficção dele fosse apenas um passatempo, uma coisa que ele faz nas horas vagas. O que a realidade desmente, já que a qualidade dos livros dele é inquestionável. Mas grande parte dos críticos e dos escritores tem essa visão sobre ele. Ou seja, o problema é com a dupla identidade. É como se as pessoas não soubesse direito com quem estão falando e ficassem sempre com um pé atrás. Para mim isso não só é uma tolice como, pessoalmente, me enriquece. Sempre me enriqueceu. Primeiro porque já no jornalismo, quando eu fazia reportagens de comportamento, eu trabalhava em um gênero meio limítrofe. Muitas pessoas liam minhas reportagens e diziam que se pareciam com contos. E realmente eu tentava fazer isso, dar um formato de conto aos textos. É claro que nem sempre conseguia, mas tentava. Sempre trabalhei com essas fronteiras. Sobre o meu primeiro livro, O poeta da paixão [sobre Vinícius de Moraes], que é uma biografia de estrutura clássica, muita gente já me disse que tem a estrutura de um romance, e que de certa forma eu acho que tem, embora não seja uma biografia romanceada, que é algo totalmente diferente. Já sobre o Inventário das sombras, que é uma reunião de retratos de escritores, muitos me falaram que o livro está mais para uma reunião de contos do que para retratos. Quando lancei a coletânea de melhores crônicas pela editora Global, selecionadas pela Leyla Perrone-Moises, teve uma discussão interna entre os editores porque eles não sabiam se botavam os textos na coleção de melhores crônicas ou melhores contos. Acabaram decidindo pela coleção de melhores crônicas, pelo que entendi, porque os textos tinha sido publicados originalmente como crônicas no “Caderno 2” do Estadão. Então, essa posição de fronteira é uma opção minha. É claro que também é o resultado da minha experiência fronteiriça, híbrida, na medida em que sempre pratiquei diversos gêneros de textos. Com isso eu descobri que esse é o lugar em que quero e que gosto de escrever. Agora, se isso provoca desconfianças e suspeitas, eu não posso fazer nada.

- Muitos críticos, principalmente aqueles mais antigos, como Wilson Martins e Antonio Cândido, vivem dizendo que a crítica literária acabou. Você concorda?

José Castello - Acho que aí tem dois problemas: um é que por um lado a crítica literária se especializou. Com o crescimento da área de estudos de teoria literária na universidade, a literatura virou uma especialidade acadêmica. Que na verdade está muito mais voltada para o estudo dos conceitos teóricos e para o estudo dos grandes clássicos, do que para a produção contemporânea. Por outro lado, essa produção do dia-a-dia, ficou com o chamado jornalismo literário. Esse jornalismo teve uma ascensão na virada entre os anos 80 e 90. Nessa época a Folha de São Paulo fazia um jornalismo literário de grande qualidade com o “Folhetim”, depois criou o “Mais”; o Estadão começou a recuperar o seu suplemento de livros; o Globo criou o “Prosa & Verso”. Foi uma época, os anos 90, de grande vitalidade. Mas de lá para cá, o que sinto é que há uma grande retração. Os jornais se empobreceram, as páginas diminuíram, a qualidade, em geral decaiu, e o jornalismo literário se tornou uma coisa mais “barata”, feita por jornalistas com pouco hábito de leitura e trato com o livro. Com isso passou a dominar a resenha mais informativa. Porém essa característica não ocorreu apenas com o jornalismo de livros, mas com o jornalismo cultural em geral. Hoje o espaço dedicado à cultura é menor, os editores pedem aos jornalistas para que escrevam textos mais curtos e as matérias são muito mais informativas e objetivas do que qualquer outra coisa. Quando os textos não são apenas informativos, que se abrem para entrevistas maiores, em geral não são discussões de idéias, mas discussões de coisas mundanas, como um colunismo cultural. A conseqüência disso é que os grandes críticos literários, não só na área de literatura, repito, mas do teatro e cinema, desapareceram. Hoje você abre os jornais, salvo raras exceções, e o que se vê são coisas escritas com rapidez, visões superficiais dos produtos culturais, e que dão a impressão de que aquilo é feito por gente não muito preparada. Penso que são dois extremos. Isso é tão ruim quanto a especialização da crítica literária em gueto fechado na universidade. Aí ela se torna também um mundo fechado. Claro que tem pessoas como o próprio Silviano Santiago, a Flora Sussekind, a Leyla Perrone-Moises e o Luiz Costa Lima, que estão preocupadas com a produção contemporânea também. Mas esses são exceção. A maioria fica fazendo suas teses de doutorado e pós-doutorado em torno de autores clássicos e acabou. Então ficou um vazio.

