Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

6 a 21 de novembro de 2006

Equipe Edições Anteriores

PRODUZIR SONS QUE FAÇAM SENTIDO
Banda mineira Cumbaquê busca sua música por caminhos diferentes dos traçados pelo pop-rock brasileiro
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

ar que atravessa o oco perfurado/ Movimenta o que penso, o que sinto, o que falo/ Para não ficar por aí, de cabeça pra baixo”. O som. A razão de ser de todo o músico: produzir com os mais diversos instrumentos para passar sua mensagem, musical, poética, selvagem, delicada, vazia, crítica, divertida. Chance para mudar o mundo, transformar a si mesmo.

É nessa batalha que os versos acima entre aspas se encaixam na proposta da banda Cumbaquê. Fazem parte da canção “Pesado”, do CD O ar q movimenta o oco perfurado, primeiro trabalho, lançado recentemente, que indica a ponta do iceberg musical desse conjunto mineiro formado em 2001, e que procura seu espaço musical bebendo em diversas fontes, passando pelo rock, pop, samba, música eletrônica, experimentalismos e ritmos afro-mineiros. Dá até para sentir ecos semelhantes da batida seca da Nação Zumbi em algumas faixas. Nada muito original, é verdade, mas ao menos a proposta se coloca diferenciada do hardcore fácil ou do pop repetitivo que o rock brasileiro tem sido obrigado a engolir nos últimos anos.

Em outros momentos as influências são difíceis de serem percebidas, um clima soturno e obscuro alimenta algumas canções. O amor, o tédio e a crítica social perpassam de forma misturada nas faixas do CD, como na romântica “Fecho os Olhos”, que tem uma levada eletrônica feita pela bateria. Há momentos em que o rock aparece, mas não se trata da principal proposta. A fuga pelo ar que se desloca diante de nós é o referencial constante. Ou seja, o som pop, mas não àquele de termo gasto que todos conhecem. Basta ouvir a crítica e dançante “Vire o Disco” para entender. Por que ela é crítica? Leia o refrão: “Vire o disco, não venha me dizer que não tem nada a ver com isso/ É compromisso, ou procura entender ou se torna omisso”. Vem bem a calhar em tempos de letargia nacional.

Esse álbum de estréia do Cumbaquê começou a ser produzido há três anos, de forma independente, sendo finalizado este ano devido à seleção do seu material para um projeto chamado “Estímulos à Produção Artística”, do Instituto Cultural BDMG, numa tentativa de tornar público o cenário local, o que proporcionou uma tiragem de mil cópias. A direção e produção musical contou com Jongui, que produziu dois álbuns do Lobão, Noite (1998) e A Vida é Doce (1999), e Pet Shop Mundo Cão (2002), do Zeca Baleiro. O CD conta com a participação de uma argentina, Mariana Eva, da banda Mim, na faixa “Negro Y Blanco”. Conheça um pouco mais do Cumbaquê em entrevista por e-mail que o Rabisco teve com os seus integrantes.

- Como ocorreu a idéia de formar a banda?

Paulin – A banda se juntou em 2000 já com algumas idéias do que viria a ser o Cumbaquê. Inicialmente o Bruno apresentou umas músicas que foram se juntando e compondo um repertório para a banda começar a tocar. Assim, logo, o disco foi nascendo durante o processo de maturidade da banda, originando uma maneira própria de compor e arranjar. E como tudo no Cumbaquê sempre é muito sonoro o nome também foi criado com essa intenção.

– O som de vocês é bastante variado, com inserções eletrônicas, rock, pop, samba, experimentalismos. A que se deve isso?

André – Sempre alguém chega no ensaio aplicando um som novo, isso é bem legal. O som vai só evoluindo.

Bruno – Todos nós escutamos de tudo, sem preconceitos, gostamos de música. E por ficar mais de três anos produzindo o disco, resultou nessa sonoridade diversificada, fruto de várias fases da banda.

– Vocês ainda buscam uma sonoridade própria ou essa mistura revela uma afirmação de trazer um som menos fechado, quadradinho, sendo mais maleável?

André – Teve uma época que a gente ficava muito vidrado nessa onda da identidade sonora da banda, isso limitava nosso som. Acho que depois que nós fomos gravar em um sítio, compor, conviver junto, e em contato com o Jongui, produtor do CD, a gente despreocupou um pouco e o som fluiu melhor, saiu mais natural.

