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02 a 17 de janeiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

NOVE ANOS DE BONS ESPETÁCULOS
Festival Virtuosi confirma expectativa com recitais singulares e muito frevo
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
Fotos: Hugo de Lima (hugo@boivoador.com) e Ana Lira

Virtuosi encerrou sua nona edição confirmando que tem estrutura para continuar realizando seis dias de bons espetáculos musicais. A reação do público durante todos os concertos demonstraram que o recifense tem, sim, interesse pela música erudita – seja ela composta no Nordeste ou no Japão. Os musicistas foram aplaudidos de pé e muitos solistas foram convidados a retornar ao palco para tocar obras que estavam fora da programação, apenas porque o público queria ouvir mais. Nem o horário extenso, com algumas apresentações terminando quase meia – noite, foi suficiente para dissipar a platéia.

“Eu vim porque os músicos que tocam aqui são muito bons e isso atrai. É um evento de música internacional que vale a pena”, disse o estudante Rodrigo Samico. Outro que esteve presente com um fervor quase religioso ao Teatro Santa Isabel foi o médico veterinário Paulo Ponce de Leon. “Isso aqui é uma beleza. Eu vim todos os dias e viria muito mais”, diz, acrescentando que desde que descobriu o festival não deixa de acompanhar às edições.

A boa repercussão, contudo, não ocorre apenas entre o público. Para os músicos, o Virtuosi é visto tanto como uma boa oportunidade de trocar idéias com profissionais qualificados quanto pela chance de assistir recitais de artistas consagrados na área. “Não é todo dia que a gente pode ter um concerto como este de Antonio Meneses, que é um pernambucano bastante ilustre na área de violoncelo e, não é todo dia que a gente pode apreciar uma maneira de tocar tão fina. Isso serve de exemplo para os jovens músicos”, comentou Airton Benck, que é trompetista do Quinteto Brassil e músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba.

Belos recitais – O recital de Antonio Meneses mexeu bastante com a platéia do Santa Isabel. O músico pernambucano tocou durante duas horas acompanhado de musicistas de várias partes do mundo, como o violinista israelense Yeheskel Yerushalmi e o flautista brasileiro Rogério Wolf, que fez uma apresentação belíssima. No repertório, além de J. Barriére e Beethoven, o violoncelista trouxe para o Santa Isabel obras de dois compositores brasileiros: Marlos Nobre e Villa – Lobos. Entre as obras de Marlos Nobre, Meneses tocou “Cantoria para Violoncelo Solo” e de Villa – Lobos tocou três peças musicais, incluindo a famosa “Bachianas Brasileiras Nº2”, que foi executada em parceria com a pianista Ana Lucia Altino.

Os recitais do Virtuosi, contudo, não servem apenas para demonstrar que o festival apresenta, a cada edição, um dos melhores elencos de músicos do mundo. Eles também trazem para o público a possibilidade de conhecer obras que raramente são executadas no Brasil. Um exemplo foi a apresentação do casal John e Paula Kasica, na noite do dia 14 de dezembro. Eles presentearam a platéia com a fantástica música de Katsutoshi Nagasawa feita para o Kabuki, tradicional formato de teatro japonês, que se originou no começo do século XVII.

O casal apresentou a obra “Satto Japanese Kabuki Theatre Music”, e envolveu bastante o público, com uma das apresentações mais singulares do festival. “Muito interessante essas músicas que eles tocaram. Eles usaram tão poucos recursos, foi só percussão e flauta e foi muito legal”, disse o professor de Oboé, Arthur Ortenbled, que estava em Recife há apenas um mês.

Além da apresentação deles, outros dois recitais que chamaram bastante atenção do público foram o Recital Visual, do pianista Hugh Sung, que esteve no Virtuosi do ano passado e abriu a edição deste ano, e de Matthias Soucek, no último dia do festival. Sung apresentou obras de Griffin, Carollo e Moussorgsky acompanhadas de imagens transmitidas por meio de computador, que teve um pedal extra colocado ao lado dos pedais do piano. A surpresa deste recital ficou por conta da obra de Francis Poulenc, A História de Babar, que foi narrada por Flávio Medeiros, enquanto os desenhos com a trajetória do pequeno elefante que vira Rei eram exibidos no telão. Por sua vez, o recital de Soucek, embora muito bem executado, foi um pouco mais tradicional, trazendo obras de Schubert, Liszt e Chopin.

