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6 a 21 de novembro de 2006

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NAS FENDAS DA LITERATURA
Em Inventário das Sombras, livro que ganha nova edição, José Castello traça o perfil de grandes escritores em textos que fundem o ensaio ao conto
por Luiz Rebinski Junior (jrrebinski@yahoo.com.br)

ara a maioria daqueles que conhecem ou apenas ouviram falar de Nelson Rodrigues, a personalidade do autor de Os sete gatinhos pode ser definida com apenas dois adjetivos antagônicos: devasso e reacionário. É claro que há aqueles que o acham devasso e reacionário ao mesmo tempo. Mas em geral a polarização das opiniões é o que predomina.

Foi justamente de clichês como esse, a respeito da personalidade de Nelson Rodrigues e de outros escritores, incrustados no imaginário popular, que José Castello partiu para realizar Inventário das sombras, livro que ganha nova edição pela editora Record.   

Jornalista há mais de três décadas, Castello trabalhou em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Passou pelas redações de Veja, Isto É, pelo semanário Opinião e foi editor do caderno “Idéias” do Jornal do Brasil. Dos anos de reportagem, muitos foram dedicados especialmente à literatura e aos encontros com escritores. Daí a relação do livro com o jornalismo.   

Entre o ensaio e a ficção, Inventário das Sombras traça o perfil de 14 escritores (e um artista plástico), brasileiros e estrangeiros, que um dia Castello entrevistou – ou teve vontade, como no caso de Dalton Trevisan. O resultado é um livro delicioso.

Repórter experiente e escritor sensível, Castello discorre com muita fluidez sobre a vida, a rotina, as manias e medos de grandes poetas, romancistas e dramaturgos. Mas engana-se quem pensa que estamos falando de um livro de pequenas biografias. Não se trata disso. O objetivo não é a retrospectiva pura e simples. Castello traz o desconhecido, o que não está nas páginas dos jornais e revistas. O glamour comumente ligado à imagem dos escritores não tem lugar no livro de Castello. Ou melhor, é apenas o fio condutor de uma narrativa inesperada.

A sensibilidade do autor dá o tom dos retratos. E é a partir daí que surgem revelações que surpreendem. Dos encontros que Castello teve com Nelson Rodrigues no ano da morte do dramaturgo, surgiu a constatação de que o sempre polêmico Nelson, que fez carreira brilhante no jornalismo nacional com suas crônicas cheias de sarcasmo, era uma pessoa solitária e muito carente.

Apesar do reconhecimento e respeito que gozava em vida, Nelson era um homem só. Das cinco entrevistas que Castello fez com o escritor para compor a reportagem de capa de uma das edições da revista Veja daquele ano, nasceu um sentimento estranho e de difícil explicação. Principalmente por parte do dramaturgo. Tomado pela solidão – apesar dos vários amigos que conservava –, Nelson se apegou ao jornalista que resolveu fazer com ele uma grande reportagem. Ligava seguidamente para Castello para conversar sobre miudezas do dia-a-dia, colocando à mostra – a um desconhecido –, um lado de sua personalidade que poucos conheciam.

Na rabeira dos enigmáticos escritores, Castello traz à tona um Caio Fernando Abreu também pouco conhecido dos leitores. Um escritor que, após saber que era soropositivo, descobriu a vida. Acostumado com as trevas e as lamúrias de uma existência sem sentido, o escritor gaúcho, repentinamente, vê a luz e troca de atitude. Após a constatação da doença, passa a ver alegria nas coisas banais. Um homem que na iminência da morte opta pela vida.

Castello, por meio de um texto envolvente, nos convence que as histórias ali retratadas não são fruto apenas de uma imaginação prodigiosa, nos fazendo crer até nos detalhes menos improváveis. Não há exagero em dizer que as impressões dele passam ser as nossas. No lugar de um punhado de clichês sobre este ou aquele personagem, o leitor passa a conhecer uma versão que também pode ser verdadeira, assim como os clichês nem sempre são mentirosos.

Mas Inventário das sombras não é feito apenas de rápidas impressões. Castello conviveu com alguns dos personagens ali descritos, o que lhe possibilitou realizar retratos mais racionais e menos emocionais. É o caso dos escritores João Rath (Rath não deixou nada escrito, mas mesmo assim é considerado um escritor pelo autor) e João Antonio, que foram seus colegas de redação em jornais cariocas. O primeiro trabalhou no Diário de Notícias com Castello e o mostrou como é ser um escritor que não se dá o trabalho de retratar as próprias histórias; o segundo, João Antonio, foi o escritor que se afogou no realismo da vida. Um homem que morreu desesperado querendo falar, falar e falar. O boêmio que conhecia todas as mesas de sinuca, flanelinhas e párias do Rio de Janeiro e São Paulo.

Entre os estrangeiros o destaque é o encontro com o criador do Novo Romance Francês, Alain Robbe-Grillet. O encontro com Castello, cercado de mistério, saudosismo, desconfiança e mágoa, mostra um Grillet jogado às traças e cheio de sentimentos pouco nobres. Líder de um movimento que um dia se mostrou inovador e revolucionário, o escritor foi condenado, anos depois, a ser só uma página virada – e esquecida – do groso volume que conta a história da fértil literatura francesa. 

Ao entrevistar os escritores que retrata, Castello consegue pôr em prática sonhos antigos. É como leitor – como ele mesmo admite no prólogo do livro – que escreve. É também o leitor apaixonado, que leu incansavelmente as figuras ali esmiuçadas, quem fala, não somente o escritor.

O livro de Castello coloca à mostra a fragilidade humana. Desfaz e reforça, ao mesmo tempo, os mitos que cercam os escritores. Se de um lado mostra pessoas normais com sentimentos comuns, por outro revela seres humanos voltados a preocupações pouco relevantes para a maioria dos mortais.
  
Escrito com paixão e esmero, Inventário das sombras igualmente apaixona. Mais do que descrever a vida de escritores, o livro discute o que é o fazer literário, processo quase sempre doloroso e cruel.

Certamente o grande mérito de Castello não foi ter escolhido os escritores “certos” para um livro de perfis, mas ter transformado Inventário das sombras em um título sem lugar determinado entre os gêneros literários e as prateleiras de livrarias. Mais do que isso, seu mérito está em ter confundido muito mais do que explicado. Afinal esse é um dos papeis da literatura.