- O Rascunho [jornal literário editado em Curitiba que há seis anos circula pelo Brasil] estaria nesse meio termo, entre a especialização e as idéias?

José Castello - É, eu acho que o “Rascunho” luta para ocupar esse espaço intermediário e de mais equilíbrio. O jornal procura não ser um veículo de produção de crítica cifrada, só para especialistas, onde a pessoa tem que ter lido teoria literária e todos os livros de determinado autor para conseguir entender os textos. Isso não é legal. Mas por outro lado também não ser um lugar da crítica fácil e, sobretudo, de uma crítica que fica só em cima do consenso. Fato que tem ocorrido com toda a imprensa, que está dominada por um jornalismo monotemático e com uma visão homogênea. Você pega os colunistas políticos de hoje e todos dizem as mesmas coisas. Os de economia e esporte, idem. Na verdade não existem grandes diferenças entre eles, de estilos. Quem substituiu Nelson Rodrigues na crônica esportiva? Quem faz hoje uma crônica de esporte com olhar mais próprio, mais sofisticado, que beire o literário? Ninguém. Então o jornalismo ficou mais superficial, mais medíocre e bem mais homogêneo. No Rascunho, a regra, desde o começo, ditada pelo Rogério Pereira, que é o editor, e que eu assino em baixo, é que ali há lugar para todas as posições e pontos de vista. Hoje uma coisa que sinto falta na imprensa como um todo, não só na cultural, é a pluralidade de perspectiva. Isso acabou no jornalismo, que tem se mostrado uníssono. O jornalismo literário ficou mais medroso. Hoje é muito difícil encontrar resenhas e artigos que firmem posição a respeito de livros ou autores. Não é que não existam, mas são exceções.

- O seu livro Inventário das Sombras está com nova edição. Hoje, depois de seis anos do lançamento da obra, a sua visão sobre os personagens mudou muito? Fale um pouco sobre o livro.

José Castello - Eu acho que não. Certamente se eu fosse escrever de novo os textos, escreveria de outra maneira. Isso porque nós estamos sempre meio insatisfeitos com tudo o que fazemos. Eu por exemplo evito reler trechos de livros meus. Só o faço quando realmente preciso, se tenho que dar uma entrevista sobre um livro publicado há muitos anos e que eu não lembro, sobre um assunto muito específico, aí dou uma olhada para reavivar a memória. Ou então em raras situações de círculos de leitura, onde as pessoas me pedem para ler. Tirando isso, eu não leio porque vou sempre encontrar defeitos. No geral eu tenho muito carinho pelo Inventário das sombras porque eu acho que foi, dentro do meu trabalho, o livro em que eu dei uma virada e encontrei em definitivo o meu caminho. Que é esse caminho fronteiriço. Foi com o Inventário que eu consegui realizar esse percurso até mim mesmo. Encontrar, de uma forma muito incerta, até sem saber que estava fazendo isso, o que eu gosto de fazer e o que eu quero fazer.

- Como você mesmo disse, os textos do Inventário das sombras ficam nessa região limítrofe, entre o conto e o ensaio. No livro há muitos detalhes sobre os encontros que você teve com os personagens, como é o caso do texto sobre Nelson Rodrigues. O que tem de ficção ali?

José Castello - Tem algumas coisas que me chamaram muito a atenção. É claro que eu reconstituo alguns diálogos com uma certa liberdade literária que eu me dou. As palavras que o Nelson disse não foram exatamente as que eu usei, eu faço uma recriação. Mas não com a intenção de falsificar. Até porque todos os encontros foram muito importantes para mim como jornalista. Com o Saramago, por exemplo, eu passei três dias conversando com ele. Com Robbe-Grillet também fiquei um dia inteiro. São coisas que trabalhei muito.

- Em geral os escritores são vistos a partir de uma série de clichês. Nelson Rodrigues, por exemplo, é visto como um reacionário ou um devasso. O Caio Fernando Abreu, outro escritor retratado no livro, era uma pessoa bastante sombria e conhecida por essa característica. Porém seu livro traz uma outra leitura desses personagens.

