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01 a 16 de dezembro de 2006

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UM OBSERVADOR DA VIDA NA AMÉRICA
Morreu Robert Altman, o criador de geniais “afrescos” cinematográficos como Nashville e O Jogador
por Fernando Américo (feramerico@yahoo.com.br)

ste ano, na cerimônia do Oscar, Robert Altman recebeu um Oscar honorário – a solução da Academia para os erros que não podem mais ser consertados. Para chamar Altman ao palco, Lilly Tomlin e Meryl Streep – que fazem parte do último filme de Altman, A Última Noite – fizeram, no palco, um “momento Altman”, interrompendo uma à outra, falando o texto como se fosse de improviso. O momento, mágico, que quebrou a dureza do cerimonial e trouxe um sopro de ar fresco a uma festa engessada, pode ser visto no youtube e foi uma homenagem certeira ao mestre dos afrescos cinematográficos. Como Meryl Streep e Lilly Tomlin no palco do Oscar, Altman, em sua carreira, só queria quebrar os moldes da convenção cinematográfica, evitando os diálogos perfeitos, as viradas dramáticas, o artificialismo e o estrelismo.

Robert Altman (que morreu no último dia 20 de novembro) via o cinema como um sonho coletivo. Seus melhores filmes são aqueles que se fundam numa só idéia, idéia esta que é a principal personagem do filme. Em Nashville, é o paraíso e o inferno do espetáculo; em O Jogador, a ironia suprema de que o personagem que mais se dá bem no mundo do cinema – o produtor – nunca criou nada, apenas negociou em cima do talento de outrem. Em Shortcuts, acompanhamos um dia na vida de vários moradores de Los Angeles, todas vidas comuns à espera de algo, um abraço, uma carícia, um tiro, um assassinato, um terremoto.

Pedaços da Vida – O cineasta, em sua tradição humanista, não julga nenhum personagem. Em Shortcuts, todos os personagens têm seu momento, uma epifania, uma compreensão maior de sua própria vida, através da raiva, do amor, do ciúme, da paixão, da inveja, da ironia, do assassinato. Cada personagem toma seu atalho em sua jornada; alguns chegam aonde queriam, outros ficam pelo caminho; todos sentem o chão vibrar sob seus pés, mas a vida continua. Shortcuts é um pouco o resumo de todos os filmes de Altman, de sua obsessão pelo recorte da vida em seu momento mais importante, de sua visão barroca de abarcar o mundo com sua câmera, de captar a verdade de cada um – às vezes sem diálogos, apenas com olhares. Altman tinha a obsessão pelos momentos estendidos, pelas combinações de elenco inusitadas, pelas mudanças de tom (do dramático ao cômico e vice-versa), e pelo seu amor aos atores e sua capacidade de improviso.

Os colaboradores do diretor são unânimes em afirmar que, nos filmes de Robert Altman, as tradicionais dailies (reuniões do elenco e equipe técnica para ver o que foi filmado durante o dia) eram um verdadeiro acontecimento, regado a muito vinho e discussões filosóficas. Às vezes, estas discussões eram incorporadas ao filme, mas outras vezes, elas apenas serviam para relaxar e unir a equipe em torno do que era mais importante – o filme. Engana-se quem pensa que o cineasta era um bufão, um inconsequente que fazia o filme para curtir com os amigos. Altman era o comandante deste “caos organizado”, como ele mesmo gostava de chamar os seus filmes. E se a “nau dos insensatos” tomasse um rumo inesperado, ele sabia como fazer tudo voltar aos eixos. Altman foi conquistando seu espaço na galeria de grandes diretores americanos com seu estilo inconfundível e sua capacidade de injetar inovação em gêneros que se pensava esgotados: o noir (O Grande Adeus, adaptação inusitada de Raymond Chandler), o faroeste (Quando os Homens são Homens) e principalmente, o filme de guerra (M.A.S.H., lançado em plena Guerra do Vietnã).

