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02 a 17 de janeiro de 2007

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QUEBRANDO TUDO
Los Shakers foi a resposta latino-americana à onda Invasão Britânica nos anos 60
por Marcelo Xavier  (marcelo@rabisco.com.br)

e o rock platino tem um antes e um depois, o divisor de águas se chama Los Shakers. No começo dos anos 60, quando a onda beatle chegou no Uruguai, um grupo de rapazes resolveu adotar aquele estilo e fundar uma cena musical que praticamente inexistia naquelas plagas. Montando uma banda de rock na sonolenta Montevidéu, os Shakers (ou Los Shakers) resolveram quebrar tudo contra tudo e contra todos, se transformando numa exceção que virou regra, mudando o perfil da música popular latina. misturando o modismo pop e o estilo próprio, fundando o que podemos chamar hoje de rock argentino e suas variações. 

Invasão uruguaia — No início da década, o pop argentino estava dominado pelo mesmo gênero musical que se alastrou na América Latina no rastro de cantores como Paul Anka, Neil Sedaka e Bobby Darin, sem que, no entanto, os seus congêneres platinos conseguissem firmar esse estilo: muitos desses artistas faziam grande sucesso, e desapareciam logo em seguida.  Foi quando surgiram rumores da “Invasão britânica”, onde bandas de rock que, enfiadas em terninhos, usando cabelo-tijela à moda existencialista, faziam um som que misturava o rockabilly e o rithym’n blues norte-americano com o soul da Motown.

A moda pegou logo. A primeira banda platina a arriscar-se nesse estilo foi o Los Buhos. No entanto, sem ir além de mera cópia do rock inglês, a carência de composições próprias e um instrumental um tento discreto, o tempo cuidou de lembrá-los mais pelas franjas do que pelo som. Mesmo com o ‘boom’, ainda anão havia nada de representativo no gênero.

Enquanto isso, na borda do rio da Prata, quatro amigos faziam um certo sucesso em Montevidéu, capital do Uruguai, como uma banda de jazz. O quarteto, formado em 1963, era aclamado toda noite no Hot Club, ambiente alternativo destinado ao jazz e à cena de vanguarda da cidade. No começo de 64, como a maioria esmagadora de jovens em todo o mundo, eles não resistiram à tentação de assistir A Hard Day’s Night, filme de estréia dos Beatles. 

Saíram da sessão bastante impressionados. Decidiram que aquele ‘appeal’ musical modelo apresentado pelor garotos de Liverpool iria ser o exemplo que eles iriam seguir a partir de então. Os quatro uruguaios magnetizados pela magia de John, Paul, George e Ringo eram os irmãos Hugo e Osvaldo Fattoruso, Roberto ‘Pelín’ Capobianco e Caio Villa. Cristianizados pela sonoridade efervescente da British Invasion, eles resolveram mudar de nome: agora passariam a se chamar Los Shakers.

Como acontece com toda banda de rock, eles recomeçaram a sua carreira como “conjunto de baile” em botecos de Montevidéu e entre a boemia bem vestida de Punta del Este. A identificação do público jovem foi rápida e forte. Na seqüência do sucesso local, gravaram algumas canções, ainda que em condições precárias (curiosamente, a música escolhida para o début foi “My Bonnie”). A subsidiária da EMI na Argentina, Odeon, logo após tomar conhecimento dos Shakers resolveu convidá-los para gravar em seus estúdios, em Buenos Aires. Não podia ser melhor: se os Beatles deixaram o rastilho de pólvora pelo caminho, agora restava a eles fazer aquilo explodir.

Gravaram alguns compactos, incluindo alguns covers, mas que não chegaram a surtir muito efeito. Então resolveram gravar uma composição própria, “Break It All” (que ganhou versão brasileira com o The Bubbles, intitulada “Não Vou Cortar o Cabelo”). Foi o big bang. O primeiro disco provocaria uma pequena revolução, não muito diferente da que ocorria a quilômetros dali, na América. 

Resposta — Instrumental exemplar, inglês peculiar, arranjos caprichados e intrincados, mesmo assim, não soavam como um pálido simulacro dos Beatles, mas sim como uma banda de rock mesmo, feita por iniciados — ao contrário de muita coisa que surgiu na América Latina em resposta ao célebre quarteto britânico, quase sempre longe de ombrear os garotos de Liverpool pelo menos no quesito ‘instrumental’. Além das músicas próprias, os Shakers tinham um gosto peculiar ao elaborarem leituras interessantes de números como “Keep Searchin’, de Del Shannon, e “It’s My Party”, de Lesley Gore. Muitos deles acertavam em cheio o gosto do público. Logo veio o prestígio internacional.

