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01 a 16 de dezembro de 2006

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ENIGMA DO HORIZONTE
Fonte da Vida mistura efeitos hipongas, questões existenciais e Hugh Jackman
por Fábio Freire (fabiofreire@rabisco.com.br)

onte da Vida vem sendo vendido como mais um blockbuster milionário e estrelado pelo Wolverine, ou melhor, pelo astro Hugh Jackman (visto recentemente em O Grande Truque). O engraçado é que o filme não tem nada disso e tem tudo para fracassar nos multiplex da vida pelo simples fato de ser inteligente demais para o público médio que lota as sessões de Jogos Mortais 3, O Bicho Vai Pegar ou coisa que o valha. Fonte da Vida é, na verdade, um misto de romance e ficção científica existencialista que lida com temas interessantes como a morte, a busca pela juventude e o amor eterno.

Dividido em três linhas narrativas, a produção traz Hugh Jackman como três homens em situações-limite em diferentes épocas. Tomas é um conquistador espanhol, em meados do século 16, que não mede esforços para cumprir uma missão estabelecida pela rainha Isabel (Rachel Weisz). Tommy é um cirurgião contemporâneo obcecado em encontrar a cura para o mal que acomete sua esposa (mais uma vez Rachel Weisz). Já Tom é um explorador espacial atormentado por visões de Izzy (Weisz) e que viaja pelo nada em busca de respostas para seus anseios.

Dirigido de forma apaixonada por Darren Aronofsky, que comeu o pão que os produtores de Hollywood amassaram para ver o filme sair do papel, Fonte da Vida é uma experiência singular e difícil de ser vista nos cinemas hoje em dia. Deixando de lado uma narrativa linear e mais convencional, no qual o desenlace dos acontecimentos é o mais importante, Aronofsky apela para as emoções despertadas pelos eventos retratados na tela, abrindo uma série de possibilidades interpretativas que vai depender do estado de espírito e bagagem sentimental de cada espectador. Quem for assistir ao longa-metragem tentando, simplesmente, entender a trama, vai quebrar a cara. Fonte da Vida não é para ser entendido, mas vivido como uma viagem lisérgica cheia de poesia e filosofia.

A gramática fílmica utiliza por Aronofsky ajuda a compor o clima etéreo da produção. A montagem paralela e entrecortada das três linhas narrativas é costurada pela edição de forma fluida e nunca confusa. A trilha sonora melancólica pontua todo o filme e a direção de arte, figurinos e fotografia dão o tom da ousadia visual de Fonte da Vida. Aronofsky abandona a claustrofobia e pessimismo dos trabalhos anteriores ( e Réquiem para um Sonho) e adota uma câmera mais contemplativa, sem a profusão de telas partidas e efeitos de edição que viraram sua marca. Talvez o filme exagere um pouco nos efeitos especiais “nova era” que pululam na tela, principalmente na parte final do longa. Mas qualquer deslize é compensado pela originalidade do roteiro (do próprio Aronofsky), pela direção criativa e pela entrega dos atores a seus papéis.

Mesmo aparecendo pouco, Rachel Weisz deixa sua marca ao interpretar uma personagem frágil, doce e sensual. Não é difícil de entender porque toda a jornada do filme gire em torno dela. Já Hugh Jackman se despe da fantasia de galã e compõe três homens com objetivos diversos, mas movidos pela mesma busca. Ora com o cabelo e barba desgrenhados, ora careca ou exibindo rugas e expressões faciais incomuns a um galã, o ator atinge uma carga dramática inédita em sua carreira.

No final das contas, Fonte da Vida é um grande filme independente bancado por um estúdio hollyoodiano desavisado. O longa tem grandes chances de desagradar a maioria do público e não abre espaços para opiniões em cima do muro. Ou se ama a melancolia, o esoterismo da trama e a complexidade de temas simples: o medo da morte e a perda da pessoa amada. Ou se odeia a pretensão narrativa e visual e os efeitos “hipongas” que, em determinado momento, transformam Hugh Jackman em um Buda dourado e pós-moderno. Mas só o fato de ser mais do que um entretenimento vazio, em um ano dominado por eles, já salva Fonte da Vida da efemeridade destinada aos filmes comuns.