Como Tudo Começou – M.A.S.H. foi realmente o início de Altman como um diretor importante. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e concorreu a vários Oscars. A comédia de humor negro representa o melhor de Robert Altman – a capacidade de chocar, de abusar, de desmontar a instituição Exército, de tirar da Guerra no cinema o caráter épico, deixando apenas o sórdido – mas também o seu pior – os excessos, o pendor por uma pregação quase política, que faziam do Altman dos anos 70 um diretor muito convencido de si mesmo.

Não me entendam mal; Nashville, O Grande Adeus e O casamento merecem figurar em qualquer antologia do diretor; mas há filmes dos anos 70 em que o cineasta se excede, como Imagens, um filme poético em que o diretor opta por um discurso hermético, alheio às platéias do período, que preferiam se entupir de Guerra nas Estrelas e Tubarão. Era o final da década de 70, em que os diretores perdiam o poder que tinham tido desde 1969.

O marco zero do fim da Era dos Diretores geralmente é considerado como a estréia de O Portal do Paraíso, filme de Michael Cimino que levou a United Artists à bancarrrota. Mas dois filmes do período ajudaram a jogar uma pá de cal sobre o poder dos diretores: O Fundo do Coração, a fantasia romântica pós-moderna de Francis Ford Coppola e Popeye, adaptação iconoclasta de Robert Altman para o amado personagem de desenhos animados viciado em espinafre. Altman estava cada vez mais afastado do público que pagava para ir aos cinemas.

A Volta Por Cima– Neste período, Altman não ficou parado: dirigiu teatro, voltou às suas raízes de televisão, dirigiu filmes em outros países… Até que chegou 1992 e Altman lançou O Jogador, uma  sátira feroz a Hollywood e seus “coiotes”, os produtores que fazem de tudo para garantir o lucro dos estúdios. Griffin Mill é um homem sem coração, vazio, um homem que apenas faz o seu negócio, até que é ameaçado por um roteirista cuja história ele rejeitou. O roteirista em questão é assassinado por Griffin, que se envolve com sua namorada, corre da Polícia, e ainda arranja tempo para lutar contra um rival que quer seu emprego. Mas, como diria Bertold Brecht, “o homem mau dorme bem”, e Griffin ainda tem direito a um final feliz.

A constatação de Altman é amarga: é este personagem que é o herói de Hollywood. Todos os outros, os que têm princípios, ou se vendem (como os roteiristas que queriam “criar algo menos Hollywood” e acabam criando um filmeco de ação com Bruce Willis e Julia Roberts) ou são expulsos do jogo (a primeira namorada de Griffin, que acaba o filme dando um vexame fenomenal, chorando na escada do estúdio). Em Hollywood, os fracos não sobrevivem. O Jogador é a vingança de Altman contra todos os Griffins Mills que ele já encontrou na vida, aqueles que barram a criatividade em nome do lucro, mas que mesmo assim conseguem um final feliz.

Mas Altman não parou por aí: depois de O Jogador, realizou seu maior projeto pessoal, a adaptação de contos de Raymond Carver que se tornou Shortcuts, uma sátira ao mundo da moda (Pret-a-Porter), uma comédia de erros sulista (A fortuna de Cookie) e principalmente Gosford Park¸ deliciosa mistura de comédia, filme policial à inglesa, comentário social e história de vingança, com atuações primorosas de duas damas do teatro e cinema ingleses: Maggie Smith e Helen Mirren.

O último filme de Robert Altman estréia no Brasil ainda este ano: A Última Noite é uma brincadeira com um dos maiores ícones do rádio americano, Garrison Keilor. Altman imagina como seria a última emissão de seu famoso programa de rádio, A Prairie Home Companion. Junte-se a esta idéia original um elenco de estrelas com feras como Meryl Streep, Lilly Tomlin, Lindsay Lohan, Kevin Kline, Tommy Lee Jones, Virginia Madsen e outros. Todos eles passarão pela tela por algum momento, todos eles terão seu espaço no grande mural cinematográfico da vida americana que é a obra de Robert Altman.