Frevando – Contudo, a noite mais esperada do evento foi mesmo a de Homenagens ao Maestro Duda. “Acho que o festival está de parabéns em homenagear o Maestro Duda, do Recife, que é um patrimônio de Pernambuco. Ele é para mim um George Gershwin brasileiro”, disse o trompetista Airton Benck, do Quinteto Brassil, que iniciou a noite com a obra “Lucinha no Frevo”. Quando a música começou a tocar, o público ficou bastante empolgado. O Quinteto abriu uma série de apresentações bem animadas, que se seguiriam com a Orquestra Sinfônica Virtuosi, sob regência de Rafael Garcia, tocando “Concertino Para Viola e Orquestra de Cordas”, “Suite Pernambucana”, “Lucas, o Esperado” e, por fim, “Música Para Metais II”.

Ao contrário do que ocorreu no ano passado, quando Clóvis Pereira foi homenageado e ele mesmo regeu a Orquestra Sinfônica Virtuosi, o Maestro Duda ficou a maior parte do tempo no camarote do Santa Isabel, subindo ao palco para receber as flores das mãos dos organizadores do evento e uma placa comemorativa do Prefeito da Cidade do Recife, João Paulo de Lima e Silva. Após o recebimento das homenagens é que Duda finalmente assumiu a regência para tocar mais um frevo de sua autoria.

Além da organização do Virtuosi, o Maestro Duda também recebeu uma homenagem da operadora de telefonia TIM, que patrocinou uma exposição de fotografias em preto e branco, contando a trajetória do compositor pernambucano. A seleção foi feita a partir do arquivo pessoal do compositor e trazia fotos de várias épocas, como a que ele esteve a frente da Orquestra Paraguari, da Rádio Jornal do Commercio. As imagens e depoimentos coletados foram exibidos no hall externo do Teatro Santa Isabel, local que os amigos e admiradores da obra de Duda usaram para conversar e tirar muitas fotos com o compositor. Ele também será homenageado pelo Carnaval 2007, em Recife, que comemora o centenário do frevo.

Bastidores – Se na sala de espetáculos, o público apreciava os concertos, nos bastidores, músicos, funcionários e profissionais contratados pela produção local também aproveitavam suas brechas para assistir a programação. Um deles foi o maquinista Flávio de Freitas. “Se não trabalhasse aqui talvez não achasse tempo para vir aos espetáculos ou aos concertos. Ou talvez muito pouco. De certa forma, eu gosto muito de cultura e de viver ligado a isso aqui, música, apresentações teatrais e também a orquestra, que é um trabalho muito bonito”. Freitas diz, ainda, que isso acaba ajudando em sua formação cultural. “Aqui é uma porta aberta para o mundo, porque vêm artistas de todas as partes com diversos trabalhos. Eu coleciono todos os catálogos dos espetáculos”.

Quem concorda com ele é o engenheiro de som Otto Drechsler, que desde o ano passado trabalha registrando em áudio as apresentações do Virtuosi. “Cada país tem uma música própria e também tem aquela música que é do mundo. Aqui neste festival nós vemos um encontro da música pernambucana e da música internacional. Outra coisa muito boa é que o nível dos músicos é muito bom, eles podem se apresentar em qualquer lugar”, diz ele, que é alemão, mas mora no Rio de Janeiro há quase 30 anos. O resultado do trabalho de Drechsler na gravação do oitavo Virtuosi foi conferido pelo público, em um cd distribuído gratuitamente na portaria do Teatro Santa Isabel, com uma seleção de concertos do festival. O disco traz ainda uma duas obras de Piazzola que, excepcionalmente, foram gravadas durante a sexta edição, em 2003.

Os planos para a décima edição do Virtuosi ainda não foram apresentados, mas existe a possibilidade da organização montar uma ópera em homenagem a Mozart, em parceria com a Universidade de Memphis, em 2007. Por enquanto, a produção informa que continuará desenvolvendo trabalhos com a Orquestra Jovem de Pernambuco, que teve quatro de seus integrantes compondo o quadro de músicos da Orquestra Sinfônica Virtuosi. Menos de cinco dias após o encerramento do festival, os jovens instrumentistas estavam realizando novos concertos em Recife.


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