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6 a 21 de novembro de 2006

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BELEZA AMERICANA
Pequena Miss Sunshine mostra que ser fracassado não é tão ruim assim
por Fábio Freire (fabiofreire@rabisco.com.br)

uando imaginamos filmes dirigidos por cineastas advindos do universo do videoclipe, vem logo a cabeça superproduções descerebradas, com edição ágil e cenas de ação mirabolantes para encobrir o roteiro que não está lá (60 Segundos, As Panteras, A Hora do Rush). Ou quem sabe filmes com um apuro estético que saltam aos olhos, mas tem pouco ou nada a dizer (Retratos de Uma Obsessão, A Cela). Ou ainda obras que se não são inovadoras, pelo menos apostam em narrativas intrincadas e cheias de reviravoltas (Quero Ser John Malkovich, Clube da Luta, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças). A maior surpresa de Pequena Miss Sunshine é, justamente, remar contra a maré. Concebido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, que ganhou fama dirigindo clipes do Red Hot Chilli Peppers e Smashing Pumpkins, o longa-metragem não passa de mais um filme sobre uma família desajustada. E que filme!

Diante da leva de produções decepcionantes lançadas esse ano, Pequena Miss Sunshine conquista, exatamente, por ser simples e honesto. A narrativa é clássica e sem rodeios. O roteiro é um primor da delicadeza. Os atores (e não astros) estão todos lá, dando a cara para bater em papéis que seriam ridículos se não fossem tão reais. A edição é ágil sem recorrer a cortes epilépticos ou a uma trilha sonora onipresente. E a direção de Dayton e Faris é direta e sem fírulas. O casal acerta ao interferir o mínimo possível na dinâmica da narrativa e não tentar inventar a roda.

Logo de cara somos apresentados aos seis personagens da família Roover. Greg Kinnear é o pai que inventou um método de auto-ajuda que se apóia em nove passos para o sucesso. Com um discurso pronto na ponta da língua, a personagem luta para ser um vencedor, mas não admite o fracasso nem para si, nem para a família. Toni Collette é a mãe que tenta, sem muito êxito, colocar ordem na casa e um pouco de juízo na cabeça dos filhos e marido. Alan Arkin é o avô viciado em heroína e que ajuda a pequena Olive (a fofa Abigail Breslin) nos ensaios da apresentação que a menina fará em um concurso mirim de Miss. Paul Dano é o filho mais velho que fez um voto de silêncio e não fala uma palavra há nove meses. Por fim, Steve Carell (bem mais contido do que nas comédias idiotas que costuma fazer) é o tio fracassado que tentou o suicídio depois de uma série de infortúnios. Resumindo, uma família normal, não muito diferente da minha ou da sua.

Pequena Miss Sunshine se apóia na mistura de duas premissas caras ao cinema americano: a dos road movies e dos filmes sobre conflitos familiares. É durante o trajeto até a Califórnia, onde acontece o tal concurso de Miss, que a família Roover vai se confrontar com uma Kombi amarela que só pega no tranco, um corpo no bagageiro e uma buzina chata que não pára de tocar. Diante de tais circunstâncias, a participação de Olive no evento passa ser uma questão de honra. Lógico que os percalços ao longo da trajetória são os catalisadores das transformações familiares, mas o roteiro não se rende aos clichês e as situações absurdas nunca resvalam para o piegas. Culpa do roteiro, da direção e dos atores que tratam as personagens com carinho e respeito.

Alguns sociólogos de plantão podem até ver o filme como um tratado sobre a obsessão pelo sucesso (e fracasso) que domina a cultura americana contemporânea. Mas a produção está longe de ser um discurso filmado ou de querer defender uma tese. Pequena Miss Sunshine é um belo filme sobre pessoas comuns. O longa-metragem não aponta caminhos. A família Roover não encontra a redenção, apesar de chegar ao destino desejado. E a pequena Olive descobre que, se ser bem sucedido é ser igual às pessoas bizarras do concurso de Miss, então ser fracassado não é tão ruim assim. No final das contas, os membros da família Roover são apenas gente como a gente. E a imagem da Kombi amarela sendo empurrada pelas auto-estradas americanas é, desde já, um dos ícones cinematográficos do ano.