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02 a 17 de janeiro de 2007

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CAMPEÕES DE ORGANIZAÇÃO
Campeonato Brasileiro de 2006 mostra abismo entre clubes que possuem estrutura e planejamento e aqueles que vivem afundados na tradição do passado e no amadorismo
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

Campeonato Brasileiro deste ano demonstrou o que acontece com quem trabalha duro e com quem ainda trata o futebol como uma coisa amadora, do início do século passado. Enquanto os times de maior estabilidade, estrutura e planejamento conquistam títulos e reconhecimento, os que usam o clube como feudos, dividindo os lucros entre si, gerindo com desleixo, crendo na tradição clubística e na falta de rigor do governo federal, seguem a afundar na incompetência e no fracasso. E a competição nacional foi uma prova viva dessa disparidade.

O São Paulo foi o grande campeão, com 78 pontos, nove a mais que o Internacional, segundo colocado na tabela de classificação. A campanha foi impressionante: após a Copa do Mundo, o time assumiu a liderança na 12ª rodada, com uma vitória sobre o Figueirense no Morumbi por 2 x 1, no dia 15 de julho, com gol do zagueiro André Dias no último minuto da partida, abrindo o caminho para a conquista do tetracampeonato nacional do tricolor, igualando ao Vasco, Corinthians e Palmeiras, que possuem o mesmo número de conquistas. O Flamengo venceu cinco Brasileiros, levando-se em conta a Copa União de 1987, que, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), considera o Sport Recife como campeão, devido a uma confusão na época em que dois torneios distintos foram disputados e que os dois clubes venceram  - o Flamengo ganhou o que tinham os clubes do que seria a Primeira Divisão e o Sport obteve o título no que seria uma Segunda Divisão.

Após a derrota na finalíssima da Libertadores para o Internacional, em agosto, o São Paulo sentiu na carne a dor e a pressão do fracasso, com críticas vindo de vários lados da torcida e da imprensa, principalmente ao trabalho do técnico Muricy Ramalho, hoje, bicampeão do prêmio da CBF dado ao melhor técnico da competição, já que venceu ano passado também, quando trabalhou no Inter. Depois de uma reunião entre os jogadores e o treinador, os ponteiros foram acertados e o time não deixou dúvidas de quem levaria a taça.

Com 28 rodadas consecutivas no topo da tabela, o tricolor bateu o recorde de tempo na liderança e terminou a competição como campeão do primeiro e do segundo turnos (obtendo os respectivos troféus Osmar Santos e João Saldanha, cedidos pelo diário esportivo Lance!), melhor ataque, melhor defesa (fato inédito nos pontos corridos), mais vitórias, com 22, e menos derrotas, com apenas 4. Enfim, um ano que se mostrava um desastre para o torcedor, com três vice-campeonatos seguidos, fortaleceu a imagem de 2005: uma das melhores equipes do Brasil, muito à frente dos seus adversários.

E esse mérito, que também possui o Internacional – não é a toa que obteve a Libertadores – está no planejamento e na estrutura, tão decantados pela imprensa hoje em dia como o oásis no deserto, a meta a ser alcançada. Olheiros em todos os cantos do país, jogadores escolhidos a dedo, respeitando as características da forma de jogar do time, sem problemas físicos (exceção do Aloísio, que mais vive no departamento médico do que no campo, mas compensa por ser decisivo quando entra), atletas de personalidade e de grupo, que não vão tumultuar o ambiente.

E muito mais: grupo interdisciplinar, com nutricionista, fisiologista, preparador físico, massagista, aparelhos de última geração, salário em dia (obrigação cada vez menos cumpridas pelos clubes brasileiros), suporte no que for necessário. Não é a toa que muitos jogadores dizem que para sair do São Paulo só se for para o exterior. Aliás, isso foi até o que Muricy Ramalho disse sobre uma suposta oferta do Santos ao meio campo Mineiro, quando o treinador comentou que para sair do tricolor deve ser somente para grandes clubes europeus.

E o mesmo pode ser dito para o colorado, que tem modernizado seu estádio, conta com profissionais de gabarito em sua comissão técnica – por exemplo, o preparador físico Paulo Paixão, da Seleção Brasileira – e revela muitos jogadores excelentes, como Nilmar, Rafael Sóbis, Daniel Carvalho e agora o tal Alexandre Pato, que, em 45 minutos de bola em campo já é considerado o grande craque dos gramados tupiniquins.