José Castello - Daí a idéia de fazer o Inventário das sombras. Pegar essas idéias que ficam obscuras e que muitas coisas desmentem, ou amenizam bastante, a imagem padrão que se tem daqueles escritores. Eu na verdade escrevi com a intenção deliberada de combater os clichês a respeito dos personagens. Claro, partindo muitas vezes desses clichês, até porque eles existem. Muitas vezes refletindo a influência que os clichês têm e como isso afeta os próprios escritores, que não raramente sustentam essas idéias. Então foi a partir das brechas e fronteiras que eu procurei trabalhar.

- Quem foi o escritor, retratado no livro, que mais lhe chamou a atenção?

José Castello - Olha, o encontro com o Robbe-Grillet foi muito marcante porque eu não tinha a menor idéia, apesar de ter lido todos os romances dele e acompanhado o Nouveau Roman francês [corrente literária nascida nos anos 1950], se ele estava vivo quando decidi fazer a entrevista. Então não fazia idéia de como o encontraria. Já a Clarisse é surpreendente sempre. Eu achava que já a conhecia, porque já tinha lido tudo dela desde garoto, e levei um susto. O Nelson Rodrigues também me surpreendeu pela carência dele. Eu não soube lidar com aquilo, fiquei muito perturbado. O Saramago pela elegância e doçura. Ele tem fama de ser um escritor duro, um comunista tradicional, e um sujeito de idéias muito pessimistas. E aí quando eu tive contato com ele comecei a relativizar todas essas idéias. A partir daí comecei a ver matizes diferentes na hora de ler a obra também.

- Castello, a sua experiência no jornalismo ainda reflete na literatura que você faz. A influência do texto jornalístico ainda é marcante na sua escrita?

José Castello - Acho que ela foi se diluindo e foi virando outra coisa. Um amigo meu comentou uma coisa que achei interessante. Ele disse: ‘é claro que o que você está escrevendo não é mais reportagem, mas você nunca deixou de ser o repórter’. Aí eu perguntei o porquê, e ele me disse que nos meus textos eu estou sempre procurando alguma coisa. Mas isso não é só do jornalismo. Os textos do Ricardo Piglia, que não é jornalista, têm muito dessa coisa da procura. Bem como as coisas que o Enrique Villa-Matas, outro escritor que eu admiro muito, também têm essa ênfase. Talvez uma outra coisa que tenha ficado do jornalismo, e que tem a ver com os dois livros que eu estou escrevendo agora, é a fragmentação. Essa característica é um efeito da minha experiência como jornalista. Porque como repórter você vive meio que como barata tonta, tendo que fazer várias coisas ao mesmo tempo. A troca de assuntos é muito rápida, já que você está sempre à mercê dos acontecimentos. Então essa fragmentação ficou na minha maneira de escrever. E tenho procurado investir nisso. A grande dificuldade é sempre de encontrar a própria voz. E não apenas de saber aquilo que você quer, de perceber a própria sensibilidade, mas até de valorizar as coisas que aparentemente são defeitos. Ser disperso para um romancista a princípio é ruim. Mas eu não sei se é ruim. Os grandes romances da História da literatura são absolutamente dispersos. Começando pelo Ullysses, do Joyce, embora seja concentrado em 24 horas, chegando aos livros do Villa-Matas, que são fragmento puro. São características que aparentemente são defeitos, mas que se você reconhece que são suas, é preciso então ter coragem e passar a trabalhar com essa característica de uma forma positiva. Então encontrar e sustentar a própria voz é o mais difícil.

- Em uma de suas entrevistas você disse que Bernardo Carvalho, autor de Mongólia, é um escritor que escreve para a crítica. O que você quis dizer?

José Castello - A impressão que tenho é que o Bernardo sempre escreve menos fixado em uma voz dele e mais voltado a textos que serão absolutamente inesperados, e que por isso serão valorizados pela crítica, pois vão ser vistos como algo novo, absolutamente diferente de tudo o que já foi feito. É um pouco isso que vejo nele, herança dos mitos das vanguardas do século 20. É claro que se limitar a escrever bem é muito ruim, tem pouco valor. Agora, o oposto também é preciso ser visto com desconfiança. Escrever só para romper, quando o objetivo principal é perturbar. O Bernardo é um escritor que escreve muito voltado ‘para o outro’. Mais ou menos como o espírito das pessoas que defendem tese. Ou seja, precisa agradar aquele que vai ler. No fundo isso tem uma atitude meio ginasiana, escolar, de prestar contas. E o escritor só presta contas a si mesmo.

