Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

02 a 17 de janeiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

CINEMA FUNDAMENTAL
Primeira Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul trouxe para o Brasil produções de dez países, na tentativa de ampliar o debate sobre a garantia dos direitos primários da humanidade
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

ezembro foi um mês que marcou o debate sobre Direitos Humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 48 anos; o general chileno Augusto Pinochet, um dos responsáveis pelo Golpe de Estado que derrubou Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, e condenado por crimes contra a humanidade, por causa da morte de cerca de 3 mil pessoas e a tortura de mais de 300 mil, durante o tempo em que esteve no poder, morreu no dia 10 de dezembro – Dia dos Direitos Humanos; e a América do Sul acaba de sediar a sua primeira mostra de cinema sobre o tema.

Entre os quatorze distritos nacionais que existem na região, dez participaram com produções cinematográficas: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Os argentinos e bolivianos, que organizam exibições independentes há alguns anos, são exemplos de que estes festivais, além de proporcionarem o acesso das pessoas a filmes que jamais chegariam através do circuito comercial, procuram ampliar o debate sobre a temática e desmistificar a idéia de que “direitos humanos é direito de bandido”.

“(...) Uma das mais importantes funções do cinema é o testemunho de vida de uma época. Felizmente, não se restringe ele ao entretenimento, como se fosse um apêndice do ócio, e avança sobre questões que merecem atenção redobrada por parte de todos”, diz o Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, em carta aberta ao público, que acabou se transformando no texto de abertura do festival, no Brasil.

A edição nacional da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul começou no dia 1 de dezembro, em São Paulo, passou pelo Rio de Janeiro e Brasília, e encerrou dia 17 em Recife, com a projeção do longa-metragem equatoriano El Comitê, de Mateo Herrera. O festival foi produzido pela Cinemateca Brasileira, com apoio do Sesc São Paulo e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Ao todo, foram exibidos 28 filmes, entre documentários e obras de ficção, escolhidos pelo curador e crítico de cinema Amir Labaki, com apoio da também crítica e jornalista Neusa Barbosa.

Direitos humanos? – Além da seleção proposta pela curadoria, a Mostra exibiu o curta-metragem Direitos Humanos – Cinco Atos. O trabalho de quinze minutos foi elaborado a partir de entrevista nas ruas e com alguns representantes de organizações da sociedade civil, governo, movimentos sociais e da Igreja Católica. O objetivo era saber o que cada um dos entrevistados acreditava ser direitos humanos. O resultado é que a maioria das pessoas entrevistadas nas ruas acha mesmo que Direitos Humanos é uma legislação específica para defender quem comete delitos.

Um dos depoimentos mais fortes do curta-metragem fica por conta de uma dona-de-casa que diz que “nunca precisou dessas coisas de direitos humanos” e quando meninos de rua são metralhados em praças públicas, apesar de sentir pena, ela acredita que, em certos casos, os policiais “estavam certos em matar” e acrescenta “eu perdi um filho com 18 anos assassinado, depois eu descobri que ele estava envolvido com drogas. Mas você sabe que eu prefiro ele morto do que na rua tirando o direito dos outros?”.

Ela é apenas uma dos vários entrevistados que demonstram não acreditar nos direitos humanos como direito à alimentação, saúde, educação, comunicação, orientação sexual, religiosa, política, entre outros. Se este panorama se mostra preocupante, a ele é anexado ainda os entrevistados que sequer sabem o que são direitos humanos e muito menos que são detentores destes direitos. Um adolescente é entrevistado na rua e diz “sei o que é isso não, mano. Como é que eu vou falar se não sei o que é?”, argumenta.

Por outro lado, o curta-metragem mostra que existe um trabalho de formiguinha sendo feito, tanto por parte da população que acredita na garantia dos direitos humanos como uma forma de mudança social, quanto por instituições da sociedade civil, movimentos sociais, governamentais e religiosas. Personagens conhecidos do grande público, como o ator Leonardo Vieira, o padre Julio Lancelotti, e o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, aparecem no vídeo comentando casos de violação destes direitos e sugerindo mudanças que podem ser tomadas para reverter o quadro de descrença e preconceito que toma conta das pessoas nas ruas.

