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02 a 17 de janeiro de 2007

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O ANO EM QUE O BRASIL “PERDEU” A COPA DO MUNDO
Ditadura, futebol e infância estão em O ano que meus pais saíram de férias
por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com)

ostrar a ditadura militar em países da América Latina através do olhar de uma criança já não nos traz grandes novidades. O Chile fez isso através de Machuca (2004), a Argentina através de Kamchatka (2002) e El Salvador (em uma produção americana) através de Vozes Inocentes (2004). Agora é a vez do Brasil de mostrar o seu “olhar” de inocência sobre um episódio que deixou uma herança de histórias que o cinema insiste em contar. Com tudo isso contra, Cao Hamburger consegue imprimir uma imensa vitalidade e lirismo em seu O ano em que meus pais saíram de férias (2006), um relato emocionante do que é ter a infância deixada de lado por motivos desconhecidos e contraditórios.

Em um conturbado momento político, 1970, os pais de Mauro (o excelente garoto Michel Joelsas, grande razão de o filme existir, juntamente com a leve e inspirada direção de Hamburger) precisam fugir e deixam o garoto aos cuidados do avô, que mora no Bom Retiro, em São Paulo. Mauro é deixado na frente do prédio do avô e descobre, nesse mesmo dia, que ele havia morrido. Sem ter ninguém por perto, faz amizade com o vizinho Shlomo, que mesmo contrariado aceita cuidar do garoto. A história não tem nenhum lance de grandes novidades, inúmeras vezes no cinema amizades que pareciam ser antagônicas acabam dando certo.

O que faz a diferença em O ano que meus pais saíram de férias é que Cao Hamburger estava inspirado quando colocou a sua câmera para filmar. Seus planos e seqüências são leves, artísticos e demasiadamente cotidianos (no bom sentido), como se a vida estivesse passando por nossa frente sem nos darmos conta. Mesmo com alguns pouquíssimos tropeços (a comunidade judaica um pouco estereotipada é o mais visível deles) Hamburger mostra uma paixão muito grande pelo objeto filmado, sua câmera encanta tanto quanto o pequeno Mauro, que mostra o quanto o diretor aprendeu na arte de dirigir crianças, com o Castelo Rá-Tim-Bum.

Mas a máxima “pão e circo para o povo” é o que mais assusta em O ano que meus pais saíram de férias. As cenas dos jogos da Copa do Mundo de 1970, na qual nos tornamos tricampeões mundiais, nos deixa com um leve sabor de desagrado na boca. Para todo brasileiro que se preze, futebol é um assunto sério, imagine então uma Copa do Mundo. Mas ao ver toda a euforia sendo usada para alienar uma nação a favor de uma ditadura cruel e covarde, faz muito mais impacto do que qualquer outra história sobre os anos da ditadura.

Tínhamos o time dos sonhos de qualquer mortal (Pelé, Jairzinho, Rivelino, apenas para citar alguns) que infelizmente serviu para desviar os olhares atônitos de um povo que precisava se sentir novamente uma pátria, que precisava elevar sua auto-estima sendo alguma coisa em algum lugar. E para isso serviu a Copa de 70, fazer com que os brasileiros esquecessem o golpe militar de 64 (e o famigerado AI-5 imposto em 1969) e lavassem a alma de verde e amarelo. Nunca o circo foi tão grande e o pão tão pouco, como se começou a ver após os anos 70, início dos anos 80: desemprego, pessoas passando fome e sem onde morar. Uma pena que um espetáculo tão lindo, com gols e dribles inesquecíveis nos estádios mexicanos, servisse para abafar toda a corrupção e atrocidades empreendidas pelo governo Costa e Silva.

Não que hoje isso seja muito diferente, com diversos “circos” que nos fazem esquecer as mazelas sociais e políticas que estamos vivendo, mas ao ser visto de uma maneira tão simples e honesta como é mostrada em O ano que meus pais saíram de férias, nos entristece e assusta. Mesmo se tratando de uma história individual e afetiva, O ano ganha forte contexto político ao falar de uma paixão nacional que serviu (e serve?) como válvula de escape para anos tão repressores, guardando assim uma enorme proximidade com Pra frente, Brasil (1982), que também se passa durante a Copa de 70, esse sim o melhor filme brasileiro sobre a ditadura militar.