- Há algum tempo o escritor Nelson de Oliveira compilou textos de escritores que ele chamou de transgressores. Você acha que os autores que participaram da coletânea merecem a alcunha de transgressores?

José Castello - Em geral eu acho que não. É uma geração que tem que ser valorizada, é um pessoal que está batalhando para ocupar um lugar na literatura – e tem mais é que ocupar mesmo. Mas essa geração que surgiu da internet, que produz blogs, pouca gente, tirando talvez o Joca Terron, ainda não conquistou a sua voz. O Terron é um escritor que tem uma voz. Uma voz ainda que não inteiramente trabalhada, mas tem. Há também uma escritora chamada Maira Parula, que atualmente mora no interior de Minas Gerais, que também tem a sua voz. Porque hoje o grande mal, não só da literatura, mas do mundo contemporâneo, é a uniformização. As pessoas se pautam muito pelo medo de errar. A primeira pergunta que as pessoas fazem antes de ingressar em um curso ou em uma faculdade, por exemplo, é: o que eu tenho que fazer para ser aceito, agradar? E não é por aí, não é preciso agradar ninguém, apenas a si mesmo. É por isso que em todos os exercícios das oficinas literárias que leciono, que cada vez mais eu procuro chamar de oficinas de imaginação, procuro devolver isso para as pessoas. Enfatizar que não é preciso agradar ninguém, que é preciso se deslocar dos clichês e regras que nos prendem. Então o trabalho é de se deslocar e quebrar as couraças, imaginar outros ‘eus’. Criar outras perspectivas e tendências para ver o mundo, já que isso é uma tendência.

- No seu livro Fantasma você fala da influência que o poeta Paulo Leminski – não só na literatura – exerce sobre Curitiba. Na sua opinião essa influência ainda é muito forte? É benéfica para a literatura local?

José Castello - Certamente que essa influência ainda existe. Ele virou um mito. Um mito engraçado, porque nos últimos anos da vida do Leminski, ele foi um pouco desprezado, visto como um cara decadente, chato etc. Aconteceu com ele algo muito parecido com o que ocorreu com o Glauber Rocha. O Glauber nos últimos anos de vida era visto pelos próprios amigos como um cara insuportável, louco, que dizia sempre as mesmas coisas. Aí morreu e foi santificado imediatamente. Isso é uma coisa muito típica da imprensa, do jornalismo, mas também do Brasil. E o Leminski passou por esse processo que o transformou de poeta marginal a escritor oficial da Era Lerner [Jaime Lerner, governador do Paraná entre os períodos de 1995-98 e 1999-2002]. Tanto é que criaram o Perhapiness [evento literário em homenagem a Leminski que acontece, em geral, nos meses de setembro e outubro em Curitiba] em torno da figura dele. Então o meu livro na verdade trata desse fantasma, que é esse mito que se criou. Mito que por sinal não tem nada a ver com ele. E esses fantasmas ficam rondando a cidade. O Dalton Trevisan, que está vivo, é também um fantasma. Até porque se esconde, faz questão de ser assim. E o problema disso é que no caso do Leminski ele se tornou uma espécie de caixa vazia, que todos usam para justificar o que fazem. Então muitos poetas se dizem de alguma forma descendentes do Leminski. Como todos se dizem herdeiros dos irmãos Campos. Virou um processo de filiação a posteriori. Depois que o cara morreu você se filia a ele. Isso justifica uma série de barbaridades que se produz, se edita, e são valorizadas no campo da poesia. Ou seja, o Leminski virou um rótulo, um brasão. Olha, escritor que precisa se amparar em títulos e prêmios, no mínimo não dá muito valor ao que faz, e provavelmente o que faz não tem muito valor mesmo. Os grandes escritores estão se lixando para isso. Claro que tem suas influências. Mas ninguém fica ostentando isso como um título de nobreza. Em Curitiba, dizer-se descendente ou resultado de uma poética criada pelo Leminski virou um título de nobreza. O que não tem nada a ver com a literatura. Nesse sentido a presença dele é muito negativa. Isso porque eu me pergunto hoje, até que ponto a obra dele está sendo lida com a distância que já se pode se ler e avaliar.