Direitos Humanos – Cinco Atos foi exibido antes da maioria dos filmes da programação e pode ser visto ainda no site da Mostra. Ele é uma justificativa bastante relevante para a existência do festival. É como se, a partir de um panorama de distorção completa do significado dos direitos fundamentais do homem, a Mostra pudesse afirmar para o público que aqueles filmes não são apenas “entretenimento”, mas a constatação de realidades que precisam ser modificadas ou de exemplos importantes que precisam ser seguidos, como a reestruturação do sistema de tratamento para pessoas com deficiência mental mostrado no filme gaúcho Ilhas Urbanas, da diretora Flávia Seligman.

Debates – As discussões proporcionadas pela Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul não ficaram restritas aos corredores, antes ou depois das exibições. A produção organizou um grande debate em cada cidade que sediou o festival. Em São Paulo, ocorreu o debate Direito à Prerefência Sexual, no dia 2 de dezembro, com Amir Labaki, curador da Mostra, o ator Sergio Mamberti, o Ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, e de Claudia Wonder, uma das representantes da Coordenadoria dos Assuntos da Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo. Os paulistanos também tiveram uma conversa com a diretora Shula Erenberg, que participou da Mostra com o filme Cavallo entre Rejas.

Em Brasília ocorreram os debates A Mulher Brasileira Afro-descendente, com as diretoras dos filmes Fala, Mulher!, Graciela Rodriguez e Kika Nicolela, e Nilcéa Freire, Ministra da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, e também o debate A Recuperação da Memória Recente em Nosso Continente, com a presença da co-diretora da excelente produção peruana Estado de Medo, Ana Caridad Sanchez. Ambos os debates foram acompanhados pela assessora especial da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Marília Andrade.

O Rio de Janeiro, por sua vez, abrigou o debate Direitos Humanos – Trabalho Escravo, com os diretores do documentário brasileiro Correntes, que mostra o problema da migração de servidores braçais para condições de escravidão, em diversas fazendas e carvoarias brasileiras, e o complexo esquema que sustenta a prática exploratória, colocando em risco a vida de quem tenta sair dela. Ivan Paganotti e Caio Cavechini foram acompanhados por Laís Ábramo, da Organização Internacional do Trabalho, e Ricardo Rezende, pesquisador e professor da UFRJ.
O último debate aconteceu em Recife, no dia 11 de dezembro, com a presença de Paulo Vanucchi, Andrea Velloso - diretora do filme O Homem Invisível -, a jornalista e crítica de cinema Neusa Barbosa e o diretor do projeto Vídeo nas Aldeias, Vincent Carelli, com mediação também de Ricardo Rezende. O debate na capital pernambucana se chamou Gari tem cara? e tinha como proposta discutir a invisibilidade e o descaso a que são submetidas as pessoas que trabalham com serviços gerais, como garis, porteiros, entre outros.

Segunda edição – Quem acompanhou toda a programação podia ficar até cerca de oito horas nos locais de exibição e debates. A vantagem da Mostra é que havia, entre um filme e outro, intervalos de vinte a quarenta minutos, o que favorecia as trocas de idéias nos corredores e o descanso para uma água entre as seções.

A temática chamou tanta atenção do público que muitas pessoas procuravam saber quando iria acontecer a segunda edição. A organização nacional da Mostra garantiu que o festival vai continuar e a movimentação agora, além de esperar os resultados das produções de cada cidade, é receber dicas e sugestões de quem participou das sessões. Algumas foram dadas até durante os debates, pelo próprio público, que parece querer que o festival amplie não apenas no formato, mas para outras cidades, de preferência de maneira descentralizada, com exibições em espaços públicos.


Mais Sobre a Mostra Cinema e Direitos Humanos 2006


Mostra em Recife: Público sempre presente
Debate: Gari tem cara?