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6 a 21 de novembro de 2006

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ENTRE LINHAS
Gustavo Bernardo convida o leitor a jogar com a ficção e a realidade no romance Lucia
por Marillia Raeder Auar Oliveira (raederauar@uol.com.br)

ustavo Bernardo, em seu romance Lúcia, entretém o leitor das mais variadas maneiras: primeiro, através do próprio texto de ficção que se apresenta, com seu enredo maliciosamente sedutor; segundo, através de uma re-escritura que propõe do romance Lucíola, de José de Alencar; em terceiro lugar, o que nos remete à observação anterior, ou porque deixa vestígios de saudade aos que já leram o romance alencarino em questão, ou porque incita o leitor a buscar por esse texto oitocentista; quarto, entretém (e impressiona) através das verdadeiras e admiráveis aulas que nos dá, que por sua vez sugerem lembranças agradáveis aos que já foram alunos de Gustavo Bernardo; em quinto lugar, porque além de tantos malabarismos e competências, ainda joga xadrez com o leitor, oferecendo informações corretas e privilegiadas acerca deste jogo milenar.

Convém, portanto, dizer, que além de entreter o autor instrui. E seduz, não somente através de seu texto impecável e habilidoso, com seus diversos jogos de (e entre) palavras, brincando de professor de gramática – ou fingindo sê-lo, enquanto ficcionista – mas também por intermédio de seus personagens – ou de suas criaturas –, compostos de forma tão dubitativa.

Estruturado tal qual uma partida de xadrez, a primeira seção do livro se apresenta sob o título “Peças”, e entrega-se à apresentação das personagens principais: Lúcia(s), o professor José de Alencar e o próprio Paulo, narrador. Lúcias mesmo, no plural, porque se trata de irmãs gêmeas, quase idênticas, cuja diferença se limita a cor da pele e dos olhos: uma é negra de olhos verdes, a outra é branca e loura de olhos pretos. Adentra-se, desta forma, numa literatura de escrita e configuração metafórica, beirando o fantástico, simbolizando, assim, as Damas (ou Rainhas) branca e preta do jogo de xadrez, sabidamente as peças mais poderosas e dominadoras do jogo.

O Rei, peça do xadrez que sozinha pouco vale, mas que amparada pelas outras torna-se muito importante, cabe-lhe não um valor numérico, como às outras peças, mas o próprio sentido do jogo, o jogo em si. Representando esta peça central  temos, de  um lado, o  nosso narrador Paulo e, de outro lado, Marcos, marido (na verdade noivo) de Lúcia. Como Bispo do Rei Branco (Paulo) temos o professor José de Alencar, por ser seu conselheiro, e como Bispo do Rei Preto (Marcos), podemos dizer que temos o (suposto) pai das Lúcias, pelo segredo compartilhado com o genro.
Este romance, à guisa de jogo de xadrez, pretende ainda caminhar (e de fato caminha) sobre a linha tênue entre ficção e realidade, ou entre ficção e história, o que nos leva a anunciar que devemos tomar cuidado com certas aproximações restritivas, como convenientemente neste caso, autor e narrador.

Gustavo Bernardo, autor, nasceu no Rio de Janeiro em 1955. O narrador de Lúcia, Paulo da Silva Rocha, nos relata esse enredo ambientado também no Rio de Janeiro de 1955. Ambos são professores, um de teoria da literatura, outro de gramática. Temos ainda José de Alencar, alusão óbvia ao escritor brasileiro homônimo que viveu um século antes, ou seja, em meados do século XIX. A professora Dirce Côrtes Riedel e seu brilhantismo profissional ganham homenagem no romance, e o enxadrista Sousa Mendes ilustra já as páginas iniciais. O romancista costura assim, entre verdades e mentiras, os fios de sua trama.

A segunda seção do romance, iniciando as fases do jogo de xadrez, atende por “Abertura”. Tal qual uma mordaz Siciliana , a segunda subdivisão do romance é a mais longa, consumindo mais de oitenta páginas de um livro de cento e oitenta e uma.  É nesta fase (ou seção) que conhecemos as personagens, digamos, periféricas, como Marcos, o pai adotivo das Lúcias e o suposto filho, Júnior. Depois,  seguindo   a  seqüência   das  fases  do   jogo,  temos  “Meio” e  “Final”, que, obviamente, resume-se a uma sessão cujo número de páginas é bem inferior, mas nem por isso menos interessante. Ao contrário: exige uma boa dose de envolvimento e concentração por parte do leitor, sem o que não poderia compreender o desenlace da trama – ou as linhas do jogo, no caso de uma inversão de lances.

Definindo-se claramente na (boa) literatura contemporânea, caracteriza-se por uma originalidade temática a toda prova, beirando o conto fantástico quando insere em seu romance irmãs gêmeas cada qual de uma cor de pele,  mas também por ousadamente servir, de quando em quando, de introdução ao jogo de xadrez – como nas página 125, 126 e 127, com admiráveis e bem explicadas notas sobre o jogo – e também, por vezes, de curso não somente de gramática, mas de filosofia.
Adentra ainda no memorialismo – tendência clara na prosa literária brasileira pós-64 – ou ainda na autobiografia, de certo modo, uma vez que o próprio autor é também um enxadrista. Deslocamo-nos então do fingimento – que deixa de existir como autoridade na ficção quando entra em jogo a memória afetiva do autor – para um certo neo-romantismo. Silviano Santiago já apontou que é “pela estreita viela do desprezo à veracidade que se comunicam a ficção e a autobiografia, o fingimento e o relato pessoal, a estória e a história”.

O que esperar, portanto, de um romance cujo autor é enxadrista e professor de teoria da literatura? E além disso, reconhecido pesquisador não somente na área da literatura, mas da filosofia. Para completar, já escreveu livros infantis e outros romances. Um mestre na área. Esperamos então um livro como Lúcia: atraente e correto, ousado e decente, vitorioso portanto na partida que se propõe a jogar. O resultado é de alto nível, nesse encontro entre enxadrista-romancista-professor, pela qualidade da obra – da partida – e do combatente.

 

Nota da autora: Ao se responder ao lance 1.e4 com 1. ... c5, estamos jogando a Defesa Siciliana, a principal defesa de que dispõem as Pretas atualmente contra a jogada inicial das Brancas. Trata-se de uma defesa dinâmica e agressiva, permitindo partidas muito movimentadas. Por ser extremamente jogada, a teoria da Defesa Siciliana evoluiu muito, e não raro o jogador conseguirá preparar uma novidade na abertura somente na altura do lance 25, 26, ou seja, trata-se de uma abertura extremamente teórica e longa.