Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

02 a 17 de janeiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

AS MULHERES DE UM FESCENINO
Além da violência e do sexo, características marcantes em sua obra, Rubem Fonseca aposta na ironia e no humor fino para construir bons contos em Ela e outras mulheres
por Luiz Rebinski Jr (jrrebinski@yahoo.com.br)

omo é de praxe, o lançamento do último livro de Rubem Fonseca causou furor no mercado editorial brasileiro, movimentando crítica e leitores. Ainda mais porque Ela e outras mulheres, novo rebento do recluso escritor, é uma compilação de contos, gênero que deu a Fonseca o status de grande escritor e onde sua literatura é mais criativa e incisiva.

Dividido em 27 narrativas breves, a obra traz todos os elementos da ficção fonsequiana que tanto atraem os leitores brasileiros. Batizados com nomes de mulheres e seguindo a ordem do nosso alfabeto, os contos estão permeados de violência, sexo, desejo, ambição, pobreza, discórdia, miséria e luxo. Em suma, tudo o que fez de Rubem Fonseca um dos contistas mais aclamados do Brasil.

Já nas primeiras páginas percebe-se que o escritor continua em boa forma. Após livros medianos como Mandrake: a bíblia e a bengala, Fonseca se reencontra com a boa literatura. Contos como “Jéssica” e “Laurinha’’ remetem de imediato às histórias mais violentas e cruas do escritor, tal como o clássico “O cobrador”, do livro homônimo de 1979. Na primeira delas, o escritor vale-se de humor fino para contar a história de um adultério que acaba de forma surpreendente. Já na segunda, em um dos melhores contos do livro, o pai de uma menina assassinada de forma bárbara se vinga do algoz da filha de maneira cinematográfica, quebrando todos os ossos do bandido e queimando-o vivo logo em seguida. A narrativa policial também está bastante presente em “Teresa” e “Marta”, histórias de tensão em que um assassino de aluguel, que alias freqüenta outras tramas, mostra muita habilidade em casos difíceis.

Além das características próprias da prosa de Fonseca, Ela e outras mulheres trabalha com temas delicados e pouco vistos em trabalhos anteriores. É o caso de “Alice”, conto que abre o livro e que narra um caso de pedofilia às avessas – aqui uma mulher é a criminosa – que termina com final feliz. Aliás, o final surpreendente, bastante marcante nas tramas do autor, deixa de aparecer na maioria das histórias da coletânea. Outra característica significativa é a falta de aspas e travessões nos diálogos. Fonseca não distingue as falas dos personagens, detalhe que se por um lado exige mais atenção do leitor, por outro deixa o texto mais veloz. 

No entanto, fora os temas inusitados e uma ou outra mudança na estrutura da narrativa, a prosa de Rubem Fonseca continua envolvente, mordaz e pungente. Pode-se dizer, porém, que a essas características soma-se, no novo livro, uma leve ironia, bastante presente principalmente nos contos de menos ação.   

Opção Literária

Criticado por boa parte da impressa especializada por insistir em histórias de violência e sexo, o escritor parece não se importar muito com tais opiniões. Porém, é visível que Fonseca está procurando ser mais sucinto e econômico em seus relatos, sem que, no entanto, haja dano à sua literatura. Se escrever menos pode ser considerado um indício de maturidade literária, então Fonseca está no caminho certo.

Para boa parcela dos críticos brasileiros há um desgaste na escrita de Rubem Fonseca, causada justamente por essa obsessão por esses temas. Ao entrar neste assunto, é praticamente impossível não lembrar de Dalton Trevisan, outro escritor bastante criticado por estar se “repetindo”.

No caso de Rubem Fonseca a crítica parece fora de tom, já que o escritor nunca praticou uma literatura burocrática ou se fez refém de fórmulas prontas. Pelo contrário, sempre tentou surpreender o leitor com coisas novas. Um exemplo disso é Secreções, excreções e desatinos, livro de 2001 em que o autor aposta em temas pouco ortodoxos como a escatologia. É claro que sua carreira como romancista não tem o mesmo brilho que sua produção de contos, fato que não chega comprometer sua trajetória como escritor.

Além do mais, é preciso ter em mente que escrever sobre as angústias de uma sociedade essencialmente urbana – e ser identificado por essa característica – é uma opção literária feita pelo escritor ainda nos anos 1960 e intensificada na década seguinte com livros como Feliz ano novo. Ou seja, Rubem Fonseca vai ser sempre Rubem Fonseca, assim como Falkner sempre será identificado pela prosa caótica que deixou.

Ainda necessário

Em um país com índices de criminalidade e violência altíssimos, onde as más notícias se abundam nos noticiários, talvez a literatura de Fonseca fosse dispensável. Por que inventar o caos se ele está bem debaixo dos nossos narizes e é tão real?, indagariam os mais incautos. Porém, a prosa de Fonseca pode ser vista como uma espécie de espelho que reflete a realidade por meio da literatura. Mais do que dialogar com os leitores sobre temas que incomodam, sua escrita coloca o ser humano no centro de todas as coisas, revelando a complexidade de uma existência quase sempre sem sentido. Exemplo claro desse flerte existencial, que quase sempre aparece velado por diálogos e frase banais, é a atitude libertária do matador profissional Zé, do conto “Teresa”. O personagem, depois de vingar uma velhinha mantida refém dos enteados e de ser acometido por um inexplicável sentimento de estranheza, simplesmente abandona a profissão, sem saber para onde ir nem o que fazer.

Esse sentimento radical é bastante familiar a quem vive o agitado dia-a-dia dos grandes centros. Afinal quem nunca teve vontade de largar tudo, deixar as obrigações sufocantes para trás e começar tudo de novo, só que por caminhos diferentes? É aí que reside o grande barato da literatura de Fonseca, fazer das coisas banais do cotidiano uma reflexão de nossos problemas e anseios.  Isso torna Rubem Fonseca, aos 81 anos, uma das vozes mais importantes da literatura nacional. Não apenas porque é um grande autor e continua produzindo, mas porque sua literatura ainda se mostra necessária. E isso basta.