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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

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EM TERRITÓRIO AFRICANO
Comercial, sem ser idiota, Diamante de sangue mistura muita ação e consciência política
por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com)

om todos os conflitos que acontecem na África, o continente parece ter se tornado a “bola da vez” em Hollywood. A Nigéria foi vista em Lágrimas do sol (2003), a Etiópia em Amor sem fronteiras (2003), Ruanda em Hotel Ruanda (2004), a África do Sul em Em minha terra (2004) e no ainda inédito Em nome da honra (2007) e o Quênia em O jardineiro fiel (2005).

Agora é a vez de Serra Leoa e o tráfico de diamantes que eram usados (e ainda são em alguns outros países africanos) para financiar a guerrilha na guerra civil que vitimou o país nos anos 90, servir de base para um filme. Esse é o tema de Diamante de sangue (Blood Diamond, 2006), filme de ação que traz uma novidade que não é muito comum ao gênero: roteiro inteligente (apesar dos deslizes melodramáticos) com um pano de fundo social e uma alta dose de ironia e consciência política.

Danny Archer (Leonardo DiCaprio em uma excelente interpretação, mostrando que está dando um rumo certo a carreira pós-Titanic e Gisele Bundchen) é um mercenário africano que contrabandeia diamantes para uma grande empresa européia. Solomom Vandy (Djimon Hounsou), um pescador de etnia Mende é expulso da aldeia onde vive, separado da família e escravizado como garimpeiro nas minas de diamantes que são usados para financiar a guerrilha (com armas e drogas) da Frente Revolucionária. Solomon descobre uma enorme e rara pedra e a esconde antes que seja encontrada pelos guerrilheiros. Em determinado momento os caminhos de Solomon e Archer se cruzam e se completam: Archer quer a pedra para sair da África e ter uma vida melhor, Solomon quer rever sua família. Com objetivos e personalidades tão distintos eles acabam se unindo e descobrindo mais sobre si mesmo e cada um deles do que poderiam imaginar.

A direção, no geral, segue as regras da cartilha dos filmes de ação e de bilheteria garantida nas estréias de férias, mas Edward Zwick revela algumas surpresas, todas elas muito bem vindas. A primeira é na ótima direção do elenco, em especial os protagonistas Dicaprio e Hounsou e a segunda no nível dramático e semi-documental que imprime às cenas dos massacres nas aldeias e na capital, cenas contundentes que nos faz pensar que a realidade sempre é pior que aquilo que vemos na tela. Zwick examina de forma quase didática os meandros da exploração dos diamantes, o uso de crianças e adolescentes na guerrilha e como os países poderosos fecham os olhos para uma situação e uma guerra que, em muitos casos, torna-se viável aos interesses econômicos de uma minoria.

Em determinado momento um personagem diz que "Tomara que nunca encontrem petróleo aqui. Aí, sim, teríamos problemas" – fina ironia que cutuca o intervencionismo americano da era Bush e que também está presente no cinismo de Danny Archer que, sem escrúpulos, apenas quer lucrar em cima dos conflitos alheios, como toda a sociedade mercantilista que endossa os propósitos das grandes corporações que exploram a pobreza terceira mundista.

Através de seu viés político de exploração de grandes empresas em solo africano, Diamante de sangue guarda algumas semelhanças com O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Seja no tom de denúncia (uso ilegal de diamantes em grandes joalherias, no caso do primeiro e o uso de africanos como cobaias para experimentos da indústria farmacêutica no segundo) ou na fotografia predominante em cor terra (Eduardo Serra em Diamante de sangue e César Charlone em O jardineiro fiel). A África de Zwick é muito próxima da África de Meirelles, na verdade ambas se completam em uma unidade de alerta no mundo que se diz globalizado.

Todo esse discurso pode parecer pequeno e ingrato (como realmente deva ser), mas apenas o fato de um filme produzido por um grande estúdio (Warner), tendo astros do primeiro time, contar uma história de interesse humanitário (mesmo que em muitos momentos seja piegas) já é, por si só, um grande alívio. Se ainda nos faz pensar e refletir sobre uma situação que há muito tempo já estava esquecida nos telejornais, temos apenas que agradecer e esperar que mais filmes sigam o mesmo caminho.