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02 a 17 de janeiro de 2007

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QUANDO MENOS É MAIS
Com uma performance discreta e genial de Paul Giamatti, O Ilusionista entretém e faz pensar, sem truques de roteiro ou excessos visuais
por Fernando Américo (feramerico@yahoo.com.br)

Ilusionista é um filme sobre magia que é também um tratado sobre o ato de olhar. Tudo o que vemos é verdade? A resposta não é simples, e mesmo sendo um filme sem floreios visuais e truques de narrativa, ele se apóia na inteligência e principalmente num jeito de contar a história que valoriza os silêncios, as pausas, os pequenos gestos que demonstram mais sobre um personagem que quatrocentos diálogos. O Ilusionista é um objeto raro nestes últimos tempos no cinema comercial de Hollywood: uma boa história contada de uma maneira que emociona, surpreende e valoriza o que está sendo narrado. Mas isto não o diferencia de outras boas histórias bem contadas que simplesmente não conseguiram atrair o público – como Os Imorais, de Stephen Frears, ou mesmo Donnie Darko, o filme que reinventou o cult-movie para a geração DVD. O que diferencia O Ilusionista e fez com que ele conquistasse uma bilheteria respeitável nos Estados Unidos é uma cuidadosa escolha de elenco. E se tivéssemos que achar o ás na manga, estaríamos falando de Paul Giamatti.

Aqui, cabe um parêntese. Apesar de ter adorado American Splendor e Sideways – Entre umas e outras, e ter a certeza de que Paul Giamatti fazia parte do encanto dos dois filmes, eu achava que ele estava se acomodando demais no papel de loser – apesar de que em ambos os filmes ele mostre facetas diferentes deste mesmo personagem. Pois bem, Paul Giamatti desta vez não é um perdedor; mas a sua escalação para o papel do Inspetor chefe Uhl, chefe de Segurança do Império Austro-Húngaro na virada do século é um perfeito golpe de casting – Giamatti traz para o personagem uma carga de lealdade e uma humildade, pelo fato de o conhecermos como um o loser. Ele consegue assim nossa simpatia, e é exatamente isso que o diretor e roteirista Neil Burger quer, porque é pelos olhos de Uhl que vamos assistir esta história.

O espião do príncipe - O Inspetor Chefe Uhl é designado pelo próprio Príncipe do Império (Rufus Sewell) para vigiar sua noiva, a condessa Teschen (Jessica Biel), que na adolescência teve um pequeno romance com um garoto que foi se tornar o grande mágico Eisenhein (Edward Norton, mais contido que costume, mas muito americano para o papel). O problema é que a condessa e o mágico não conseguem ficar longe um do outro e retomam sua paixão do ponto em que tinha parado, há dez ou quinze anos.

É aqui que entra o chefe Uhl. Ao ser designado pelo Príncipe, o homem mais poderoso do Império, para vigiar o casal, Uhl tem pena, pois é um admirador de Eisenhein, mas cumpre o seu dever e começa a perseguir Eisenhein, até que um singular acontecimento vai mudar a vida de todos. Não vale a pena aqui dizer que acontecimento é este; o filme é daquelas experiências que são melhor usufruídos sem que saibamos muito sobre ele.

Ilusão verdadeira - Basta dizer que O Ilusionista é um filme de um rigor exemplar; nenhum plano é mais do que o suficiente para contar a história. Toda esta simplicidade só realça o jogo entre os atores – Jessica Biel está luminosa, Edward Norton, apesar de deslocado, se entrega ao papel com um total domínio do olhar, e Paul Giamatti… bem, Paul Giamatti nos dá sua melhor interpretação em anos, e se sua performance não tem força para ganhar um Oscar, é porque Giamatti faz parecer que é fácil; não quer dizer que seja. Para a Academia, atores que gritam, esperneiam, fazem sotaque, ou morrem são mais dignos de serem premiados. Tudo o que você está vendo é uma ilusão – diz o príncipe ao Inspetor-chefe Uhl, ao que ele replica: Talvez haja verdade nesta ilusão. Além de conter a chave do mistério do filme, estas palavras servem como uma epígrafe para a carreira de Paul Giamatti, que sempre se envolve com personagens histéricos, neuróticos ou simplesmente macambúzios, dignos de serem coadjuvantes, mas que de repente têm um momento ou gesto em que mostram toda a sua grandeza e sensibilidade. Este é mais um dos inesquecíveis papéis deste pequeno grande ator, para quem menos é muito, muito mais.