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01 a 16 de dezembro de 2006

Equipe Edições Anteriores

A CASA DO MEU AVÔ
Um passeio pelas memórias da infância nos “Quintais”, de Adriana Lisboa
por Hugo Villa Maior (hmaior79@hotmail.com)

na infância que costumamos experimentar as mais diversas sensações que misturados aos sentimentos acabam por ajudar a construir ao que chamaremos, mais tarde, de memória. Memória no sentido strictu da palavra é algo fragmentário, disperso. Embora, por vezes, alguns acontecimentos nos pareçam bastante vivos, a memória é a linha tênue que separa o real do fictício.  É trabalhando e (re) inventado o conceito de memória que a escritora Adriana Lisboa tece mais um dos fios de sua narrativa: “Quintais”, publicado na antologia 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, é o encontro da autora com sua própria personagem cuja tensão principal é a oposição espaço/tempo; “..o portão se abria para a rua, e ali ficava a casa propriamente dita, e por cima do muro baixo a gente via as cabeças das pessoas que passavam pela rua, sempre tão devagar...”

O tempo da narrativa torna-se algo bastante peculiar, o que  acaba propiciando também um jogo de espaços, de novas possibilidades, convergindo numa leitura comparativa não só entre o quintal e a casa, mas entre os vários quintais da casa de seu avô, que a autora enumera cuidadosamente, o que acaba se transformando numa surpresa para o leitor. Assim todo texto é construído nos despertando para os inúmeros gostos, cheiros e texturas da infância, “... Às vezes vinha dar na varanda o cheiro do rio, um cheiro de pano e de barro. Na garagem descoberta, sobre os cascalhos, dormia a Variant marrom do meu avô...”

No conto, a narradora-personagem faz um convite ao leitor para uma viagem (talvez, sem volta ) pelas memórias de sua infância. “Na casa do meu avô havia quatro quintais...”, assim Adriana começa seu texto, presenteando o leitor com um inventário delicado de histórias e lembranças, resultado do cruzamento de vários fios tecidos no tempo em que se subia em árvores, abacateiros e goiabeira, o que curiosamente convergiu num belíssimo texto, e por que não dizer num tecido que a própria palavra texto remete?

O subconsciente é a metáfora de um quarto fechado na infância da autora, batizado carinhosamente de petit trianon,  “... À esquerda, separado por um muro com uma passagem, ficava o universo dos abacateiros e o quartinho que o meu avô chamava de Petit Trianon...Eu não me lembro para que servia, ficava quase sempre fechado. Mas eu tinha pesadelos com ele...”. Petit Trianon parecia ser mesmo o universo dos desejos mais escondidos da escritora (ou personagem, não se sabe ao certo) na infância.

O desconhecido mistura-se também ao proibido que, invariavelmente, relaciona-se ao espaço do desejo e passa a ganhar, sobretudo na infância, um gosto de aventura. O último quintal da casa de seu avô era aquele no qual uma criança  não podia penetrar e que, por isso mesmo, convertia-se no mais charmoso e tentador de todos quintais, o que guardava as mais belas histórias, o mais doces e saborosos frutos, separado do resto da casa por um muro que parecia guardar a entrada do paraíso: “...Havia o muro, mas na passagem tinha um portãozinho baixo de madeira, que às vezes a gente pulava por prazer. Lá só havia mato. Árvores altas, sombras, coisas indizíveis se arrastando junto às raízes, barulhos de insetos que nunca existiram de se ver. Lá fazia calor e férias, invariavelmente, mas também podia cair chuva, e a chuva ficava guardada para os nossos pés no tapete de folhas velhas, de frutos podres, de vermes lentos e moles...”

Assim vai se costurando ao texto, aparentemente simples, com gosto de sorvete, mesmo em dias de frio, bolinhos –de-chuva e diabruras de criança, o tom de uma saudável melancolia que se mistura, em certos momentos, com episódios tristes, ainda que de uma  infância feliz: “...Uma vez minha irmã caiu de uma goiabeira, a barriga enterrou numa torneira e ela foi parar no hospital...” 

Ao longo de todo texto, a escritora, que  já foi flautista e professora antes de se dedicar exclusivamente à literatura, mapeia os quintais da casa do avô, como ela mesma diz, e nos instiga, ao mesmo tempo, a encontrar os nossos próprios quintais, entende-se aí “quintais”, como o lugar do lúdico, do sonho, da brincadeira e do prazer sem limites, do qual só é possível experiênciar-se quando se é criança, ou quando se torna a sê-lo.