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01 a 16 de dezembro de 2006

Equipe Edições Anteriores

IMAGEM NÃO É NADA, TEXTO É TUDO
Inspirada na The New Yorker, a Revista Piauí tem tudo para se tornar referência de bom texto no país
por Luiz Rebinski (jrrebinski@yahoo.com.br)

Revista Piauí foi um dos lançamentos mais aguardados do mercado editorial brasileiro dos últimos anos. Motivo de furor nas bancas do país, o primeiro número, com tiragem inicial de 40 mil exemplares, esgotou-se rapidamente. Idealizada pelo documentarista João Moreira Salles, a Piauí nasceu com a missão de preencher uma lacuna no jornalismo nacional: a da grande reportagem. Influenciada abertamente pela norte-americana The New Yorker, revista com 80 anos de história e que já abrigou nomes como o de Truman Capote, Ernest Hemingway e Jonh Cheever, a Piauí aposta em uma linha editorial em que os pequenos temas e as amenidades do dia-a-dia ganham destaque.

Para isso, logo de cara, escalou um time de primeira linha. Entre os colaboradores do número inicial há gente escolada no jornalismo nacional como Danuza Leão, que nos brinda com um elegante perfil sobre o estilista das noivas Guilherme Guimarães, e Roberto Pompeu de Toledo, que fala sobre o papagaio como símbolo de nossa nacionalidade. Ivan Lessa, depois de quase 30 anos longe do Rio, escreve um longo diário sobre o reencontro com a pátria mãe.

Bem trabalhados, os textos vão além do óbvio e da efemeridade do jornalismo diário, que, aliás, nunca tem tempo e espaço para algo mais do que o básico. Vanessa Barbara, uma blogueira descoberta pela Redação de Piauí, descreve, em um texto riquíssimo, como é o universo dos atendentes de telemarketing. Com humor e habilidade, Barbara revela as desventuras da arte de atender e vender pelo telefone. Simplesmente hilário.

Na esteira dos acontecimentos políticos, em uma seção do periódico chamada “Histórias da História”, ficamos sabendo detalhes da entrevista, feita pelo jornalista do The New York Times Herbert Matthews, que transformou Fidel Castro em mito. Se isso não bastasse, a capa ficou por conta do cartunista mais bacana do Brasil. Angeli desenha um singelo pingüim de geladeira com boina de Che Guevara. Algo certamente bem kitsch. O debute de Piauí ainda traz “Miriam”, um conto inédito de Rubem Fonseca, e muitas outras histórias tão interessantes quanto bem escritas. 

Piauí?

O nome do periódico é ainda uma incógnita mesmo para  Salles, o dono da revista que um dia acordou com o nome do Estado brasileiro mais pobre na cabeça e cismou que este seria o título de seu rebento. Bem, se não foi o nome mais bacana do mundo, pelo menos serviu para atiçar o imaginário dos leitores, que dificilmente deixam de indagar sobre a origem de Piauí.

A revista também surge em um momento decisivo para o jornalismo brasileiro – mundial? Em crise, as redações estão cada vez mais enxutas, com textos que acompanham essa tendência. Alias, hoje é bastante raro ler uma matéria que ultrapasse meia página de jornal e não tenha a estrutura clássica e burocrática do texto jornalístico norte-americano em que o jornalista escreve a mesma coisa que, logo na seqüência, o entrevistado vai repetir, só que com outras palavras.

O jornalismo literário que a Piauí se propõe a fazer foi tardiamente descoberto no Brasil. Ainda que Os sertões seja louvado como um dos textos jornalísticos mais fantásticos da História, a grande reportagem como “ofício” quase não existiu no país. É claro que tivermos iniciativas como a de Joel Silveira, que produziu textos e perfis excelentes. Os mais saudosistas lembrarão ainda da finada Manchete. Mas essa era muito mais uma revista de entretenimento do que de grandes reportagens. Portanto nesse quesito, do ponto de vista editorial, ainda engatinhamos. É nesse contexto que Piauí ganha importância.
Mais do que ser uma referência em bom texto, o grande desafio da Piauí será tentar ultrapassar a barreira dos leitores cativos que a revista, antes mesmo de sair, já conquistara. Tendo temas do dia-a-dia como matéria prima, terá a incumbência de levar esses assuntos a quem está acostumado a ser tratado apenas como estatística e não como leitor. Em outras palavras, precisa se desvencilhar da pecha de “revista de intelectual” usada para definir, por exemplo, a Bravo!, uma de suas concorrentes mais imediatas no campo editorial.

Com uma equipe de Redação de primeira linha, tem o experiente jornalista Mario Sergio Conti no comando e colaboradores como Cassiano Elek Machado, que trabalhou na Folha de São Paulo e na Revista Trip. Na contramão da imprensa nacional, em que os veículos de mídia impressa tentam cada vez mais afunilar o conteúdo em detrimento das imagens, em uma errônea estratégia que visa competir com a internet, a revista de Salles aposta no texto como meio de transformação do homem. Algo fora de moda, mas excelente.