Bons degraus para o alto

Outras equipes que não tiveram um sucesso pleno, mas alcançaram objetivos bastante interessantes – afinal, não dá para todo mundo vencer o mesmo campeonato no mesmo ano –, casos do Grêmio que, saiu da Segunda Divisão do Brasileirão em 2005 para ser terceiro colocado no nacional deste ano, classificando-se para a Libertadores de 2007, com um time barato e um técnico muito competente que é Mano Menezes, dos melhores da competição. O Santos, apesar das divergências atuais entre o presidente do clube, Marcelo Teixeira, e o técnico da equipe, Vanderlei Luxemburgo, quanto ao planejamento feito para o ano, também deve ser destacado, pois alcançou o título paulista depois de 22 anos e voltou à Libertadores, com sua quarta posição no certame.

O Paraná Clube conseguiu uma classificação histórica para o torneio sul-americano, obtendo a vaga na última rodada, e superando o Vasco da Gama. Com atletas trazidos numa parceria com uma empresa que agencia profissionais da bola - e isso pode ser um problema, pois são jogadores de passagem, podendo quase ser chamados de aluguel -, o time paranaense, liderado por uma revelação em técnico de futebol, o ex-jogador Caio Junior, obteve uma vaga heróica para um clube pequeno e novo, que deseja almejar degraus mais altos no mundo do futebol.

Aliás, Caio Junior, para mim, foi o melhor treinador do campeonato, pois, conseguir levar um time pequeno à quinta colocação e uma vaga na Libertadores, desbancando um monte de gente, e principalmente o poderoso Vasco do Eurico Miranda, não é para qualquer um. Interessante notar é que todos esses clubes mantiveram seus técnicos durante o ano todo, inclusive o Vasco. Bem, não foi a toa que a campanha foi boa. O desafio agora para todas essas equipes é manter o alto patamar ano que vem.

Do outro lado...

Ao menos, conseguiram algum destaque na temporada, ao contrário de Corinthians, Palmeiras, Botafogo e Fluminense, que colecionaram fracassos e agora comemoram não ter caído, uma vaga na Copa Sul-Americana que ninguém quer jogar e colocações pífias para a grandeza histórica dessas agremiações. O Palmeiras e o Fluminense por exemplo, escaparam do rebaixamento apenas na penúltima rodada, graças ao empenho da Ponte Preta em cair à série B. o Botafogo comemorou a décima primeira colocação e projeta algo melhor para o ano que vem. Cuca é um bom técnico, mas não faz milagres, e o Fogão precisa de grana para investir em jogadores qualificados.

Já o Corinthians vibra – ao menos seu técnico, Émerson Leão -  até agora por ter terminado na nona posição, saído da lanterna, etc. Bem, depois do caos que se desenrolou em 2006, em que a compra do Corinthians pela MSI durante 10 anos se mostrou uma verdadeira bagunça – aliás, mostrou para os cegos, porque ela sempre pareceu o que acontece hoje -, não cair até que foi um feito.

O Flamengo, não citado na relação acima, concluiu sua participação na décima primeira posição, mas, como ganhou a Copa do Brasil no primeiro semestre, tem seu desempenho no nacional minimizado. E o engraçado é que os cronistas cariocas dizem ter havido evolução no futebol daquele estado. Resta saber qual evolução em que o não-rebaixamento é comemorado. E o mesmo vale para Palmeiras e Corinthians. Detalhe: todos esses times citados que não foram bem na temporada trocaram de técnico ao menos uma vez, dificultando a preparação e o desenvolvimento de um planejamento adequado para o ano.

Com tudo isso, o que esperar em 2007 desses clubes? É o que suas torcidas perguntam e seus dirigentes querem fugir de responder. Enquanto isso, os que já estão um passo à frente, mantém seus treinadores, contratam atletas de gabarito, investem no clube e não no bolso dos dirigentes, se preocupam em melhorar sua estrutura e antecipam o planejamento. Olham longe. Esses já começam os campeonatos de 2007 com pontuação bem maior que os seus oponentes, mesmo que a tabela apresente o mesmo resultado para todos.