– Quais são as principais influências do Cumbaquê?

André – Tudo que a gente ouve e curte, acabamos aplicando na banda. Um dia um chega com Jeff Buckley, no outro com Stevie Wonder, Moska, Nine Inch Nails, Chico Buarque, e por aí vai.

Bruno – Soul Coughing, Asian Dub Foundation, Zé Coco do Riachão, Cartola, Arnaldo Antunes, Flo Menezes, Frank Zappa, Paulo Leminsk, Manoel de Barros.

Paulin – Rage Against the Machine, Thievery Corporation, Tom Jobim, Chemical Bros, Strokes, Mf Doom, Lauryn Hill, U.K. Apache e Damien Marley.

– O que significa o título do disco: “O ar q movimenta no oco perfurado”?

Bruno – O som, todo ar em movimento produz som. Dentro de uma flauta, de um berrante, de um tambor, ou dentro da cabeça, entrando pelo ouvido e devolvido pela fala. Também pode significar um peido ou um arroto, depende da imaginação.

– Como é o processo de criação da banda?

André – As músicas surgiram de várias maneiras. Todo mundo tocando junto, partindo de um groove, ou uma idéia de harmonia que alguém teve em casa, ou o Bruno chegou com uma música pronta feita no violão. Nós não temos uma fórmula. O lance é sempre trabalhar uma idéia até todo mundo bater o martelo e falar: é isso!

– Qual é a mensagem que a banda procura passar por meio de suas músicas?

Paulin – Nas letras falamos de diversos temas, mas sempre com base no nosso “olhar do mundo”, questionando, bradando, apaixonando, “viajando”, celebrando... enfim, cantando perplexidades. No som, basicamente, procuramos passar o clima propício para se curtir a letra enquanto é embalado pela música. Arrisco como: música da cabeça aos pés!

– No Cd de vocês tem uma participação de uma Argentina, Mariana Eva, na canção “Negro y Blanco”. Como rolou isso?

Bruno – Uma vez vi o show do Mim, banda da Mariana Eva, achei bacana o som e as letras. Em uma das etapas da gravação do nosso CD, que aconteceu no Rio de Janeiro, rolou uma oportunidade de convidá-la para participar, dentro do estúdio mostramos todo material e ela fez uma letra para uma levada instrumental que tínhamos, e no mesmo dia já gravou a voz, estava concebida Negro y Blanco.

– Depois de passar três anos produzindo de forma independente, como que rolou a produção desse disco por meio de um projeto de Estímulos à Produção Artística, do Instituto Cultural BDMG? Gostaria que vocês falassem um pouco sobre como se deu essa parceria.

Bruno – O BDMG abriu uma inscrição para bandas e artistas mineiros com CD já produzido, finalizado, inclusive a capa. Através de uma curadoria composta de músicos, jornalistas, radialistas e produtores, selecionou 11 trabalhos e produziu uma tiragem de 1.000 cópias para cada. Dando vazão à cena local.

– Qual foi a principal diferença de produzir os discos de forma independente para esta produção de “O ar q movimenta no oco perfurado”?

Bruno – A única diferença foi a prensagem que o BDMG pagou, no mais o CD continua a ser independente, inclusive a divulgação é por nossa conta.

– Vocês têm participado de festivais, shows? Como tem sido a receptividade do público em relação ao trabalho da banda?

André – O público ainda está conhecendo a banda, nosso CD acabou de chegar da fábrica. Tocamos em projetos bacanas esse ano como “Prata da Casa”, no SESC Pompéia em São Paulo, e no FIT 2006 (Festival Internacional de Teatro de BH). A receptividade tem sido muito boa.

Paulin - Os shows são um misto de projetos, parcerias e convites, em geral o público tem recebido nosso som de maneira diversa, ora dançando, ora cantando junto, ora curtindo a nossa curtição, ora apenas viajando.

– Quais são os planos para o futuro da banda?

André – Gostaríamos de participar o máximo possível de festivais da cena independente brasileira, tocar pelo Brasil afora e em outros países também, trocar idéias com outras bandas, outras culturas.

Bruno – Divulgar nosso CD, criar a possibilidade das pessoas ouvirem. A internet é um caminho que vem abrindo muitas portas pra gente. E paralelo a isso, preparar e gravar o segundo CD, já temos algumas músicas novas.