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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

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ESQUIZOFRENIA BELA E CRUA
João Gilberto Noll mostra mais uma etapa da sua literatura subversiva no premiado Harmada
por Julie krauniski ( julieanne_26@msn.com)

... escutei um leve suspiro quando vi os meus pés nus... sim, as águas eram frias, mas isto fustigava o meu sangue e o conclamava a não sei o quê, talvez a que eu entrasse mais e mergulhasse com severa determinação nas águas daquela noite.

pesar de sua contemporaneidade, o escritor gaúcho João Gilberto Noll já é considerado um dos principais escritores brasileiros. Em 1994, Harmada ganhou o prêmio Jabuti de Melhor Romance e foi adaptado para o cinema em 2003. No livro, cem páginas é o suficiente para desconcertar o leitor meio a fragmentos crus, obscenos e um tanto quanto esquizofrênicos.  Noll apresenta um texto desconexo e solúvel aos fatos, e faz dessa linguagem o único meio possível para descrever o mundo de Harmada.

Em meio a um cenário melancólico, o rio da cidade metaforiza o mal-estar insolúvel dos personagens que vagam sem vínculos ou raízes, como se estivessem dentro d’água – instáveis, quase não tocando o chão. As idéias e ações do personagem principal, um ex-ator, são independentes de razão; dissolvem a qualquer instante ao passo que fatores externos esbarram em sua vida. Uma vez dissolvidas, fazem parte da ocorrência como se esta fosse a única forma de existência.           

Ele poderia escolher não se envolver com as intervenções do caminho, mas se entrega a todas, como o rio à correnteza.  Contudo, o envolvimento é de corpo, não de alma.  A falta de sincronia entre o físico e o metal culmina na esquizofrenia da história e, conseqüentemente, da forma textual, uma vez que o personagem principal é o narrador. Esta incoerência produz um “de repente” contínuo. Não há como prever as situações. Nem mesmo o narrador – personagem sabe para onde está indo ou com quem estará três frases adiante. Desse modo, o texto é fragmentado do início ao fim. Falas, pensamentos e atitudes se alternam numa vertiginosa narrativa.

Noll apresenta a natureza humana em sua versão mais crua – como ela seria sem disfarces, moral, vínculos e responsabilidades financeiras. Então, livre de moralidades, a história se desenvolve em estado de liberdade e libertinagem. O protagonista passa dias dormindo em lama fétida, participa de orgias sexuais, entre outras experiências. A literatura de Noll impressiona em Harmada, pois combina personagens em “carne viva”, como disse uma vez Bernardo Ajzenberg, com a mais densa narrativa existencialista:

- Voltei para bem próximo da ferida do garoto, saboreei o gosto meio repulsivo da minha boca vazia, e soltei uma cusparada bem no centro da ferida... A partir daí o garoto como se esvaziou, ali, na minha frente... O seu corpo continuava inteiro, sim, inclusive a sua ferida e tudo mais, mas ele parecia oco, sei lá, o que sei é que ele só fez andar... Os personagens também são carne exposta – sexo e putrefação: Estou ali, deitado na terra, todo enlameado... isto que me expelia de mim não me tornava propriamente um trânsfuga mas me dissolvia dentro de uma espécie de passagem que era quente e lembrava, não sem um assombro, o gozo sexual, e tanto isso é verdade que acordei no instante exato de uma polução. Quis confirmar, e toquei na virilha melada.

A obra não possui um enredo linear. As cenas se emaranham na esquizofrenia do ex-ator e se agravam no desuso do ponto. O resultado é um ritmo intenso, quase alucinante, em que o protagonista se asfixia com seus próprios pensamentos. Esta instabilidade só é possível com a narração em primeira pessoa, recurso comum, porém, aplicado de forma muito peculiar por João Gilberto.  O fluxo constante incomoda. Os personagens desconcertantes e as cenas inusitadas sugerem, de maneira sutil, um estilo anárquico - Harmada é contracultura. Eles são inadequados e vivem em desacordo com o cotidiano. Por isso, estão em correnteza, sempre em locomoção, sempre fugindo de alguma coisa desconhecida e indo atrás de outras tantas também desconhecidas.

O livro é leitura obrigatória para entender o estilo subversivo de Noll. É também um elogio ao teatro, ao poder de recriação e ao exercício de viver outros mundos. Os personagens mais relevantes da narrativa são do meio cênico. Aliás, os momentos cômicos do livro são, justamente, os espasmos teatrais do ex-ator. Harmada é prosa poética – possui ritmo e uma estrutura capaz de produzir conteúdo por si só.