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01 a 16 de dezembro de 2006

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SOBRE DÁLIAS E SALVAÇÃO
James Ellroy exorciza o passado se inserindo no âmago do clima noir em Dália Negra
por Lon Andrade (eron_andrade@hotmail.com)

ames Ellroy poderia ser um dos personagens que circulam em suas obras. Assim como amarrou os conflitos de suas criaturas, o criador Ellroy também vivenciou momentos de perdição e salvação numa Califórnia pós-guerra. Vítima e algoz de uma sociedade violenta, ele roubou, se envolveu com drogas, foi preso, se regenerou, dedicou-se a literatura. Como acontece nas melhores entrelinhas do gênero noir, a salvação veio com a obsessão pelo assassinato de Elizabeth Short.

A jovem encontrada morta num terreno baldio tornou-se um evento para mídia, mas para ele, que passou a investigar o assassinato dela por conta própria, Elizabeth Short era a substituta simbiótica de Gene Ellroy, sua mãe, que morreu também assassinada quando James ainda era criança. Pesquisando freneticamente a verdade em torno do crime batizado pelos jornais como black dahlia (Dália Negra), James Ellroy mergulhou na história de Elizabeth Short, que, assim como ele, era parte de um submundo intumescido pela paixão, violência e brutalidade.

Não ficando restrito apenas aos recortes de jornais, o romance que colocou Ellroy na lista dos grandes escritores do gênero de crime e mistério é um belo passeio numa galeria de grandes personagens. Dália Negra, como ele intitulou sua obra, não é apenas sobre o assassinato de uma jovem. É, também, uma vitrine onde o escritor mostra o seu poder de desnudar o interior de tipos próximos a ele.
A começar pelos dois detetives que investigam o caso, dois ex-pugilistas que lutam contra o próprio passado para solucionar o crime. Bleichert e Blanchard são personagens-artifícios que Ellroy utiliza para conduzir o leitor no seu mundo dos jogos de política, perversões sexuais, drogas, violência e muita corrupção. Dália Negra é, acima de tudo, uma tentativa que James Ellroy utiliza para exorcizar os pesados fantasmas do seu passado. Nele, o escritor mergulha na história real do brutal assassinato da aspirante a atriz, Beth Short, escolhe um pano de fundo, a Hollywood dos anos 50, e lida com a morte da própria mãe.

Sombras e fatalidade - Cenário comumente utilizado em obras posteriores, o clima noir que permeia as páginas de Ellroy é composto de maneira irregular, alucinante e eficaz. Como corrente, o noir surgiu num tempo em que o cinema não passava de sonho na cabeça de alguns. Os precursores, como Edgar Allan Poe e Conan Doyle, escreveram no século 19, antes mesmo dos irmãos Lumière apresentarem o cinematógrafo ao mundo. Na sétima arte, noir, como os franceses apelidaram o estilo de filme americano que chegava aos cinemas da França com 5 anos de atraso, devido a segunda guerra mundial, representava uma evolução dos filmes policias feitos até então.

Filmes com personagens desiludidos, tanto os vilões como mocinhos, situações de perversão ou transgressão moral, filmes que abusavam da estética fechada, de cenas obscuras, acentuando as sombras e marcando o ar de fatalidade. James Ellroy capta a essência desse clima, bebe na fonte escrita e na fonte filmada, estabelecendo em suas narrativas a vivacidade que leva o leitor rapidamente ao díspar e obscuro universo noir. Tal universo é sempre depositado em um labirinto suntuoso por Ellroy.

No Cinema - Uma adaptação para o cinema de suas obras demanda um mergulho na perspectiva dos criminosos, não da polícia, e uma imersão na canalhice das alianças e lealdades instáveis. Ao adaptar Dália Negra para os cinemas, Brian De Palma viaja na história de Ellroy e compõe sua versão cinematográfica com todos elementos dos quais também conhece de perto. De Palma é para alguns um virtuosi do cinema, para outros um técnico sem coração, mas, assim como James Ellroy, o diretor aceita o universo noir como meio de expor suas histórias.

Dália Negra de De Palma se ergue no conceito de dubiedade, não foge aos personagem duvidosos e apresenta um longa bonito aos olhos, com seus característicos ângulos de câmera bastante fluidos. Mas Dália Negra de De Palma não tem a mesma paixão das páginas de Ellroy. O diretor viaja no clima noir como admirador, Ellroy viaja como parte desse mundo. James Ellroy é um viciado que se tornou especialista em diagnósticos, uma vítima de doenças que agora disseca a corrupção de corpos vivos. A obra de De Palma é atraente, a de Ellroy é vital.