Na Argentina, a agenda de shows estava lotada: atendiam a uma média de quinze apresentações por semana. Nos fins de semana, chegavam a tocar em cinco clubes diferentes, sendo obrigados a se desdobrarem em grupos de equipamentos para suportar a demanda. O homônimo elepê de estréia da banda fez com que regravassem muito do material antigo com coisas novas, para um lançamento musical. Daí saiu o álbum Break It All, feito em qualidade impecável se comparada à empregada para artistas do gênero naquele tempo. O disco passa a limpo o som anterior, disperso em singles e no primeiro trabalho, contando com petardos como “What a Love” e a inspiradíssima balada “Forgive Me”.

Com a evolução do rock na Argentina, os Shakers foram paulatinamernte deixando o inglês, passando a incursionar pela língua-mater, o espanhol, até por uma questão de aproximação com a pláteia e de possibilidade de maior sucesso comercial. Ao mesmo tempo, a sonoridade mudava, no sentido de busar um denominador comum entre a identidade de ser um grupo de músicos de raiz platina tentando assimilar e recriar o código do rock na realidade latino-americana -  e dentro do leque de oportunidades que o próprio gênero passava a comportar no âmbito internacional, misturando a linguagem folclórica e urbana (como o country-rock a partir de meados dos anos 60). Desta forma, a música dos Shakers tomou rumos diferentes, no sentido de uma evolução na busca de um estilo original:

— No começo, éramos uma conseqüência dos Beatles — disse Caio, certa vez. — Com o tempo, fomos adquirindo a nosso própria personalidade com nossas composições.

A segunda dentição foi o Shakers For You (1966). À medida em que acompanhava a tendência do pré-psicodelismo com ecos do folk dos Byrds ou arranjos de guitarra mais sofisticados e minimalistas, como se oriundos de concepções dos discos ‘de transição’ dos Beatles, como o Rubber Soul e Revolver, o quarteto uruguaio incursionava agora também dentro da musicalidade latina, explorando ritmos como o tambo ou a bossa-nova, passando até pelo samba, em “Never, Never” (que fez grande sucesso no Brasil) e chegando ao paroxismo da experimentação musical, em "I Hope You Like It", e que está para os Shakers o que ‘Tomorrow Never Knows” está para os Beatles, nesse contexto. 

A partir de 1967, os Shakers foram abandonando o Inglês em favor do espanhol em suas músicas, ao mesmo tempo em que o estilo mudava e o público também, eles passaram o ano investindo em compactos “Marilu”, Si Lo Supiera, Mama”) lançados pela Odeon a partir das novas composições da banda, enquanto o disco seguia em compasso de espera, que nasceu dessa entressafra musical, viria a se tornar referência do rock latino: La Conferencia Secreta del Toto's Bar

Tido como a obra-prima do quarteto uruguaio, o Toto’s Bar (nome de uma bodega de Punta Del Este) também foi o seu canto do cisne. Lisérgico, experimental, tropicalista, era a resposta à carnavalização sonora de Sgt. Pepper’s e todo o corolário do Flower Power em terras platinas, amalgamando o rock básico e o psicodelismo melódico com jazz (o atavismo da banda) ritmos de raiz latino-americana, como o tango e o tambo. Trazia também grandes canções, como “Más Largo Que El Ciruela”, “Siempre Tu”, "B.B.B.Band" e "Candombe", as melhores do disco. 

Contudo, eles pagariam alto por apostar nesse experimentalismo ululante: a gravadora tentou vetar o lançamento, o que resultou num gancho de quase um ano, quando enfim a Odeon resolveu lançar La Conferencia — mesmo assim, sem avalizá-lo com um único e escasso vintém de material promocional. E o álbum veio à lume assim mesmo, renegado pela Odeon e aclamado pela crítica (que o chamou de o Pepper’s do Rio da Prata), só em 1969, e quando os Shakers já não existiam mais.

A Volta — Mas como nem tudo o que é bom dura pouco, os Shakers estão de volta: a banda retornou este ano para gravar um álbum novo e viajar o mundo inteiro com uma turnê — e como não poderia deixar de ser, com shows marcados no Brasil. A estréia foi em Montevidéo, em 11 e 12 de novembro do mês passado, no Cine Plaza.

Site oficial:

http://www.losshakers.com/